2007-03-30

Clube do G3: a volta dos clássicos

 
O modesto Classic II




O Classic II (exemplar de julho de 1991) foi o primeiro modelo de Mac com o qual trabalhei, em 1992, na redação da Revista Náutica. Em nome da boa memória, quando surgiu um usado à venda no MacBBS (lembra?) em 1999, não vacilei e comprei. Ele veio de Brasília, despachado pelo ex-dono via transportadora. Conservado com evidente carinho, ele estava em perfeito estado e cheio de programas de Mac dos anos 80, principalmente jogos.
Além da máquina em si, veio a mala de Cordura para transporte. É semelhante à que aparece neste site. Era um acessório comum nos anos 80, antes de existirem os laptops. Todos os Macs clássicos têm uma alça disfarçada no topo para serem carregados, mas a malona permite colocar junto teclado, mouse e acessórios para viagem, além de proteger tudo das pancadas.
O Classic II foi o sucessor do famoso SE/30, mas é bastante mais lento, pois tem a mesma placa-mãe do Color Classic, que por sua vez é a mesma do LC II, com limitações de barramento e memória. Ninguém achava isso muito ruim porque, ao preço de US$ 1900, custava metade do modelo que substituiu. Como os programas de sua época são muito simples, ele não dá sensação de lerdeza ao rodar algum deles, e sim no redesenho da tela. Desde ser ligado até ter o sistema 7.1 completamente carregado, ele leva em torno de 15 segundos - tente isso em qualquer computador moderno!
Nem tudo nele é alegria, porém. Depois de tantos anos comigo sem problemas (e passando mais tempo dentro da mochila do que em exibição na sala de estar), o Classic simplesmente não ligou mais desde que o incorporei ao Clube do G3. Suspeito de algum componente velho na fonte que faz as voltagens internas ficarem irregulares. Estou com preguiça de abrir o gabinete e mexer dentro dele... mas é uma tarefa que ainda terei de fazer. Senão, onde vou rodar o Shufflepuck, o Tetris original e o Spectre com aquela sensação total de túnel do tempo?
Eis alguns links interessantes sobre o Classic II:
Exposição em museu na Suécia com obras de arte digital exibidas em telas de Classics II.
Bar montado com Classics II funcionando (apareceu em matéria numa revista MAC+).
Ficha técnica detalhada.

