2007-04-22

Acorde, imprensa: não estamos mais em 1996

No mundo tecnológico ninguém é infalível, muito menos sagrado. Incluindo a Apple. Mas não excluindo a Microsoft.
Os dois artigos reproduzidos nos posts abaixo, ambos traduzidos de colunas de tecnologia gringas, mostram uma nova atitude crítica na imprensa especializada em relação à outrora intocável Microsoft. O povo está metendo a boca, cobrando produtos à altura do marketing. A cobrança é uma coisa chata, mas só ajuda todo mundo. Consumidores e também as empresas envolvidas. A Microsoft tem faltado com várias das suas promessas e merece cada uma das críticas duras que são feitas nos artigos.
Em contraste com isso, a postura demasiado complacente de parte da nossa mídia em relação à Microsoft faz lembrar o que se dizia nos departamentos de processamento de dados das empresas nos anos 60: "Nunca alguém foi mandado embora por comprar algo da IBM." Uma cultura análoga se formou no Brasil em relação à Microsoft, tão forte que até hoje, em certos círculos, pega mal simplesmente criticar a empresa. Isso não apenas é irrealístico: é ridículo.
Para emitir uma crítica, você tem que usar o produto e conhecê-lo bem, não se basear em achismos ou crenças religiosas. O viés contrário vem de pessoas que não usam o produto e nem sabem do que estão falando em primeiro lugar. Quando tropeçam no desconhecimento técnico, passam a atacar os usuários.
Você vê esse tipo de coisa no mundo dos videogames, também. Há uma vontade de se afirmar pela opção que não foi feita, em vez da opção feita. Existem nintendistas e existem sonystas. Que perdem seu tempo brigando na Internet, defendendo seu console e atacando o do outro. E jamais chegam a nenhuma conclusão conjunta.

A atitude de ceticismo e vigilância com a empresa hegemônica no mercado não é novidade entre usuários de sistemas alternativos - Apple e Linux. Mas na imprensa de tecnologia dirigida a pessoas comuns, leigas, ainda temos um número exagerado de palhaços-querendo-aparecer que sobresimplificam ou inventam fatos, fazem campanhas de dissuasão e cumprem agendas ideológicas ou comerciais.
Mas, desde que os blogs abriram uma larga fronteira no jornalismo online, são cada vez mais difundidos os textos portadores de uma análise leal e franca, bem como embasamento factual mais profundo e inteligente, escritos por insiders que conseguem se expressar claramente. Isso "pode" acabar espirrando na mídia leiga de massa, que historicamente aceita toda a bobajada de marketing das empresas de tecnologia sem qualquer raciocínio ou questionamento.
Eu disse "pode" entre aspas e não "vai" porque, a despeito das reafirmações constantes e veementes de independência editorial dos nossos veículos jornalísticos, as pautas raramente são isentas. Mas isso é assunto para outro post...

1996 é muito diferente de 2007. Hoje não se apresenta nenhuma razão incontestável para impedir alguém de usar Mac ou PC, nem para obrigá-lo a adotar um dos dois. O elitismo em torno da escolha do computador também perdeu o sentido.
O Windows Vista, apesar de algumas questões (bloatware, DRM), não pode ser chamado de ruim em si mesmo. Usei e gostei. O Linux continua evoluindo rapidamente. E o Mac está melhor do que nunca, sendo altamente recomendável para todos os níveis de usuários de informática.
Isso é muito diferente da de 1996, quando ser usuário Apple no Brasil era alienar-se num nicho ameaçado de extinção. A postura da revista Macmania, para a qual colaborei na época, era defensiva. Utilizar Macintosh significava sofrer preconceito, desprezo, pressão, censura, injustiça e até perseguição por "experts em tecnologia", nerds de informática que nem conheciam o Mac para poder falar alguma coisa em primeiro lugar. Eram os ubíquos expoentes de uma religião-ideologia que batizamos de "pecezismo".
O dogma sagrado dos "pecezistas" era a infalibilidade da Microsoft. Tudo que não fosse o padrão PC/Windows era considerado lixo. Seus usuários, trouxas ou analfabetos digitais. A meta final seria a plataforma única.
Eventualmente, os proponentes do Linux sofreram o mesmo tipo de tratamento da maioria conformista; por isso o movimento do software livre tem até hoje defensores radicais, raivosos mesmo.

