2007-07-30

Bikes, Parte 30: Igor Miyamura

Construção artesanal e sob medida de bicicleta usando a melhor liga de aço existente (Reynolds 953).
Aqui.

2007-07-22

Não adianta, ainda adoro aviões



Diante de tanta tristeza, ódio e negatividade no país, e ao sentir que esse clima ruim estava me contagiando também, resolvi que é preciso começar a fazer algo original: olhar o lado brilhante.

Começo por essa foto feliz, que fiz em 20 de novembro de 1995 com minha velha Sony Cyber-Shot T7, a apenas 150 metros do local que todo mundo tem visto pela TV.

Lembro de ter parado com a bike no ponto exato do alinhamento com o eixo da pista de pouso, na estreita calçada que ali é separada do asfalto por uma sarjeta cheia de caquinhos de vidro e guard-rails amassados, pois naquele local a avenida faz uma curva brusca, onde os carros passam rápido demais quando não há congestionamento.

A tarde estava perfeita, o céu bonito, e os aviões passavam tão depressa por sobre minha cabeça que era difícil acertar um enquadramento com minha câmera compacta. Eu fixava a exposição, punha a máquina em modo burst, e quando o avião passava, virava a cabeça acompanhando o movimento e disparando sem parar. Depois de algumas tentativas frustradas com o enquadramento fechado, abri o zoom e terminei com a foto acima.

Minhas memórias com aviões só são felizes. Aviões são belos.

Nada como a sensação impressionante do poder da aceleração da aeronave ao decolar. Aquela sensação estranha no estômago quando o avião muda de elevação. O céu escuro da alta altitude visto através de uma janela meio embaçada, os ouvidos amortecidos. Nada como ver a segunda metade de um filme sem som e com legendas em holandês e, de alguma forma, conseguir entender a história. Nada como um pôr do sol espetacular visto de cima das nuvens. Nada como as luzes noturnas da cidade de Salvador, Bahia, passando exatamente por baixo de você. Ou as misteriosas formações geológicas em Minas Gerais que não dá para reconhecer no Google Maps. A sensação inédita de ver as primeiras casas de madeira suíças cobertas de neve, acompanhadas de árvores desfolhadas num mar branco. A costa rochosa e recortada onde a Galícia se encontra com Portugal. Ou o contorno fantástico da ponte aérea ao sul do Pão de Açúcar ao retornar do Rio. Pequeninos carros em estradas refletindo o brilho intenso do sol por um instante breve. A cor turva e arroxeada do ar de São Paulo numa tarde poluída de setembro.

Não gosto de dormir em avião; gosto de ficar atento e observar cada pedaço da paisagem que se esvai rapidamente, no ritmo certo para ser apreciada sem enjoar. Gosto de tentar identificar as cidades e rios de memória e ver na tela de informações que nossa altitude é a mesma do pico do Everest.

Gostei de ter sido improvisado em um assento da tripulação num 747 absolutamente lotado e ter ganho um cobertorzinho, refeições de primeira classe e brindes da companhia como compensação pelo desconforto. E na verdade não havia desconforto, porque naquela modesta tábua de sentar era possível ficar espichado, enquanto as pessoas nas poltronas não tinham paz para dormir, a ponto de algumas preferirem se jogar no chão ao redor.

Gosto do aroma do combustível e do silvo das turbinas, da tripulação elegante e culta, e gosto do jornal estrangeiro que alguém deixou no suporte atrás da poltrona para eu ler de graça.

Vivi durante 20 anos em Guarulhos, exatamente embaixo da rota principal dos aviões. Vi da porta da rua aviões que não existem mais, como o 727 e o DC-10. Vi do quintal de casa o Concorde barulhento que trouxe François Miterrand e o Air Force One com Ronald Reagan a bordo.

Nas últimas semanas, passando de ônibus e de bike pela avenida ao largo de Congonhas, vi repetidamente o avião do presidente Lula estacionado num canto do aeroporto que é o mesmo lugar por onde escapou o Airbus que explodiu.

2007-07-17

Não foi acidente. Foi crime

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

2007-07-15

Bikes, Parte 29: A burrice da televisão

Nas raras ocasiões em que alguma das modalidades de ciclismo chega à mídia esportiva, renovam-se as esperanças que ela receba um tratamento um pouco melhor que a mistura habitual de displicência e ignorância. O Pan do Rio é uma dessas oportunidades.

Daí que, manhã ociosa de domingo de tempo ruim, sofá confortável da Tuta, assisto à cobertura do Pan na TV com interesse vago e disperso. Até que é anunciada uma transmissão de competição de "mountain bike" ao vivo. Me ajeito no sofá e presto atenção. Quando surge a imagem...

Para meu espanto, o repórter da Globo narra uma prova de BMX - bicicross - chamando-a de "mountain bike" repetidamente, desde a largada até a medalha de prata para a brasileira.

Já é bem sabido que, na cabeça do povo em geral, bicicleta não passa de "brinquedo" ou "condução de pobre". Na hora de falar do esporte, a mídia reflete esse preconceito. Estamos em pleno Tour de France e nem se comenta nada. Mas, acima de tudo, se houvesse um hipotético complô dentro da TV visando ofender e alienar os praticantes de esportes a pedal, não conseguiriam agir de maneira mais eficaz do que errando descaradamente a identificação da modalidade.

Aquilo que denominamos mountain bike é um agregado de várias modalidades diferentes entre si. Confundir qualquer uma delas com BMX é equivalente a confundir stock car com motocross. Ou maratona com a corrida de 800 metros. Ou tae kwon do com judô. Você, pessoalmente, faria uma confusão dessas? Faria essa confusão na condição de profissional do ramo, que vive disso? Faria isso com cara limpa na frente de milhões de telespectadores?

Onde está a checagem da informação ou um especialista do esporte para esclarecer e orientar a cobertura? Sem esse apoio, você simplesmente não pode confiar no que ouve.

Não vou ter a cara de querer apontar um culpado único e simples pela situação, mas há um fator preponderante. A mídia esportiva é obsessivamente focada em futebol, futebol, só futebol, futebol e mais futebol. O caderno de esportes do jornal que leio tem no máximo uma coluna de vôlei, uma de Fórmula 1 e uma de tênis, aparentemente para fazer média. O Pan merece um caderno especial separado nos jornais, não se misturando à rotina normal do futebol.