O lindo Color Classic



Este exemplar da primeira leva (fevereiro de 1993) do lendário Color Classic pertenceu ao Sérgio Miranda. Peguei a máquina dele durante minha participação no fechamento da MAC+ 11. A foto foi tirada pelo próprio Miranda.
O Color Classic tem o mérito histórico de ser o último de todos os Macs compactos, sendo o único colorido e único com facilidade para upgrade de placa-mãe. Não é, porém, um descendente puro da linhagem original do Mac (128, 512, Plus, SE, SE/30, Classic e Classic II). É uma recriação do formato compacto a partir dos componentes do popular LC II.
Em sua época, ele era pouco importante na linha de produtos da Apple, pois foi universalmente considerado "muito pouco, muito tarde". A crítica geral é que ele precisava ter surgido anos mais cedo, quando a Apple estava ocupada demais em arrancar grana do mercado corporativo com Macs poderosos e caríssimos, negligenciando o segmento popular. Em 1993, época da ascensão da multimídia e da Internet, a necessidade por um Mac compacto só se justificava pelo fetiche de ser pequeno e bonito. Para os padrões técnicos da época, era lento e limitado. O preço de um novo era de razoáveis US$ 1400.
O case é repleto de detalhes esculturais inspirados. Quem o criou investiu nele um talento estético fora do normal. Seu design faz vários Macs posteriores mais importantes passarem vergonha quando colocados lado a lado. De fato, ele é geralmente reconhecido como um dos produtos mais bonitos já criados pela Apple em todos os tempos. O Color Classic até me faz parar o que estou fazendo de vez em quando para admirá-lo.
Estão lá todos os elementos da sofisticada linguagem visual "Espresso", que os designers da Apple estavam adotando na época para se diferenciarem melhor da concorrência - a qual, naquela altura, já tinha se apropriado da linguagem "Snow White" que tanto distinguiu a Apple nos anos 80. O Color Classic tem superfícies curvas por todo lado, tomadas de ar laterais com aparência de guelras, furação caprichosa na borda inferior frontal e pezinhos bem-humorados que o fazem lembrar um cachorrinho sentado. Um detalhe curioso é o pequeno selo "QuickTime" num canto na frente, lembrando que o software de multimídia da Apple foi lançado junto com ele. O QuickTime até hoje é uma fundação da tecnologia Apple, formando a base para o sistema iPod+iTunes e para o novo Apple TV, por exemplo.
A propósito, o sistema que está instalado nele é o 7.6, e como está sem a placa de rede, qualquer transferência de arquivos é feita por um Zip Drive SCSI externo. O HD de 500 MB tem espaço de sobra para todos os abandonwares de Mac antigos que consegui coletar.
Quando se coloca o Color Classic lado a lado com um dos outros clássicos, nota-se que ele é mais profundo e mais alto, e tem uma área de tela ligeiramente menor. E pesa bem mais, também.
O monitor é um Sony Trinitron integrado de 9 polegadas a 512x384 pixels. É a mesma resolução dos Macs compactos anteriores desde o primeiro modelo de 1984. A profundidade de cor é de 256 cores.
Ele funciona gloriosamente, com a tela perfeita, nítida e brilhante, e capaz de rodar Photoshop 1.0 e FreeHand 2.0 com sossego. O som está um tanto fanho - problema idêntico ao do meu Classic II.
Na construção mecânica a máquina é show, pois a minúscula placa-mãe é facilmente removível e intercambiável, montada num trilho deslizante que também existe nos Macs posteriores das séries 500/5000 e 600/6000. O processador é um Motorola 68030 de 32 bits a 16 MHz - tornado lento pelo barramento de 16 bits. O limite de RAM de 10 MB também não ajuda. Mas este modelo aceita muitos upgrades, alguns envolvendo hacks com chips modernos como G3 e G4. Confira estes sites para ver a que absurdos os fãs chegam no tuning:
Transformando em aquário.
Processador G4 e tela LCD.
Diversas transformações.
Colocando a placa-mãe de um iMac dentro do Color Classic.
Ficha técnica com dezenas de links relevantes.

2007-03-17

Microconto

Estava de bobeira, sem fazer nada, olhando para a tela do computador, com o pensamento disperso. Uma pequena pilha de moedas sobre a mesa, troco de padaria. No outro extremo da mesa, um caneteiro. Espetada displicentemente para fora do caneteiro, em equilíbrio duvidoso, uma caneta de escrever em CDs, vermelha.
Atendeu o telefone e, com a naturalidade inconsciente de quem está atendendo o telefone, pegou uma moeda dourada de dez centavos e ficou brincando com ela na mão. Mais alguns minutos de telefonema e pegou a caneta vermelha também. Ao final do telefonema, a moeda estava com uma metade perfeitamente pintada de vermelho transparente.
Contemplou o resultado, passou as pontas dos dedos, esfregou a moeda em outras moedas e na parte de baixo do tampo da mesa. Percebeu que a tinta era muito resistente e não saía dos sulcos metálicos com a fricção.
Na manhã seguinte, novamente na fila para pagar o pão, puxou do bolso a moeda que tinha a metade vermelha e a entregou ao caixa, convenientemente misturada entre outras moedas. O caixa não notou absolutamente nada. Veio uma breve sensação familiar há muito esquecida, como de uma travessura de infância. Uma minúscula contravenção inócua.
Não agüentou: ao cabo de três dias, tinha pintado a metade de todas as moedas de troco que ainda tinha, e estava usando essas moedas para pagar padaria, banca de jornal, ônibus, lotérica, de tudo. Nunca as pessoas que recebiam as moedas achavam nada de estranho. Finalmente, houve um experimento bem-sucedido com a primeira moeda pintada dos dois lados, seguida de muitas outras e da compra de uma caneta vermelha nova.
Se a tinta era tão resistente quanto parecia, e se continuasse a pintar moedas, quanto tempo será que se passaria até receber de volta uma delas? Por onde ela circularia até retornar? Quantas precisariam ser pintadas para a brincadeira ficar estatisticamente viável? Muitas perguntas, muita curiosidade.
As semanas seguintes foram dedicadas à obstinada pintura de todas as moedas que lhe passavam pela mão, algumas trocadas em massa em caixas de comércios. Um saquinho de supermercado cheio de moedas de centavos ocupava o lugar onde antes havia a discreta pilha. A caneta passou a morar no seu bolso junto com a carteira. Admiravelmente, ninguém notava nada quando recebia as moedas vermelhas. Nem mesmo as maiores, de 25 centavos. As de 1 real não precisariam ser pintadas porque circulavam mais devagar. Mesmo assim, ganhavam decoração vermelha no bordo dourado.
Nunca voltava à sua mão uma moeda vermelha, e ao cabo de alguns meses o entusiasmo foi diminuindo. Mas não ainda o suficiente para que parasse de pintar as moedas. A persistência deveria ser premiada.
Então, numa manhã de domingo ao pagar um sorvete, surgiu a primeira moeda colorida no seu troco.
Era azul.