Update - O que acontece quando um colunista gringo diz um disparate para um público bem informado e com senso crítico? Eis um exemplo.
O autor escreveu uma típica coluna de FUD, com uma tese já proferida por alguns jornalistas no Brasil: "O iTunes é um monopólio, mas está surgindo um novo serviço de assinatura de música por celular que vai acabar com ele".
Eis por que a tese está errada: o iTunes não é um monopólio, os consumidores detestam serviços de assinatura de música e o celular não é o aparelho preferido dos consumidores para ouvir música, e sim um tocador de MP3 dedicado.
Não deu outra: a tese foi massacrada nos comentários.
Note ainda que todo mundo contrapôs idéias com idéias, ninguém descambou para os ataques pessoais que sempre estão na moda pelos lados de cá da rede. Um exemplo a considerar.

Microsoft admite o fracasso do Vista

por Charlie Demerjian, do Inquirer
[Texto original]

Em dois eventos simultâneos, a Microsoft admitiu aquilo que temos dito o tempo todo: Vista, também conhecido como "Windows Me II", é uma piada da qual ninguém ri. Esta semana, duas notícias sem precedentes nos estarreceram.
Primeiramente, a Dell anunciou que voltou a oferecer o Windows XP em PCs domésticos.
No mesmo instante em que o Vista foi lançado, a Microsoft tornara extremamente difícil que alguém vendesse outra coisa que não fosse o Me II. Ela não pôde agir assim no mercado corporativo, porque seria alvo de risadas; já o rebanho de usuários domésticos aceita qualquer coisa que lhe ofereçam. Isso é um comportamento clássico de abuso de monopólio, cujo manual moderno foi escrito pela Microsoft. Ela aplicou nos fabricantes de PCs seus métodos usuais de coerção e eles se alinharam a ela mais uma vez. Nunca alguém antes tinha dado um passo atrás, pois quem fizesse isso estaria sujeito à ira da Microsoft. Mas dar um passo atrás é exatamente o que a Dell acabou de fazer.
Isso quer dizer que as vendas do Me II estão mesmo tão ruins como imaginávamos, a situação [de compatibilidade] dos programas e drivers é um desastre, e a Dell não teve outra escolha além de nadar contra a corrente. Se você acha que isso é um ato de contrição por nos empurrarem tal lixo, pense de novo: ela não está nem aí com o consumidor. O que aconteceu é que os fabricantes de PC se amotinaram nos bastidores.
Acima do Me II existe um enorme painel de neon piscando, com o seguinte letreiro: "FRACASSO". OK, o Me II não vai fracassar: a Microsoft tem a indústria de refém, o sistema operacional irá vender, mas você quase consegue ouvir o passo da marcha dos desertores em direção ao Linux. Estamos num divisor de águas.
Qual é o outro fracasso monumental envolvendo o Me II? Bill Gates lançando na China um pacote do Me II por US$ 3. Por que isso não é altruísmo? Tem a ver com a pirataria e a maneira como ela ajudou a consolidar o monopólio da MS. Quando era fácil piratear o Windows, o Linux deixava de ser competitivo, pois os dois sistemas não custavam nada. Só que o Me II é muito difícil de piratear. Na verdade, até dá, se você hackear a BIOS ou usar outros métodos, mas a dificuldade aumentou o suficiente para obrigar muita gente a pagar pelo sistema. Quer apostar quanto que, num país com salário médio de US$ 100, o povo não vai gastar US$ 299 pelo "Me II Broken Edition"?
Então, o que fez a Microsoft? Reduziu o preço para um centésimo do valor oriqinal. Houve um precedente: o Office 2003 também era mais difícil de piratear e ganhou uma versão estudantil de US$ 150. Desta vez, porém, a situação é mais desesperada.
De acordo com o conceito algo distorcido que a Microsoft tem de pobre, ela ainda espera que você se prenda a ela, pois um dia pode ficar rico o suficiente para pagar o preço integral pelo produto. A empresa está numa encruzilhada perigosa, pois quando o software duplica o preço do computador, as pessoas começam a buscar alternativas.
Isso significa: nada de software infectado por sistemas de proteção contra cópia; nada de migração em massa para os novos formatos de arquivos obscuros e fechados do Office; e o pior de tudo, as pessoas podem começar a se perguntar "por quê". Por que elas insistem em ser cativas da MS. É nesse ponto que a empresa se descobriu com um grande problema.
Assim, a MS fez o impensável: derrubou o preço. Não vou me preocupar em caçar declarações de executivos afirmando que pessoas sem acesso a água tratada ficariam felizes em vender um rim para atualizar seu Office. Mas caras assim existem mesmo por aí. O Office, a vaca sagrada, está virando um hambúrguer acuado.
As duas iniciativas da Microsoft provam algo que eu sugeri há três anos: a MS perdeu sua capacidade de coerção e vai morrer. Não é capaz de competir limpo e acaba recorrendo a versões antigas e descontos de quase cem por cento.
O que estamos testemunhando é uma mudança inédita de equilíbrio de poder. Também é uma inédita admissão de derrota. E qual é a parte mais engraçada? As duas medidas tomadas foram erradas. A Microsoft está em sérios apuros.