Não sou nem um pouco contra o futebol; tanto que acabei de assistir à bonita vitória da seleção do Brasil na Copa América. O que estou apontando é uma questão de proporção. Interessar-se unicamente por futebol, creio, empobrece e até emburrece. A mudança nessa pobreza cultural e mental deve partir da própria pessoa que consome o produto midiático. Enquanto não exigir algo diferente, ficará como está.

2007-07-12

Opa! Que sopa!

Sem querer, comecei uma bela discussão sobre linguagem escrita na Internet, no blog da Cora. Participe...

Pergunta capciosa: você consegue ler corretamente os textos abaixo?
Exemplos reais encontrados no orkut.

☆ღ ¸.•*:♥☆ aDoRo SeR iNvEjAdA E OdiAdA, PoIS NgM iNvEjA o FeIo E nInGuEm OdEiA O fRaCo☆ღ ¸.•*:♥☆

ѕє ¢σмfσямє є ρσинα-ѕє єм ѕєυ ∂єνι∂σ ℓυgαя: σ ∂є ¢σα∂נυναитє...

nka keru perde sua amizade ela eh mto especial pra mim...

♥ ¡tє αмo αмor! ♥

[° Ah garOta maix feliiix ... pOis tenhO a Familia maix maravilhOsa dO mundO ... Oh namOradO maix perfeitooO ki existe ... E as amigas maix lOkas iih Lindas ki alguein pOderia ter °]
e nois combina de sai pum chopps soh pa ri d td

(((((((((((((((Amiga P.e.r.f.e.c.t)))))))))))))))

AmOoO De MaiSssSs Da contA!

Clube do G3: curiosidades do iMac

Fuçando os arquivos da Macmania para escrever o post sobre os iMacs, trombei com algumas imagens interessantes sobre os precedentes do seu design. E algumas palhaçadas também.







Logo após o lançamento do primeiro Macintosh, a Apple encomendou ao estúdio Frogdesign uma série de estudos para uma geração futura de computadores. Esses protótipos ficaram conhecidos como "Sete Anões" e a linguagem visual utilizada tinha o apelido de "Branca de Neve" (SnowWhite).
Os designs são de 1985, quando Steve Jobs ainda estava na Apple. Nenhuma das propostas virou produto, mas é espantosa a sua semelhança com alguns Macs que foram fabricados somente na década seguinte. Até a idéia de variar a cor do gabinete já tinha surgido.
Quando Jobs saiu da Apple, a Frogdesign foi junto com ele: rompeu a parceria com a Apple e fez o design do cubo NeXT. A Apple permaneceu usando o estilo SnowWhite durante mais alguns anos, até criar o seu próprio (Espresso).
Estas fotos eram segredo interno da Apple até 1997, quando foram reunidas e lançadas no livro chamado AppleDesign: The Work of the Apple Industrial Design Group e também reproduzidas numa edição da revista Macworld.



"Jaguar" foi o nome de um projeto de 1990 para uma nova geração de Macs com processador RISC. Também não deu em produto nenhum, mas foi o ponto de partida para a linguagem visual Espresso. Os estudos preliminares acima vieram de uma parceria com o estúdio do designer Giorgetto Giugiaro. Os designers da Apple não gostaram muito das idéias: eram "automobilísticas" demais.
A fonte esta imagem é o mesmo livro mencionado acima.




Uma imagem de divulgação de 1998 (fábrica) e outra de 1999 (feira Macworld San Francisco).




A imagem de cima é uma paródia que fiz em 1998 para o suplemento de humor Macintóshico.
Se tivesse usado branco em vez de bege, hoje poderia posar de vidente...



Outra paródia minha de 1998, incorporando idéias dos usuários para um "iMac ideal": tela de 17" com superfície plana; uma cor azul autêntica (não arroxeado, não turquesa); drive de disquete; mouse ergonômico. As idéias acabaram virando realidade em iMacs posteriores - com exceção do disquete.

2007-07-11

Clube do G3: o pai do iMac

No post anterior sobre o iMac, fiz dois comentários: que o design curvilíneo e colorido rompia com o conformismo da indústria em enfiar todo tubo de imagem CRT numa caixa retangular bege; e que a tecnologia "revolucionária" do iMac já existia antes, apenas não tinha ganhado uma embalagem visualmente sedutora. Este texto sobre o antecessor do iMac prossegue nesses temas.

Eis "o iMac antes do iMac" - o computador monobloco que a Apple produzia antes de reinventar tudo do zero:



Esse design integrado "tudo-em um" foi usado sem modificações numa larga variedade de modelos lançados entre 1995 e 97: 5200, 5215, 5400 5500 e outros que formam a "série 5000". Foi o primeiro monobloco da Apple com processador PowerPC.

O exemplar incorporado ao museu foi gentilmente cedido pelo Junior Sacco, da Conrad. O primeiro dono foi o Ale Monti.

Eu o levei para casa na mão, de ônibus. (Sim, todos os seus 21 quilos.) O modelo exato é um Performa 5215CD, e foi fabricado em outubro de 1995. Muito provavelmente, é um dos Macs vendidos na Fenasoft de 1996 por um preço em torno de R$ 1700 (em torno de 3 mil em dinheiro atual). O stand da Macmania na feira pegou emprestados quatro deles para deixar os visitantes jogando Marathon em rede. O Mac do Junior veio em perfeito estado e roda o mais recente sistema suportado, Mac OS 9.1, num HD ATA de 1 giga. A memória está no máximo: 64 MB. Falta um cartão de rede Ethernet no slot PDS, mas posso pegar um de uma outra motherboard.

A (feia) denominação "Performa" se refere ao pacote (bundle) dos Macs destinados ao uso doméstico com uma coleção de softwares. O computador vinha com uma carteira cheia de CD-ROMs de títulos educacionais, jogos e aplicativos. A Web ainda estava na infância; downloads de programas por ela, nem em sonho. No máximo, o que rolava era puxar um shareware de um BBS via modem, com alguma paciência e sofrimento. O próprio CD-ROM como meio de distribuição de software ainda estava apenas despertando.

O gabinete repete os conceitos de hardware do Color Classic e da série 500. A motherboard é removível pela traseira, encaixada numa gaveta deslizante, e pode ser intercambiada entre os vários modelos das séries 5000 e 6000. Outra idéia aproveitada dos Macs antecessores é o microfone integrado ao topo da moldura do monitor, também presente no iMac. Atualmente, no mesmo lugar vai uma webcam embutida. O painel frontal embaixo da tela é muito parecido com o da série 6000, criando uma identidade entre os dois modelos.