2007-03-11

O futuro é do computador sério

 
Porque o Mac OS clássico não presta


Resolvo usar o Power Mac 6500 para tocar via iTunes umas músicas que estão armazenadas dentro do G3, através da rede Ethernet. Operação trivial que faço regularmente. Porém, misteriosamente, o sistema não quer mais abrir o atalho para a pasta de música no G3, dizendo que o volume está inacessível. Abro o Chooser e peço para conectar ao G3, digitando o seu endereço IP. Os três volumes que correspondem aos HDs do G3 estão disponíveis. Monto o que contém a pasta de músicas. Funciona. Então, decido montar os outros dois volumes, também, só para criar atalhos deles e montá-los quando quiser transferir um download ou qualquer outra bobagem. Então, o Chooser fica parado para sempre na barrinha animada de "conectando". Dou Force Quit pelo teclado (Command-Option-Esc, lembra?) e a máquina me pergunta se devo encerrar o A-Dock, que é um programa que não tem a ver nada com a história. Encerro o A-Dock e aciono a combinação de teclas mais uma vez. Agora sim, ele pergunta se quero encerrar o Chooser. Clico OK. O Mac congela. Restart a frio. Antes de voltar à vida, o sistema passa 6 minutos checando o HD. Clico no atalho da pasta que não queria abrir em primeiro lugar. Novamente ele diz que o atalho não leva a lugar algum. Clico nos atalhos que o sistema acabou de criar para os HDs remotos. Também não funcionam. Abro o Chooser e reconecto. Agora dá certo. Mas o sistema se recusa a guardar a senha no Keychain (chaveiro), dizendo que ele deve estar read-only. Acesso a pasta de música, abro o iTunes, mas até já esqueci o que queria ouvir.