Microsoft passada de inveja da Apple

por Roger Ehrenberg, do SeekingAlpha
[Texto original]

A Microsoft sobe ao palco. Bill Gates está no programa de TV The Daily Show. É hora de mostrar o Vista!
Mas é uma dureza de assistir. Um Bill desajeitado, desarticulado e defensivo.
As tendências que se revelam são maciçamente desconcertantes para a diretoria da Microsoft, sem falar nos acionistas. Uma úmida e pegajosa inveja da Apple, escorrendo desde os primeiros escalões. Incredulidade ante a falta de compreensão do público quanto à grandeza do Vista.
Esses não são sinais de uma companhia, uma cultura, uma administração dando certo. Eles estão fracassando. Fracassando em entender os consumidores. Fracassando em captar o tom do mercado. Fracassando em gerar a mensagem necessária para deixar as pessoas empolgadas com seus produtos. E, sim, fracassando na transição para a Era do Consumidor na Computação, assunto do qual escrevi há seis semanas.
E tenho que dizer que esse último capítulo na guerra entre Microsoft e Apple tem uma espantosa similaridade com o duelo (apesar de ser difícil chamar de duelo quando um dos dois contendores já morreu) entre a Sony e a Nintendo na guerra PlayStation 3 x Wii.
Estou certo de que veremos mais disso nos próximos meses: produtos mais simples, mais amigáveis, mais bem pensados para o consumidor, derrotando os titãs de outrora. É só o começo, e a primeira grande vítima poderá ser a Sony, seguida pela Microsoft...

A figura pública de Bill Gates não está ajudando em nada. Ele não tem ajudado na promoção do Vista ou da Microsoft. Compare-o com o seu alter-ego, Steve Jobs, que mesmo durante um escândalo envolvendo as ações da Apple, sobe ao palco e encanta seus funcionários, seus consumidores e a comunidade de tecnologia em geral. Bill parece que esteve morando embaixo de uma pedra. Vejamos a sua entrevista com Steven Levy da Newsweek:

NEWSWEEK: Se um dos nossos leitores achasse você numa loja e perguntasse "Bill, por que devo mudar para o Vista?", qual seria seu papo de vendedor?
Bill Gates: A coisa mais efetiva seria eu sentar com ele e mostrar o visual novo por alguns minutos, mostrar o Sidebar, mostrar como a busca encontra montes de coisas, incluindo montes de fotos. Criar um controle parental. Então, editar um movie de alta definição e criar um DVDzinho de fotos. Enquanto isso, ele pensa: "puxa, será que isso é algo que eu usaria, faria uma diferença para mim?"