O último Mac fraquinho?

O 5215CD tem um processador 603 trabalhando a 75 MHz, com desempenho equivalente ao do mais antigo Power Mac (6100 de 66 MHz), o que é mais ou menos comparável ao Pentium de 100 MHz.

Existem sérios gargalos de desempenho, relacionados com a velocidade e largura do barramento, e isso distingue negativamente todos os Macs das séries 5000 e 6000 - exceto o 5500 e o 6500, cuja placa-mãe traz uma arquitetura mais moderna. Não é preciso fuçar em números para sentir algo esquisito no 5215CD original: até mesmo o redesenho da tela parece lento para quem vinha de um Quadra. É um Mac que demora meio minuto para abrir o Word 98. Você fica se perguntando o que há de errado.

Além da performance medíocre, alguns detalhes técnicos indicam que é uma máquina de "baixo custo" (ao menos para o fabricante, já que no varejo ele custava em torno de US$ 2 mil nos EUA). O monitor (fabricado em OEM pela LG, como o do iMac) é um tipo básico, sem camada anti-reflexo e resolução máxima de 832x624. Assim como os demais Macs da época, ele pode se desligar via software, mas ainda existe um interruptor de força atrás, como nos Macs LC, e o modo de espera (sleep) não existe. O vídeo exibe somente 256 cores, e o áudio é de 16 bits para CDs de música, mas de 8 bits para os sons do sistema.

Ao trocar a placa original pela de um 6500 de 225 MHz que eu tenho à disposição, o computador mudou completamente de personalidade. Todas as limitações desapareceram: o som passou a ser full 16 bits, o vídeo pulou para milhões de cores, a opção de sleep ficou disponível e a velocidade geral melhorou de forma dramática, mais ainda em se tratando de placas com apenas dois anos de diferença de idade. A única diferença para um 5500 real é que o vídeo não passa de 832 x 624, quando no 5500 pode ser 1024 x 768 como no iMac.

O artigo na Wikipedia observa que os Macs das sérias 5000 e 6000 são geralmente os mais fracos já fabricados pela Apple. O que não os impediu de serem muito populares, inclusive no Brasil, onde atenderam à demanda de usuários profissionais que não queriam (ou não podiam) pagar o alto preço das workstations e se seguraram extraindo o que podiam de máquinas limitadas. (Com o Mac mini custando um quinto do preço do Mac Pro topo de linha, essa tendência permanece firme até hoje.)

Entre um modelo e outro, chegou a existir um G3 "tudo-em-um" com um gabinete intermediário entre o estilo de rigidez geométrica da série 5000 e as curvas e texturas do iMac. Por mais interessante que fosse, porém, ele era destinado somente ao mercado educacional e provavelmente nunca chegou um exemplar dele ao Brasil. (Se souber de um, me avise hoje mesmo...)

É sempre bom notar que, tirando o processador e conectores diferentes, o iMac era uma máquina razoavelmente similar ao 5500. Mas capturou a simpatia do público como se fosse um invento completamente novo e revolucionário. A novidade visual (aliada ao marketing) foi a maior causa dessa mudança de visibilidade. Para muita gente no Brasil, não existia Apple antes do iMac. Outros poderiam dizer cinicamente que não existia Apple no Brasil antes do iPod. E eu, mais cinicamente ainda, diria que parece não continuar existindo, ao levar em conta que o principal ponto de venda do iPod são os boxes dos chineses do Stand Center. Mas isso já é tema para outro artigo...


Comparando Performa e iMac

Pela primeira vez na vida, tive a oportunidade de colocar um Mac da série 5000 e um iMac lado a lado e comparar as idéias de design.

O 5000 é elegante, mas não tem um pingo de arrojo. Ainda hoje, mais de uma década depois, parece atraente e contemporâneo. Mas ao ser comparado com o iMac, perde a graça. Ele usa a linguagem visual Espresso, criada no começo dos anos 90 pela Apple e depois assimilada pela indústria de PC. Mas a estilização é contida, neutra, discreta, até tímida.

É um caixote quadradão com uma base de ângulo e rotação ajustável, como um monitor CRT comum. O painel frontal, que incorpora alto-falantes nos cantos, destaca-se da tela como se fosse um acréscimo final. Dessa forma, o 5000 é um computador inteiro disfarçado de monitor. Essa diretriz de design é a mesma que foi adotada no iMac e vale até o dia de hoje.

Enquanto o iMac reduz o seu volume aparente fazendo as laterais convergirem em curva para a traseira, o 5000 tem uma grossa moldura na frente e um corpo estreito, de laterais paralelas. Embora seja mais volumoso, mais alto e mais pesado (21 kg!) que o iMac, a superfície da tela é um pouco menor.

Visto de frente, as linhas de contorno dão a ilusão de serem retas, mas não são. Assim como outros Macs da mesma geração, ele é inteiramente modelado com superfícies convexas, o que lhe dá um aspecto "almofadado". Devido à dificuldade de projeto e execução industrial, esse uso de curvas era um diferencial de design da Apple nos anos 90. Hoje em dia pode parecer bobagem, mas faça uma comparação do Performa com o popular Compaq Presario monobloco, seu principal concorrente.

Ao mexer num aparelho desta idade, é preciso ter cuidado excepcional com as partes plásticas, pois elas ficam quebradiças. As abas de encaixe que retêm no lugar o painel frontal e a gaveta do HD na traseira quebram muito facilmente. Esse problema ocorre na maioria dos gabinetes de Macs beges desse período. Ponto negativo para o design industrial da Apple.

Uma das últimas versões da série 5000 tinha um charmoso gabinete na cor preta, que só foi vendido fora dos EUA; infelizmente, nunca chegou ao Brasil.

2007-07-10

Logos institucionais... Parte 2

Não tinha visto ainda, mas há um mês foi lançado o logo oficial da Olimpíada de Londres em 2012.
Aqui está a página oficial.
Veja e opine...
Particularmente, ainda vou demorar um pouco para me recuperar do susto.
Dizem que a criação dessa marca custou 400 mil libras.

A "Parte 1" do post está aqui.

Clube do G3: iMacs!


(Imagem lamacenta de celular: cortesia Sony Ericsson)

Finalmente, dois iMacs entraram para o museu do Clube do G3, de uma vez só. O (looongo!) texto a seguir dá conta da sua origem; comenta as possibilidades de uso, seis a nove anos após fabricados; e comenta os princípios de design.