Porque o Windows XP SP2 e o Windows Mobile 2003 não prestam

Este pedaço do artigo descrevia originalmente um notebook e um palmtop que não conseguiam sincronizar via USB. Infelizmente, o problema não era do software, mas sim do hardware do Pocket PC, que apresentou um defeito fatal e teve que ser repentinamente substituído por um celular normal (contando com o auxílio e o timing perfeito do Alexandre Villares ;-).
Mesmo assim, reclamar é uma coisa muito fácil, e reclamar do Windows Mobile é mais fácil ainda. Gostei muito de usar o Pocket PC durante três anos, vou ficar com saudades. Mas o "killer feature" dele, para mim, era um aplicativo (de terceiros e pago, como quase tudo para o Windows Mobile), chamado Pocket Artist - uma miniatura de Photoshop onde eu podia desenhar de improviso, deixando os guardanapos de restaurante em paz. Fora isso, era legal poder ler uns e-books nele usando o editor de texto ou a versão portátil do Adobe Acrobat.
O sistema em si mesmo tinha vários inconvenientes, como a insistência em esquecer o meu método de escrita preferido (semelhante ao Graffiti do Palm) e reverter sozinho para o horrível tecladinho virtual; ou não possuir um óbvio indicador de carga da bateria na tela principal (solucionável usando softwares de terceiros e pagos); ou o comportamento default de salvar os arquivos novos na RAM volátil e não no cartão Flash SD; aquela lerdeza familiar ao rodar mais de dois programas ao mesmo tempo, apesar do processador parrudo de 400 MHz (capaz de tocar filmes DivX, imagine isso) e da memória de incríveis 128 MB; e a mania de só desligar a tela vários segundos após pressionado o botão de desligar, dando a falsa sensação de estar travado.
Finalmente, o site do fabricante (Qtek, fornecedor em OEM dos Pocket PCs da Gradiente) recusou-se a aceitar o código de autenticação do aparelho, a única maneira de baixar e instalar a atualização do Windows Mobile. Aí já foi para me sentir insultado, mesmo.
Como telefone, o aparelho tinha problemas vexaminosos também, como o hábito de ficar inesperadamente mudo ou o de simplesmente não tocar quando alguém me ligava. Além da incapacidade inexplicável de salvar os contatos telefônicos automaticamente no chip SIM. Se eu fizesse essa tarefa à mão, ficava tudo repetido, pois o software gerenciador do SIM regravava tudo em vez de apenas atualizar.
Enfim, o Pocket PC é um pato eletrônico: não caminha bem, não nada bem e não voa bem. Mas, como bom pato, é bonitinho e simpático, e para muitos consumidores de tecnologia isso basta...

O passado negro da computação

No século passado, a nossa vida de usuários de informática era esse inferno o tempo todo, e incrivelmente, estávamos acostumados. Todo dia alguma coisa pifava espontaneamente, a máquina travava sem aviso e perdia dados rotineiramente, o HD corrompia, as conexões caíam e não voltavam, os modems queimavam, os programas eram frágeis e fechavam sozinhos só de clicar torto neles. Deu pra sentir que houve uma evolução desde então. Os computadores pessoais fazem coisas muito mais complexas sem se perderem tanto no caminho.
Como assim, esses problemas estão acontecendo com você? Isso não pode. Um computador não pode ser considerado sério se força o usuário a conviver com falhas primárias como essas. É inadmissível. Para fazer um paralelo claro, você não toparia dirigir seu carro se uma roda aparecesse solta do eixo sozinha toda manhã, se o veículo não freasse toda vez que você pisa no pedal, ou se ele acendesse uma luzinha colorida no volante para avisar que não pode fazer curvas à direita nos próximos quilômetros.
A solução para o Mac é colocar o OS X, se a máquina agüentar. Resolve 99 por cento dos problemas de rede e não trava nunca mais.
A solução para o PC é jogar fora o Windows e usar Linux, caso não falte nenhum driver ou aplicativo muito importante.
Em todo caso, em primeiro lugar não deveríamos tolerar os bugs passivamente.