Você falaria também da segurança maior no Vista.
Sim, se bem que segurança é um conceito complicado. Você está se referindo ao fato de já haver updates de segurança para o Vista. É assim mesmo que deve ser. Quando alguém nos procura após achar uma vulnerabilidade, fazemos o remendo antes que apareça um exploit. Isso está totalmente de acordo com o plano e é assim que funciona todo o esquema do Windows Update. O número de violações vai ser menor, porque fizemos algumas coisas dramáticas para aumentar a segurança na base de código. A Apple não fez nada disso.

Você se incomodou com o comercial de TV da Apple em que o personagem que representa o PC faz uma cirurgia para poder instalar o Vista?
Nunca vi esse anúncio. Eu não acho que os 90 por cento da população que usam PCs com Windows se acham burros ou o tipo de toscos que andam tentando dizer que eles são.

Mas e essa implicação de que você precisa de cirurgia para o upgrade?
Bem, certamente nós fizemos um trabalho melhor ao deixar você upgradear o hardware, ao contrário dos nossos concorrentes. Você pode escolher entre comprar uma máquina nova ou fazer um upgrade. Não sei porque a Apple age como se fosse superior. Simplesmente não entendo. O que é que eles querem dizer? A honestidade vale algo nesses assuntos, ou se você é mesmo bacana, pode mentir quando quiser? Não tem um pingo de verdade naquilo.

É o tema geral da campanha que irrita você, que o Mac é o cara legal e o PC...
Isso fica para os meus consumidores decidirem.


Você está me tirando? Ele soou como a Glenn Close em Atração Fatal, prestes a botar na panela o coelho de Steve Jobs. Primeiro de tudo, Bill, já que você gastou no lançamento do Vista mais dinheiro que o PIB de vários países - US$ 500 milhões - você não acha que poderia ter treinado um pouquinho só o seu discurso de vendas? Desculpa aí, Bill, você não vai conseguir o aporte de capital que tanto desejava. Sua resposta sobre segurança: pobre. Sua paranóia e irritação com a campanha bem-sucedida da Apple? Nauseante. Você é o cara mais rico do mundo. Faz montes de coisas legais com seu dinheiro. Você é um homem brilhante. A ameaça da Apple e um mundo em mudança estão deixando você desestabilizado. Faça alguma coisa. Pelo bem dos seus acionistas. Por favor.
E para completar, desta vez os velhos amigos na mídia do tio Bill estão pegando pesado com ele. Por toda parte. Por alguma razão, ele não tem mais o apoio que tinha antigamente.

O cheiro do medo está no ar. O que acontece quando você junta arrogância, uma montanha de dinheiro e uma cultura de software corporativo e competição feroz? Microsoft. As pessoas (o que são as empresas, senão conjuntos de pessoas?) reagem ao medo de formas diversas. Algumas se fecham e se agarram ao que sentem ser confortável para elas. Outras desafiam o conforto, reconhecendo que algo mudou e é hora de mudanças decisivas. A Microsoft, infelizmente, é do primeiro tipo. Mas, por que, quando o desafio se torna maior, a resposta da empresa é arrogância?
Há um fato recente que não tem relação direta com o Vista, mas demonstra a profunda falha na cultura da empresa. Foi noticiado numa nota recente no Gizmodo que a Microsoft criou para o sudeste asiático um site chamado "o que há de errado com você" (whatswrongwithu.com) perguntando qual é o "problema" dos consumidores do Xbox 360. Afinal, eles deveriam estar pulando de empolgação com o console. E não é que o site existe de verdade?
Como é que é? A empresa dando chamada de atenção nos clientes? É isso que eles chamam de moderno e bacana? Ou melhor seria dizer: estúpido e mal concebido? Cabeças tinham de rolar em Redmond! O lançamento do Zune já tinha sido um desastre ilimitado. O do Vista foi abaixo do espetacular, a não ser pelo orçamento de marketing. Agora, eles resolvem queimar o último produto legal que ainda têm? Não entendo...