Lembra do iMac colorido? Já faz um bom tempo. Ele foi fabricado entre 1998 e 2002, mesma época da explosão da Web. Bons tempos, boas memórias. Com processador G3 e vídeo e memória limitados, é difícil ver hoje em dia algum desses iMacs em uso que não seja de um entusiasta. Graças à sua surpreendente popularidade no Brasil, ainda é fácil de achar no mercado de usados. Mas o preço que se costuma pedir, dependendo do modelo, pode ser exagerado por ele ser um item "cult".

Os iMacs do museu podem ser considerados itens "cult", dependendo da sua sensibilidade nerd. Mas também são úteis para o dia-a-dia. Apesar de velhinhos, suprem certas necessidades de computação distribuída. Traduzindo: na falta temporária de uma única máquina poderosa e com monitor bem grande, acabo usando os dois iMacs em atividades paralelas. Por exemplo, um iMac fica dedicado para Web e chat e o outro para tocar músicas no iTunes, enquanto o G3 azul debulha o Adobe CS2.


Tudo começou com ele


O primeiro iMac do meu museu é um Bondi Blue com clock de 233 MHz. Sim, o modelo original de agosto de 1998, da primeiríssima geração conhecida como Revision A. É um item de interesse histórico. Na sua época, custava US$ 1300. Ainda assim, não paguei um centavo por ele, e ainda por cima, foi rejeitado três vezes antes de assumir seu lugar de honra no museu.

Este exemplar foi a máquina pessoal de mesa da Adri até ela comprar um iMac G4 em 2003. Depois disso, ele passou um ano como objeto de decoração, sem que ninguém o usasse; mas ainda continha emails, imagens e outros itens pessoais. Fiz a transferência desses conteúdos para o iMac G4. O que fazer com o iMac velho? A Adri não o queria mais ocupando espaço em casa. O ideal seria repassá-lo a algum amigo que precisasse de uma máquina despretensiosa para acessar a Internet. Contribuí aumentando a memória de 64 MB para 256 MB, trocando o disco de 6 GB para 20 GB e colocando o Mac OS X 10.2 Jaguar (o sistema original era o 8.1).

O Bondi Blue foi para o Altemar, que nunca tinha mexido em Mac, mas tinha curiosidade. Porém, o iMac não se integrou ao esquema e novamente ficou parado. Tentei colocar nele uma versão do Ubuntu, mas não deu certo: o driver de vídeo não se entendeu com o chip de vídeo ATI.

Então, peguei o iMac, atualizei o sistema para o OS X 10.3 Panther e preparei-o para o Edu Guedes, que mora em Araraquara e também tinha vontade de brincar num Mac. Uma pessoa de confiança viria recolher o Mac de carro quando passasse em São Paulo. De fato veio, mas não conseguiu achar o endereço e voltou sem nada.

A pessoa seguinte que pegaria o iMac, se o Edu não pudesse, seria a Sandra Rocha. Na época ela tinha necessidade de alguma coisa que surfasse a Web em casa. Mas, para meu horror, percebi que o monitor começava a dar pau, piscando com fortes estalos e ameaçando queimar de repente. De fato, a maioria dos iMacs da primeira geração foi para a sucata ao cabo de quatro ou cinco anos de uso, devido ao desgaste do flyback - um transformador de alta tensão que participa da geração de imagens no monitor. Trocada essa peça, a máquina volta ao normal. Pois bem, o Bondi Blue começou a dar sintomas de falha iminente da tela; pela experiência, eu já sabia o que aquilo significava e aonde iria parar. Recolhi o Mac antes que pifasse de vez e ele passou mais um tempo parado, aguardando o conserto.

Então, meu amigo Alexandre Villares, diretor da VectorPro, contratou uma oficina eletrônica em São Paulo para consertar alguns monitores da escola. A mesma oficina também faz a troca do flyback do iMac, a um preço razoável. Você não vai querer investir muito num computador que vale pouco; já basta o alto custo das memórias SO-DIMM para ele. O irmão do Alexandre e eu levamos até a oficina o iMac e os monitores combalidos.

Quando o iMac voltou curado, ainda passou um mês esperando até eu conseguir arrumar um tempo para pegá-lo. O pai dele insistiu em me trazer de carona, com o iMac "sentado" no banco de trás do carro, a parte frontal virada para baixo - um tipo de viagem que ele já fizera repetidamente nas minhas sucessivas mudanças.

Finalmente, após todos os percalços e rejeições, o Bondi Blue está feliz do meu lado, contendo a discografia integral de David Bowie no seu HD.


Outros iMacs na minha vida

Cumpre lembrar que trabalhei na Macmania, onde desempenhava com freqüência a operação de desmontar e montar iMacs, tendo até fotografado e publicado o processo todo na revista. Aprendi a trocar um HD em poucos minutos - tarefa que exige desaparafusar a parte de baixo e remover um chassi de metal que contém a motherboard e os drives... uma gambiarra mecânica assustadora.

Nessa época, bastante gente usava o iMac como estação de trabalho profissional, com certa precariedade, pois ele não foi criado com essa finalidade nem é muito potente. Mas era o Mac mais barato de todos e quebrava um galho. Lembro em particular da Conrad Editora, quando ficava na casa amarela da rua Maracaí, em 2002. Todos os computadores eram iMacs de cores variadas. Depois das renovações no hardware, os últimos que restaram foram os dos donos da editora e o da recepcionista.

Entre 2000 e 2002, fui proprietário de um iMac de 266 MHz. Era um Strawberry de fim de estoque (provavelmente por ser a cor menos desejada), que comprei com um superdesconto. Na verdade, comprei dois: um para mim e outro para a Tuta. O meu foi útil para escrever o blog, fazer frilas com fotografias e acessar as inúmeras listas de email que eu assinava na época. Também usei muito o Strawberry (que rebatizei de Cherry-Lyptus) para jogar Unreal Tournament. Finalmente, vendi-o baratinho para a editora Bookmakers. O iMac gêmeo que estava com a Tuta ficou com a Julia em 2007, depois de uma atualização nos programas.


Detalhes técnicos do iMac Rev. A

Em desempenho, é um pouco inferior a um G3 bege. Com 256 MB de RAM, ele suporta bem o Mac OS X 10.3 Panther, mas ouve-se bastante o acesso ao HD enquanto o sistema pagina a memória. Não recomendo instalar o Mac OS X 10.4 Tiger, a não ser que se precise de algum programa que só roda nrle. Embora seja mais eficiente, o Tiger exige mais memória. O iMac original só tem espaço para 384 MB (256 + 128), que era bastante em 1998, mas hoje em dia mal dá para o troco. Além disso, o Tiger não é oficialmente suportado, exigindo uma gambiarra com o XPostFacto para ser instalado.