A paranóia do update

Infelizmente a cultura do comodismo contaminou não apenas os usuários, mas também os desenvolvedores. Minha encheção em relação a alguns softwares é que os desenvolvedores postam atualizações quase diárias, e toda vez que você quer usar o programa, precisa esperar que ele gaste minutos preciosos baixando alguma bobagem da Internet e somente então comece a trabalhar para você. Quando o seu computador é um portátil com Wi-Fi, é pior ainda. Você usualmente tem pressa, resta pouco tempo de bateria e a máquina já é mais lerda que um PC normal de mesa. Abre o notebook e o sistema não responde: você assiste passivamente ao HD girando alucinadamente e à conexão piscando freneticamente, baixando as atualizações diárias para o browser, para o antivírus e para o próprio sistema.
Você argumenta que as atualizações podem ser agendadas a fim de incomodarem menos, mas aí pergunto: como saber que não estou perdendo uma atualização absolutamente crítica, que tem que ser feita hoje mesmo, caso contrário o mais novo vírus irá transformar meu PC em mingau? Houve tentativas de solucionar essa questão, mas não de uma maneira geral e integrada. No Mac é mais sossegado, porque os updates do sistema são menos freqüentes, claramente sinalizados caso necessitem restart, trazem uma descrição precisa do que é que muda com eles., e vários deles podem ser acumulados, baixados e instalados de uma vez só sem causar a mínima interrupção no seu trabalho.
O ponto central, enfim, é uma dúvida sobre a necessidade dos desenvolvedores de reescrever seus programas com tanta freqüência. Se não se trata de um antivírus, parece sinal de coisa malfeita, mal planejada, que pede remendos a toda hora. Foi a minha principal razão para, por exemplo, desistir de usar o Firefox no Mac. O festival de updates inclui as extensões, já que muitas delas precisam ser reescritas a cada mudança de versão do browser, senão páram de funcionar. Certa hora, a paciência simplesmente acabou e voltei para o Safari.

Eu te disse

Walter Mossberg, colunista bem respeitável do Wall Street Journal, comprou um laptop Sony novo com Windows Vista e enlouqueceu com o festival dos updates que descrevi acima. Mas pior ainda para ele foi o desfile de programinhas caça-níqueis que vieram pré-instalados na máquina.
O relato do horror está aqui.

2007-03-10

O mesmo de sempre

Então, a Globo resolveu fazer sua própria Exame e lançou a Época Negócios. Já sai com ótimo conteúdo comercial, nota-se que é um projeto tocado com cuidado, para variar. Nada de fazer um belo produto editorial que não se sabe vender. Nisso já tive simpatia pela nova revista.
Na página 96 começa o artigo de capa sobre a Apple e Steve Jobs. A chamada de capa pergunta: qual o segredo? A matéria murcha a bola do público alvo, afirmando, como de costume, que a cultura de inovação da Apple é uma coisa tão particular que não pode ser verdadeiramente reproduzida, exceto em alguns procedimentos gerais.
O texto, de Ivan Martins, trampado e pesquisado, bebe em algumas fontes reconhecíveis, ainda que não creditadas. Apresenta Jobs de uma forma bem parecida ao perfil dado pela Newsweek ou Business Week, por exemplo. Mas me decepcionei por repetir alguns fatos errados recorrentes óbvios, cacas que aparecem invariavelmente quando se escreve sobre a Apple em publicações brasileiras.

Página 98, legenda: o nome do outro Steve é Wozniak terminado em k, não c.

Página 100: o próprio nome do Apple II, incluindo esse "II", dá toda a dica de que ele não foi o "primeiro" computador pessoal do mundo, como aparece escrito em dois lugares diferentes nessa página. Foi o primeiro computador vendido pronto para usar e não na forma de kit, como era seu antecessor Apple I.

Página 102: mais uma vez encontramos aqui a hipérbole do "primeiro". Não, o iMac não foi o "primeiro" computador pessoal em "duas peças" (teclado e monitor). Houve uma série de antecedentes desde o começo dos anos 80. Como ficam o Osborne? O primeiro modelo da Compaq? O Macintosh original? O Compaq Presario?

Página 102: Erro de data. A modernização do iMac a que o texto se refere ocorreu em 2002, e o produto foi lançado em janeiro de 2003.

Página 104: A história de que o iMac G4 deveria parecer um girassol soa a uma bela lenda criada sob medida por Steve para a matéria especial da Time daquela época. Uma explicação bem mais plausível, embora igualmente fútil e igualmente indigna de ser passada adiante como fato relevante, é que o formato de abajur tem tudo a ver com o logo da Pixar, a outra empresa de Jobs. A informação de que o iPod tem o volume do som mais alto que os outros aparelhos não se sustenta, e ainda estou esperando pela prova factual de que Jobs pediu o volume do iPod mais alto por ele ser parcialmente surdo.