Mas se você quiser fazer o Bill pirar de verdade, mostre para ele este blog, que pinta um cenário futuro no qual a Apple - isso mesmo, Apple - atinge um faturamento maior que o da Microsoft dentro de cinco anos. E para falar a verdade, quando você olha os números, não parece nada impossível, não. A Apple tem crescido num ritmo muito maior que o da Microsoft.

Estamos assistindo a uma mudança de guarda histórica, que acontece de tempos em tempos. Lembra a IBM? Ela era invencível. Como foi derrotada? Por um par de geeks numa república de faculdade: surgia a Microsoft. Então, um outro rapaz universitário com uma boa idéia dá certo no mercado de hardware: surgia a Dell. Os concorrentes dela espremeram suas margens de lucro baseadas em eficiência até se evaporarem. A Apple voou como uma fênix, caiu e reergueu-se baseada em inovação e no foco no consumidor. Agora temos o Google, garoto-propaganda da democratização da Internet.
Dentro desse contexto, a Microsoft parece grande, lerda e velha, presa a 30 anos de feudos internos de cultura e organização que parecem inexpugnáveis. E o Vista - incluindo-se aí o produto, as relações públicas e a abordagem de marketing - é o resultado de uma organização desse tipo. Às vezes brilhante, porém muito pesado, complicado e caro. Não é um produto para os dias de hoje. É um produto para a época em que o desktop reinava soberano. E essa era acabou faz muito tempo.

2007-04-18

Clube do G3: os clássicos comandam!

Anteontem, chegou um email do dono original do Classic II: João Arthur Rezende, do escritório de design Ponto Dois, de Brasília. Ele foi alertado sobre o meu texto por um amigo. Conta que segue firme dentro do mundo Apple, usando Macs Intel mas com saudades do System 7.

Enquanto isso, saiu a Mac+ número 11, com capa e matéria minhas sobre o Adobe CS3. Por uma coincidência total, o tema visual de "cubo mágico" é muito similar a uma animação que surgiu no site da Adobe... Mas estou me dispersando. O assunto mesmo é o texto que o editor Sérgio Miranda publicou nessa edição:

Embaixo da mesa do meu escritório, em casa, tinha um Color Classic, todo original. Eu o adquiri para que meu filho mais velho, na época com quatro anos, pudesse brincar com ele, usar alguns joguinhos e já começar a gostar de Mac. Com o tempo, o computador deixou de ser interessante para ele, que resolveu deixá-lo de lado. Desde então, ficou ali, embaixo da mesa, escondido, pegando pó.
Nós, usuários de Mac, somos muito apegados aos nossos computadores. Tratamos eles com muito carinho, os chamamos de clássicos (enquanto nossas mulheres/mães/irmãos e cunhados pecezistas chamam de velharia e vivem brigando conosco para nos livrarmos deles, senão vai sobrar para a coleção de gibis/livros/CDs/DVDs), ficamos procurando peças para recauchutá-los e até mesmo instalamos sistemas operacionais não suportados, tudo para garantir que eles continuem ativos, ali, do nosso lado. Companheiro de guerra não se abandona no campo de batalha, dizem os heróis do cinema.
Mas tem horas que precisamos assumir que o futuro não está no passado. Temos de cortar as amarras, nos libertar e olhar para a frente. É difícil, eu sei, deixar para trás tudo que durante anos foi nossa vida, nosso mundo. Mas não é impossível. Pode ser muito caro em nossas terras, mas não é inviável. E passamos a ter novos mantras: “quero Mac Intel, quero Mac Intel”, “2 GB de RAM, HD externo de 1 TB”, entre outras coisas...
O que fazer? Deixar ali encostado (e continuar ouvindo as reclamações da patroa) ou deixar ele viver em outro lugar? Há alguns anos, recebi algumas propostas por ele, mas não quis nem saber, afinal, não nos desfazemos de nossos computadores, certo? Certo?!? Errado. De que adianta o Color Classic se ele não faz o que eu preciso? Saudosismo? Já sou saudosista musical, não preciso agregar outras saudades em minha vida...