A agilidade na Web é bem aceitável, porém deficiente para tocar vídeos do YouTube. Por ter uma ventoinha interna, esse iMac faz um pouco de ruído, mesmo em modo de espera (sleep).

Conexão via Ethernet a outro computador mais moderno é importante, já que ele não tem interface FireWire para dispositivos externos (apenas USB 1.1) e não grava CD nem lê DVD. Como jukebox de iTunes é bom, mas os alto-falantes exigem equalização para melhorar o som. Caminho das pedras: diminua as freqüências de 500 até 4 kHz e aumente as de 64, 125, 250 e 16K. O iMac original tem dois jacks de fones de ouvido no painel frontal, além de uma saída de áudio lateral.

O HD pode ser bem maior do que o original: até 128 GB. O sistema operacional precisa estar dentro de uma primeira partição com um tamanho igual ou inferior a 8 GB. A formatação e o particionamento devem ser feitos pelo Mac OS clássico, não o OS X, senão não funciona.

Update (22 de julho) - Tive a tristeza de descobrir que o instalador do Adobe CS2 só aceita rodar se o Mac tiver 384 MB de RAM instalada. O Bondi Blue já está no máximo de 256 MB. O site Low End Mac informa que alguns exemplares desse modelo (mas não qualquer um) funcionam com um pente de 128 MB trocado por outro de 256 MB, atingindo os 384 MB. Como a memória SO-DIMM é cara e desmontar o iMac é muito chato, não vejo razão de tentar a experiência só pelo capricho de rodar os programas da Adobe com velocidade sofrível. O OS X Panther em si mesmo já não gosta muito de trabalhar apertado em 256 MB.

Falando em Adobe, o CS3 só funciona em Macs G4, G5 e Intel, o que deixa os G3 congelados na versão CS2. Francamente, já está de ótimo tamanho para uso geral em design. Se precisar dos recursos avançados do CS3, é meu dever profissional ter uma workstation configurada só para isso.



iMac 500 MHz Lime

O segundo iMac do meu museu foi fabricado entre fevereiro e julho de 2001. Apesar de ter pouca diferença de idade para o Bondi Blue, é bem mais contemporâneo nos recursos. Suporta memória comum DIMM, traz dois conectores FireWire, tem saída de vídeo para um segundo monitor (mirror) e suporta Wi-Fi através da placa AirPort (opcional). Apesar de ser um G3, fica bem à vontade com o Mac OS X. Muitos modelos têm gravadores de CD e DVD. Até os alto-falantes produzem um som melhor. Comparado ao iMac original, o gabinete é mais refinado e limpo, dispensa o cooler (silêncio total no modo sleep) e traz os slots de memória acessíveis sob uma tampa na "barriga". É bem mais leve e um pouco menor, mantendo o mesmo tamanho de tela de 15".

Enfim, quase todos os defeitos de design do iMac foram resolvidos a partir da geração do ano 2000. Se você quer um iMac clássico para enfeitar a sala de estar, este não sai tão caro e dá para brincar bem. Basta colocar 1 GB de RAM PC-100 ou PC-133, barata como bananas nos dias de hoje, e atualizar o sistema. O desempenho é ligeiramente superior ao do G3 azul e branco de 350 MHz; tem menos cache de processador, mas o clock é maior, e o vídeo AGP é mais esperto.

A cor Lime (verde clara) é a que gosto menos dentre as tantas que a Apple lançou. (Prefiro Ruby, Graphite e Blueberry.) Mas consultando o Google, parece que os iMacs da primeira geração nessa cor são muito mais abundantes que os da geração posterior à qual pertence meu exemplar.

O Bondi Blue já passou por tantas mudanças de endereço que me espanto de ainda estar em tão bom estado. Já o meu exemplar do iMac 500 não tem uma história tão complicada. Originalmente, ele era um dos computadores da VectorPro, o modelo de 2001 de 400 MHz. Já havia sido aberto e mexido antes, e alguma coisa dentro dele pifou definitivamente em 2006. Simplesmente não ligava mais. Peguei a máquina no começo do ano, a fim de buscar um conserto para ela. Então, troquei umas peças com as de outro iMac encostado, e o bicho ressuscitou. Acabou não tendo de ir para a oficina. Usei-o para gravar os vídeos das aulas de Photoshop em CD que estão saindo pela Digerati.

22 de julho - Descobri espantado que há trincas na parte superior da moldura plástica do monitor - não a casca externa canelada, mas a camada cinza opaca que fica por baixo. Não se resolve isso trocando o case, mas desmontando tudo e vedando a trinca com massa de epóxi, que já é mais ou menos da mesma cor. O iMac funciona perfeitamente, apesar desse detalhe estético.

Outra marca do envelhecimento é a dificuldade do drive slot-loading para ejetar discos. Alguns deles eu precisei puxar pela beirada com uma pinça. É um defeito comum. Melhora um tanto se você ejetar alguma coisa repetidamente para desemperrar o mecanismo.

Como este iMac ainda bate um bolão para internetar, coloquei um pente de RAM da Kingston do tipo PC-133-222, de 512 MB. Achei que ele poderia conviver em paz com um dos PC-100 de 256 MB que já estavam instalados. Mas a mistura não dá certo: o iMac sofre kernel panic após alguns minutos de uso. Fiz a cabeça para, assim que puder gastar dinheiro com iss, preencher o segundo slot com outra PC-133 igual e deixar a máquina no máximo de 1 GB.

O HD atual é um Maxtor IDE de 80 GB, a melhor relação custo/benefício do momento. Esse modelo, assim como os Seagate Barracuda IDE, tem a adorável qualidade de ser absolutamente silencioso. O iMac já não possui cooler, é resfriado por simples circulação de ar como se fosse um monitor comum. Assim, ele pode ficar baixando torrents noturnos no quarto de dormir sem incomodar. E os modelos slot-loading não têm aquela exigência chata da partição inicial de 8 GB para o sistema, presente na primeira geração.