Dessa forma, ele acabou passando o Mac para mim, sem maior resistência, na certeza de que será cuidado com carinho. A primeira coisa que fiz foi limpar o case e remover as marquinhas de sujeiras, manchas, pancadas etc. A segunda foi colocar dentro dele todos os programas antigos que estavam dentro do Classic II. A terceira foi jogar um pouco de Shufflepuck, que ninguém é de ferro...

Good Vibrations

I, I love the colorful clothes she wears
And the way the sunlight plays upon her hair
I hear the sound of a gentle word
On the wind that lifts her perfume through the air

I'm pickin' up good vibrations
She's giving me excitations

Close my eyes
She's somehow closer now
Softly smile, I know she must be kind
When I look in her eyes
She goes with me to a blossom world

Ah my my what elation
I don't know where but she sends me there

Gotta keep those lovin' good vibrations
A happenin' with her

~Brian Wilson, Tony Asher

2007-04-17

Segway em Sampa?!

Isso mesmo: na sexta-feira pela manhã, eu estava indo atrás de uns documentos e vi, na esquina da Frei Caneca com a Paulista, duas mulheres, misturadas com a multidão, pilotando Segways pintados na cor vermelha.
Quem tiver alguma informação adicional sobre a curiosa visão - quem usa, quem traz o veículo para o Brasil etc. -, comente.

A vida depois do orkut

O orkut não foi a primeira rede social na Internet, mas foi o que seduziu os brasileiros conectados. Quando ele estava no auge do hype de novidade, com direito até a capa da Veja, começaram a aparecer os imitões. Teve um clone idêntico (até nos defeitos) feito por um provedor daqui, surgiu o Gazzag, o MSN Spaces... não sei quais outros, até o caderno de informática do Estadão tentou fazer o seu. E todos eles tropeçaram na falta de massa crítica, isto é, do atrativo de um monte de gente já estabelecida no serviço. O orkut se firmou como monopólio... porque é para lá que todo mundo no Brasil foi entrando e acabou ficando (exceto os que saíram por cansaço, preguiça ou intrigas).
No período em que o orkut era mais hype que utilidade, a minha caixa de mail foi bombardeada por convites para os concorrentes. Até que em algum momento de 2006 os spams e convites cessaram. Agora eles reiniciam, propagandeando novos serviços sociais. Todo dia chega algum convite do Tagged. Não sei qual é o esquema, porque não entrei lá, mas a impressão é de que ele espameia os amigos de orkut da pessoa que já tiver uma ficha lá. Hoje chegou o primeiro convite do Hi5, que sem nenhuma sutileza, já abre uma caixa de cadastro para colocar seus dados. Mas o curioso mesmo é que nunca chega nada do MySpace, que é o preferido na gringolândia.

2007-04-11

Imagine se tudo fosse feito pela Adobe








Fiz a maluca experiência de criar no Photoshop um gabarito de ícone padrão Adobe CS3 e aplicá-lo aos ícones de todos os meus programas do dia-a-dia.
Os critérios aplicados para decidir a aparência deles foram simples: usar sempre uma cor que fosse predominante no ícone original e permitir ícones repetidos somente em cores e funções diferentes.
Os programas de uma mesma empresa - Apple, Microsoft - ficaram agrupados juntos no Dock para facilitar a associação.
Dois programas - iCal e Pando - reescrevem o próprio ícone no Dock e não podem ser modificados de forma permanente pelo Get Info. Finder e Dashboard só não foram alterados por preguiça.

Eis as minhas observações sobre o resultado, em termos de usabilidade.
No primeiro momento ficou difícil achar qualquer coisa no Dock, mas o costume surgiu mais rapidamente do que eu esperava.
O mecanismo visual que o cérebro usa para reconhecer um ícone parece se fundamentar primariamente na cor, e em segundo lugar no formato exterior. Entre outras coisas, isso explica minha tendência antiga de fazer confusões bobas e clicar no Mail em vez do Preview (dois ícones azuis com contorno quadrado) ou no iChat em vez do Safari (além de azulados, os dois são arredondados).
O fato de todos os ícones Adobe CS3 terem a mesma forma quadrada não atrapalhou tanto quanto seria de esperar pela simples lógica, pois a função que o ícone representa de maneira figurativa ficou menos importante numa coleção tão uniforme. A cor passou a ser o fator básico de distinção.
O segundo elemento de reconhecimento do ícone, no esquema da Adobe, é a sigla alfabética. Ela é um auxílio para quem ainda não decorou que o Photoshop é azul, o Illustrator laranja e o InDesign roxo. Mas em muitos utilitários da Apple não há cor dominante no ícone, apenas um detalhe azulado quando muito. Experimentei então criar para eles vários ícones idênticos em cinza.
A Adobe permitiu que o Acrobat mantivesse o símbolo em vez da sigla. Imitei essa exceção e mantive símbolos também no DVD Player, no System Preferences e no Address Book. Esses ícones ficaram mais fáceis de distinguir que os vizinhos que só têm letras.
O símbolo "DVD" é de interpretação muito mais direta e fácil do que, por exemplo, "DU" para Disk Utility. Mesmo sendo "DVD" também uma sigla formada de letras, o reconhecimento visual ocorre pela forma total do conjunto. "DVD" tem um formato peculiar (lembra uma cara de coruja) e isso dispensa a leitura individual das letras componentes. Além disso, as letrinhas achatadas e largas são familiares, por já terem sido vistas muitas vezes em outros contextos. No caso de "DU", porém, é inevitável um esforço adicional para decodificar as letras fora do usual. Mesma coisa para "iT" (iTunes) e "iM" (iMovie), por exemplo, mesmo com a ajudinha do "i" minúsculo.

Observações adicionais sobre algumas das decisões de siglas de letras.
A Adobe, em seu esquema oficial, fez de tudo para que cada programa tivesse sempre duas letras. Mas apenas "Q" para QuickTime é fácil de interpretar, pois o ícone original já era baseado na letra Q isolada. Mesma coisa para o "S" de Skype e os membros do Microsoft Office - "X" (Excel), "W" (Word), "E" (Entourage) e "P" (PowerPoint).
Stickies poderia ser representado por "St" e não "S", mas me pareceu que a cor amarela clara do ícone evitaria qualquer confusão com o "S" azul celeste do Skype. Mas agora estou quase mudando de idéia para "St".
VLC virou "V" porque parecia impraticável colocar essas três letras juntas. Mas Pic2Icon é "P2I" porque coube no espaço um trio de letras com "I".
Alguns ícones ficaram intragáveis. "RT" para Roxio Toast, "Sa" para Safari e "CD" para CyberDuck? Sei não.

2007-04-07

Blablablá não entra

Esta semana foi interessante. Não postei nada novo, mas vieram cinco comentários seguidos que tive de rejeitar, sendo o normal nunca rejeitar nada. Nunca aconteceu de virem dois seguidos, nem cinco sobre assuntos diferentes. Mais curiosamente, os comentários-lixo que recebi são referentes a posts velhos, como se de repente eles tivessem ganho link em algum site muito acessado.

2007-04-02

Dois contrastes

A Apple anunciou hoje que irá vender música da gravadora EMI com alta qualidade de compressão por um preço um pouco mais alto que o normal da iTunes Store (US$ 1,29 por faixa), mas sem nenhum tipo de DRM (controle de cópia). Você paga, baixa a música e ela é totalmente sua: faça o que quiser com ela, inclusive tocar em aparelhos que não sejam o iPod. Quem já tiver baixadas músicas da EMI pelo iTunes com a qualidade normal e DRM paga a diferença e fica com o upgrade. Fica a promessa de abrir os arquivos das outras grandes gravadoras, o que depende fundamentalmente delas e não da Apple.

Steve Jobs é um cara de mídia, tanto quanto de tecnologia, sendo ao mesmo tempo um dos donos de uma companhia de mídia (Disney) e presidente de uma companhia de tocadores de mídia (Apple). A partir dessa posição ideal, ele fez as contas e concluiu o que já parecia óbvio para o consumidor: música sem DRM é mais música vendida via downloads digitais. Mais oportunidade para as gravadoras recuperarem o espaço perdido pelo CD, em vez de perseguir os ouvintes como se fossem ladrões. E um mercado mais aberto e livre, como era nos tempos do CD.