Maio de 2009 - Há quase um ano, o Lime parou de funcionar subitamente. Defeito na placa-mãe, ao que parece. Os Kernel Panics que ocorriam com dois pentes de memória eram um prenúncio. Mais recentemente, o PowerBook G3 "Pismo", que não chegou a ter post próprio no blog, também deixou de funcionar, de maneira bem similar.

Ainda tem gente insistindo em usar esses equipamentos no dia-a-dia, com o argumento válido de que rodam o que é necessário, mas desconsiderando a questão do desgaste das peças.


Estilização e ilusão de óptica no design do iMac G3

Há semelhanças entre o iMac G3 e o New Beetle da Volkswagen. Os dois foram lançados no mesmo ano, 1998, e exibem formas curvas que desafiam a quadradice geral da indústria, lançaram moda, mas não deixaram influências definitivas.

Da mesma maneira que o New Beetle é um Golf reempacotado numa carroceria cujo atrativo é o puro apelo estético e emocional, o iMac colorido é um Mac G3 disfarçado numa embalagem "cool". Como no carro, o maior diferencial está no design exterior.

À diferença do Fusca, porém, não havia uma referência visual prévia para o iMac. Ele não lembra nenhum dos antecessores monobloco - o Mac de 1984, o Color Classic, a série 500, a série 5000. O iMac G3 inaugurou um estilo próprio, de cores fortes e formas elipsoidais, sem precedente em computadores. Influenciou uma moda passageira de produtos translúcidos e coloridos. Pessoas empolgadas com a experiência de uso na época ficavam bestas de saber que a tecnologia contida neles já existia há tempos, apenas não tinha tido marketing decente da Apple nem cobertura decente da mídia.

Assim como se reclama hoje do iPhone pelos recursos que faltam, o iMac G3 foi criticado por não ter disquete, porta serial, ADB e SCSI. Em retrospecto, ele estava totalmente certo ao aposentar essas tecnologias. Em seu lugar entraram o drive de CD e a porta USB. O CD deveria ter sido CD-R desde o princípio para substituir o disquete, mas isso não rolou na primeira geração, o que deu uma sobrevida ao Iomega Zip Drive. Steve Jobs até mencionou que a falta inicial de um gravador de disco foi a principal falha de design do primeiro iMac.

O gabinete de um PC monobloco tem a forma completamente determinada pelo monitor embutido. Isso vale para o atual iMac de LCD e mais ainda para o antigo de CRT. O tubo de imagem, uma peça volumosa e de formato complicado, foi sempre traduzido na forma exterior de um caixote perfurado sem a mínima graça. Isso também aconteceu nos Macs monobloco beges contendo CRTs. O iMac rompeu totalmente com esse consenso banal. Tudo nele visa transmitir leveza a um produto que não é nada leve. A carcaça é toda curva, com as partes estruturais semi-ocultas sob o plástico translúcido; não há furos de ventilação nas laterais; o pé frontal, que também serve para mudar o ângulo de visão da tela, é transparente e fino; a lateral é repartida em duas áreas de cores diferentes, criando uma ilusão visual de superfícies reduzidas; as paredes laterais convergem para a traseira. Todas essas características de design disfarçam o volume do CRT e foram repetidas nos monitores profissionais CRT que a Apple produziu logo após o iMac.

A parte mais datada do design é a frente canelada, que também cumpre a função de reduzir o volume visual. As mesmas estrias verticais apareceram no G3 e G4 e nos monitores avulsos, mas depois foram eliminadas de todo o hardware da Apple. Estrias horizontais nos menus e janelas eram proeminentes no primeiro Mac OS X, mas foram muito suavizadas nas versões posteriores.

A pior parte do hardware do iMac G3 são o teclado e o mouse. O teclado, embora macio e silencioso, é apertado e faltam algumas teclas. Somente em 2002 surgiu um teclado completo para os Macs domésticos. O mouse redondo é simplesmente um dos piores erros de design da história da informática; não preciso me aprofundar nele aqui. Parece criado de propósito para ajudar Logitech e Microsoft a venderem mais mouses USB.

As imitações estéticas do iMac devem ter motivado a Apple a quebrar o molde mais uma vez e buscar as formas austeras, lisas e retas dos produtos atuais. O eMac, último computador da Apple com monitor CRT (foto aqui), é uma reinterpretação definitiva do formato, empregando a atual linguagem visual lisa e de formas simples. Nele só há retas e arcos de círculos perfeitos, sem as elipses e parábolas esculturais, e a cor é branca opaca e lisa.

Depois de um breve surto de originalidade com o iMac "abajur", a Apple transformou o produto numa versão gigante do iPod. É elegante, mas não tão atraente como os modelos antigos, e já esgotou as possibilidades estéticas que possuía. Como será a próxima geração, que dizem que sairá em agosto? Os rumores falam num gabinete em alumínio anodizado como o do MacBook Pro e do iPod nano. E na extinção do modelo de 17 polegadas, deixando somente os de telas maiores. Eventualmente, o iMac parecerá somente um monitor, sem nenhuma dica visual de haver um processador dentro. Esse também era um truque do iMac original: fazer o seu conteúdo parecer invisível.

2007-07-09

Veja pega em armas contra o iPhone

 
"Não tem chance nenhuma de o iPhone obter uma fatia de mercado significativa. Sem chance.
~Steve Ballmer, CEO da Microsoft


Até agora, era só a má vontade de alguns colunistas de tecnologia e concorrentes invejosos. Agora, a guerra está declarada de forma mais oficial. Aconteceu com o iPod. Aconteceu (várias vezes) com o Macintosh. Começou a acontecer com o iPhone.

A chamada de capa da revista Veja diz: "Nunca tantos ficaram na fila por tão pouco". O texto dentro, matéria editada por um Carlos Rydlewski, está reproduzida na Web aqui. Acesse apenas se tiver muito interesse, porque vou reproduzir a seguir alguns trechos do texto, para você sentir o clima sem precisar dar cliques para a Abril:

Não transcorreram doze horas do lançamento do iPhone para que começasse a circular no boca-a-boca e nas resenhas preparadas por especialistas uma lista de seus defeitos...

...comparando item por item, há aparelhos de concorrentes com mais recursos e melhores soluções...

Em se tratando de um aparelho que não cumpre o que promete...

A funcionalidade é menos importante do que mostrar ao mundo que você tem determinado produto...

Algumas das limitações do iPhone chegam a torná-lo anacrônico dentro do universo atual dos aparelhos eletrônicos...