Jobs já tinha dito isso tudo numa incomum carta aberta divulgada no site da Apple, há dois meses. O homem não dá ponto sem nó. A carta, afinal, não era só especulação, mas um aviso sobre o futuro real.

Não é preciso ter medo da pirataria: uma das verdades eternas da vida digital é que quem quiser copiar sempre vai poder copiar. Tentar reprimir os piratas é esforço inútil que podia ser empregado em melhorar o serviço ou o produto e dar motivação para pagarmos por ele. Pois sempre vai haver quem tenha disposição de pagar por um serviço melhor, seja com maior qualidade ou mais fácil de usar. Essa minoria pagante acaba subsidiando a maioria que não paga e que sempre dará um jeito de não pagar. Quando o mercado atinge uma escala grande, a coexistência entre todos fica possível. Sem processos judiciais, sem perseguições criminais, sem aparelhos eletrônicos estragados por tecnologias de controle estúpidas. Além disso, abrindo o formato digital, desaparecem as restrições ao modelo de negócio fechado da Apple, já que ele passa a ineroperar com todo mundo.

Para a concorrência, apresenta-se esta alternativa: aderir ou morrer. Justamente em época de Zune e Windows Vista com iniciativas de DRM ultra-reforçadas, veja só. O Zune deve muito do seu fracasso inicial ao modelo de aquisição de músicas, que contempla unicamente o benefício da empresa e não dos consumidores. Os consumidores percebem isso e qualquer atração pelo produto some. As faixas vendidas pelo Zune são cotadas em "pontos", não em dinheiro real, e o DRM destrói as faixas compartilhadas entre Zunes. São duas coisas que enfurecem o usuário e matam o produto. Pois isso precisa acabar para que a Microsoft siga competindo nesse mercado. Vai precisar engolir o orgulho que tiver e copiar, além do produto da Apple, seus procedimentos.

Até aqui, tudo bem, mas este texto tem o título de "dois contrastes". Por quê? Por causa da diferença enorme das percepções sobre esses assuntos aqui no Brasil e lá fora no Primeiro Mundo.

Em primeiro lugar, não temos ainda a iTunes Store da Apple no Brasil. Culpa da Apple, que não tem estratégia suficientemente ampla? Culpa da divisão Apple Latin America, que parece eternamente destituída de iniciativa? Ou culpa das nossas gravadoras, que não querem investir em mudanças no esquema de distribuição?

Muito a propósito, a EMI brasileira estragou os seus discos implementando um esquema de proteção de cópia que é um insulto ao consumidor. Deixei de comprar discos dela por conta disso. Agora que a matriz abriu o formato para download, a filial local tem algum plano de seguir o exemplo, ou a vergonha vai continuar?

Terceira coisa: quando aparece uma loja de música online brasileira, ela usa o formato Windows Media a fim de implementar o DRM, e então sugere com a cara limpa que você se dê ao trabalho de converter o formato das músicas no iTunes para ouvi-las no iPod. Burrice do site ou, novamente, das gravadoras?

Essas coisas juntas empurram decididamente os consumidores locais para a pirataria. Pirateamos por falta de seriedade das companhias de mídia conosco. Por falta de vontade real de elas saberem o que nós queremos, em lugar de o que elas querem.

O segundo contraste é uma mania persistente de "denunciar" a Apple, ou mesmo Steve Jobs pessoalmente. Essa motivação você pode ver em uma ou outra colocação de maldade gratuita que ainda aparece na imprensa especializada brasileira, e até em comentários ressentidos neste blog quando o assunto é um produto Apple. Acorde, mané: o mundo agora é outro.

Update - Esta charge vem muito a propósito sobre o assunto. Perseguição gratuita acontece lá fora também. A diferença de lá para cá é o nível dos argumentos usados.