O iPhone parece destinado a uma carreira bem mais modesta que a do iPod...

o iPhone penetrou numa arena onde estão empresas muito maiores que a Apple e que dividem o setor há mais de uma década...

Embora com uma história de pioneirismo no mundo dos aparelhos eletrônicos, Steve Jobs, o dono da Apple, desta vez terá de suar um pouco mais a camisa para fazer do iPhone um ícone de mercado. Será preciso aperfeiçoar o aparelho e livrá-lo de suas amarras operacionais. Só assim as multidões de consumidores ávidos por trocar de celular em curto espaço de tempo continuarão a fazer fila por seu produto.


Diz-se por aí, desde bem antes da era das modernidades digitais, que a crítica muitas vezes revela mais sobre o crítico do que sobre o que é criticado. Acompanhe e observe.

O viés do texto da Veja é 100% negativo. É contra, direta e absolutamente contra, do começo ao fim, sem trégua. A sensação geral é de que o produto é um lixo, o serviço um engodo, e que os consumidores são otários completos ou elitistas ostentadores.

Agora é assim. Mas a mesma revista embarcou de primeira hora no hype do iPhone, ao ter sido uma das semanais (junto com a Época) a dar uma capa sobre o produto na semana em que foi anunciado, falando dele mil maravilhas.

Coerência, alguém tem?

Um box desrespeitosamente intitulado "Os Micos do iPhone", com direito a uma ilustração de um macaquinho, lista os recursos que faltam, como MMS, captura de vídeo, ringtones baixáveis, Flash e disponibilidade por outras operadoras. Por essas omissões iniciais, a Apple de fato merece a bronca. São coisas óbvias demais, exceto a operadora, que é uma questão comercial e não técnica - e não deveria incomodar no Brasil, onde nem existe AT&T, mas existem outras operadoras de telefonia negociando com a Apple para vender o iPhone no Brasil. Quanto aos recursos que faltam, updates automáticos do sistema pode incluir nos telefones já em uso os recursos que só dependem de software, segundo a própria Apple.

Não chega a haver uma crítica definitiva à mania das pessoas por gadgets, como parece ser pela abertura ilustrada e o (péssimo) título. Há um desenvolvimento sobre o hype, mas ele poderia muito bem ter sido segregado em um box, pois não é o cerne do texto. O cerne do texto é uma peça clássica de FUD anti-iPhone, que não precisaria ter sido editada por um jornalista profissional; poderia vir pronta e acabada de um marketeiro da Moto, Palm, LG, Nokia ou BlackBerry (SIC - o nome certo da companhia é Research In Motion; BlackBerry é o produto; entendeu, Veja?). Marcas que são mencionadas na matéria como tendo produtos "superiores em funcionalidade".

Se eu fosse um redator engajado com alguma das outras marcas, tentaria chamar a atenção do leitor para elas, citando seus nomes e defendendo seus produtos "superiores em funcionalidade". Afinal, a Apple nada tinha a ver com telefonia e de repente faz isso. Tem a ousadia de chegar abrindo uma nova categoria de produto. Não é um smartphone, pois não serve para editar planilhas de Excel; ao mesmo tempo, vai além de um celular comum na maneira de usar. O povo percebeu isso e comprou 1 milhão de iPhones já na primeira leva. Se eu trabalhasse para a concorrência, ficaria compreensivelmente preocupado. Para combater o iPhone, primeiro ignoraria o seu ponto forte na usabilidade, evitando falar uma só palavra sobre isso; então, forçaria uma comparação desfavorável com aparelhos diferentes em forma e propósito, que são os smartphones atulhados de recursos. Coincidentemente, a matéria da Veja faz exatamente essas coisas.

Um executivo de uma operadora de telefone também teria motivação para reclamar, devido à exclusividade da AT&T com o iPhone nos EUA. Coincidentemente, a matéria da Veja bate insistentemente nesse ponto, mesmo sendo ele irrelevante para o consumidor brasileiro no momento, já que um iPhone desbloqueado e sem operadora é apenas um iPod muito caro.

Ao longo de quatro páginas - espaço privilegiado numa publicação cara para os anunciantes - não há nada sobre as inovações de interface e design do software, que receberam destaque em outras publicações ao redor do mundo e são o verdadeiro atrativo do iPhone - não o puro esnobismo consumista que a revista denuncia em relação à Apple e mais adiante encampa em relação a marcas concorrentes.

A propósito disso, é interessante a abordagem dupla da matéria: começa reclamando que os telefones estão com funcionalidades em excesso, que as pessoas mal as utilizam, que são exibicionistas digitais viciadas em comprar novos modelos com mais e mais recursos - e então ataca o iPhone a partir do argumento oposto, de que faltam funcionalidades nele que estão presentes nos modelos de topo das outras marcas.

A aparente condenação ao consumismo eletrônico vem de uma publicação que edita um grande catálogo anual de produtos eletrônicos, sempre traz anúncios das principais marcas e de forma geral lucra muito com esse mesmo consumismo.

Outra coisa me saltou à vista. O nome Prada surge no texto duas vezes. É mencionado o celular LG Prada, vagamente similar ao iPhone - também possui uma tela de toque, ainda que com uma interface do tipo tradicional. Porém, alguns parágrafos antes, falava-se de passagem em "bolsas Prada" como exemplo de produto de grife da moda. Notável, a escolha do nome: nem Gucci, nem Louis Vuitton, mas exatamente o mesmo nome de um celular que supostamente concorre com o iPhone. E que é vendido por uma operadora que anuncia na revista.

Não estou formulando nenhuma teoria a partir daqui, apenas relatando um fato. A conclusão é sua.


Recomeçou a guerra das plataformas

Estamos vendo ressurgir aquela velha polarização com gente pró-Apple e anti-Apple, gritando uns com outros para ter mais razão em justificar suas opções de aparelhos. Elitismo esnobe de um lado, dor-de-cotovelo besta do outro. Ignorância, exageros e mentiras dos dois lados. Só que o foco não é mais Mac x PC. Já que Macs e PCs convivem bem nos dias de hoje e a briga nesse campo perdeu a graça, transfere-se a briga: agora passa a ser iPhone x todos os outros celulares.

Jornalistas propagam julgamentos precipitados, só para terem que engolir suas opiniões enviesadas mais adiante ou ficarem lutando teimosamente contra a realidade. Mas esse conflito só ocorre se suas opiniões expressas forem sinceras, o que até ponho em questão, em se tratando dessa revista em particular, baseada na retórica do confronto e totalmente pautada por interesses políticos.

Gente que pensa e age nesses termos só tem a perder. O mundo seria mais feliz nestes termos: quem quiser que use iPhone, quem não quiser ligue para quem usa.

2007-07-07

Facilitando pros golpistas

A Bia escreveu um relato espantoso sobre o golpe do seqüestro via celular. Mais espantosa ainda foi a quantidade de pessoas comentando que também foram alvos do golpe.
Pensando a fundo sobre os depoimentos, dá para apontar uma enorme falha de segurança cometida por vítimas do golpe: explicitar todas suas relações familiares e atividades no orkut.
Se você não tiver critério sobre o que escreve para estranhos lerem na rede, qualquer bandido pode obter sem esforço a informação necessária para montar um golpe elaborado.
Idem para blogs do tipo "querido diário" e até fotologs.
Se ligue.

2007-07-02

Info Exame

Hoje tive uma vontade inexplicável de olhar dentro da revista. Pra quê!
Proeminente na página 20, uma nota dá conta do fim do FreeHand, anunciado em 16 de maio pela Adobe. Um infográfico diz que o software pertenceu antes à Macromedia e à Aldus e durou 9 anos, tendo sido lançado em 1998. Erro crasso da redação, flagrada falando do que deveria conhecer e não conhece (mas que um mínimo de checagem no Google poderia ter consertado).
A informação correta é a que segue.

O FreeHand foi criado pela companhia Altsys em 1988. (Não saiu em 1998, e sim dez anos antes.)
A Aldus, criadora do PageMaker, comercializou o FreeHand a partir da versão 2, em 1990. (Não foi criado pela Aldus, e sim pela Altsys.)
Em 1992 saiu um port do programa para o sistema NeXT (antecessor do Mac OS X), chamado Altsys Virtuoso.
A Adobe comprou a Aldus em 1994, mas já tinha o Illustrator e teve de deixar o FreeHand com a Macromedia, a fim de não formar um monopólio no ramo de ilustração vetorial.
A Macromedia desenvolveu o FreeHand entre 1995 e 2006, da versão 5.0 até a 11 (MX).
Finalmente, a Adobe se fundiu à Macromedia e pela segunda vez se livrou do FreeHand; desta vez, para sempre.

Respeito profundo e memória ao FreeHand, programa de vetor que usei preferencialmente entre 1994 e 2003. Foram anos de simbiose com suas ferramentas simples, confiáveis e eficientes. A capacidade multipáginas e de composição de texto estavam muito à frente de seu tempo, e a velocidade impressionava em qualquer Mac velho.
Sempre tive algum contato com o Illustrator, mas apenas de 2004 em diante aderi a ele de forma exclusiva, buscando mais integração com a Creative Suite e cansado do abandono relativo em que o FreeHand ficou depois da versão 8.
Corel usei quando ainda era bom, em 1991-92 (versões 2 e 3).

Aqui tem provavelmente mais do que você gostaria de saber sobre programas de desenho vetorial.

Novas tendências visuais na propaganda

Uma das coisas mais curiosas na propaganda é como uma determinada idéia visual contagia as peças de uma em uma até virar uma característica da época. De repente, se não tiver cuidado, todo mundo está fazendo a mesma coisa e nem percebe.

Entre 2004 e 2006 houve a febre das ilustrações vetoriais cheias de texturas e filigranas, com o espaço visual preenchido pelo maior número concebível de detalhes, floreios e volutas. Uma combinação improvável de neopsicodelia com hightechnerdismo.

Agora, se você folhear uma revista ou assistir à TV esperando encontrar um anúncio com essa estética ilustrada, não vai achar nada e vai conjeturar se todos os ilustradores ficaram repentinamente desempregados.

A febre do momento é baseada em produção obsessiva, softwares 3D, Photoshop e poder de processamento barato e acessível. Atende pelo nome de "milhares de objetos idênticos". Folheie apenas uma edição de uma revista e descubra:

  • Skol - Piscina completamente cheia de cubos de gelo e latas de cerveja.

  • VW Fox com tocador de MP3 - Uma cidade na qual os edifícios são feitos de alto-falantes.

  • Terra Sonora - Cabeça humana onde o cabelo foi substituído por cabos de de áudio com plugs.

  • Microsoft System Center - Saguão de aeroporto com uma parede coberta de relógios de fuso horário.

    Confirmando o "zeitgeist", uma campanha impressa ganhou Leão de Ouro em Cannes este ano aplicando fielmente o mesmo conceito. Uma multidão homogênea de minúsculos personagens representa o poder de limpeza de um sabão em pó. Pessoalmente, achei uma idéia pobre, que só se sustenta pelo tour de force tecnológico. Embora seja um fotoxopista, em geral eu não curto idéias que dependem tão completamente de um efeito visual da moda. Lembra quando surgiu o fotomosaico de fotos? A idéia original era brilhante. Múltiplas imagens pequenas se combinam por afinidade de luz e cor para formarem outra maior quando vistas em conjunto. Mas logo a propaganda foi tomada por versões falsificadas e forçadas do efeito, na qual uma matriz de fotos fora de qualquer ordem definida é sobreposta tosca e porcamente por um layer contendo a foto maior. Os últimos exemplares dessa linhagem maldita ainda são recentes e a qualquer momento ainda pode aparecer uma peça tardia.

    Uma tendência de fotografia que vem e vai e nunca some por completo é a da fotografia dessaturada - um intermediário indeciso entre a banal cor total e o P/B chique mas talvez ousado demais para o gosto do cliente. Um fundo cinza chumbo com um spot de luz criado no Lighting Effects do Photoshop completa a composição em muitos casos. Uma campanha da Credicard de uns dois anos atrás usava esse visual de forma proeminente. Agora, temos o novo cartão de crédito transparente do Santander, estudantes trabalhando na Vale do Rio Doce, o personagem da linha Natura Homem e Rodrigo Santoro com seu Toyota Corolla, todos devidamente dessaturados até a pele ficar com uma coloração similar à do imperador Palpatine.

    Onde foi se esconder a verdadeira criatividade? Como sempre, a redenção vem pelos bons textos e não no acabamento visual. Dois exemplos:

  • Sabonente Dove - "Sabonetes comuns fazem com sua pele o que fazem com eles mesmos." (Foto de um sabonete ressecado, cheio de fissuras.)

  • Golden Cross - "5 cm: a distância entre o topo do pódio e a nossa ambulância." (Foto de um ginasta praticando salto.)
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