Página 105: a decisão de não licenciar o Macintosh nos anos 80 não pode ser atribuída a Jobs. O board da Apple e o CEO John Sculley consideraram a idéia, passada a eles por nada menos que Bill Gates, que acreditava no futuro do Mac como substituto do IBM PC e até se prestou a ajudar a Apple a encontrar parceiros comerciais. Mas a Apple se acovardou diante da idéia de perder o controle da plataforma fechada e dos lucros gordos. Mas preste atenção: quando isso aconteceu, Jobs já tinha sido "saído" da Apple.

Página 105, legenda: Viagem na maionese ao falar do AirPort. Ele não foi "diferente demais para sobreviver" - existe atualmente num case quadrado, similar ao do Mac mini. A mudança não foi na época do Cube, como diz o texto. Foi muito mais recente. Por sua vez, o Cube não tinha rachaduras no plástico do case, e sim ranhuras superficiais causadas pelo processo de injeção da peça. Esse é um equívoco particularmente irritante devido à sua persistência, e tendo investigado o assunto na época, tenho a pachorra de desmentir a informação ao longo de todos esses anos.

Página 106: a família Mac não espera conquistar 6% do mercado americano em 2007. Ela já ultrapassou esse número e continua crescendo aceleradamente. O livro de Jim Carlton sobre a Apple não foi "recém-lançado nos EUA"; eu li a primeira edição em 1997.

Página 107: o case transparente e colorido do iMac é apontado aqui pela terceira vez como a salvação da Apple. Só que o conceito completo da máquina, incluindo o software e a facilidade de instalação, deve ser levado em conta. Todavia, nove anos depois, ainda persiste uma forte percepção geral de que o iMac original era um rostinho bonito para um computador como qualquer outro. Já vi pessoas espantarem-se quando expliquei que o Mac OS daquela época existia com aqueles recursos todos antes do lançamento do iMac e que não tinha sido inventado especialmente para rodar nele.

Por aí se vê que minha motivação em escrever isto tem a ver com a que me fez falar da falsa bicicleta do Leonardo.

Idiotas, Parte 1: A falsa bicicleta de Leonardo da Vinci

Tinha já lido um artigo numa revista ou jornal sobre a exposição itinerante de Leonardo da Vinci no subsolo da Oca. O texto era azedo. Dizia que para uma exposição que só mostrava reproduções inexatas dos trabalhos do mestre, deveria haver uma explicação clara na propaganda para os visitantes não irem lá iludidos. Li a crítica e desencanei. Afinal, é preciso ser ingênuo para crer de antemão que vai trombar com originais inestimáveis de Leonardo no Ibirapuera.
Então, vi na TV uma matéria com detalhes da mostra, incluindo as maquetes das máquinas, caprichosamente construídas por artesãos italianos. Entre elas, há uma bicicleta. Que eu já conhecia bem.
É um "invento" audaciosamente falso, pegadinha famosa feita por um engraçadinho séculos mais tarde, aproveitando alguns traços preexistentes num dos cadernos originais de Leonardo. À ousadia perfeita do gozador se contrapõe a credulidade dócil do povo, incluindo os supostos especialistas em Leonardo que criaram a mostra e deveriam saber melhor com o que estão lidando. O hoax sobrevive tenazmente nos meios eruditos: apurei que o Museu da Ciência de Boston, nos EUA, tem também uma maquete da bike.
Quais inventos compõem a bicicleta moderna? Rodas de mesmo tamanho, uma à diante da outra, com o piloto sentado no meio; direção pela roda da frente; propulsão por pedais; tração na roda traseira; transmissão por corrente. Essa coleção de inventos diversos só convergiu ao longo da década de 1880, depois de suplantar várias outras idéias que não deram certo e muitas tentativas frustradas.
A bicicleta do Leonardo é tão fake que traz um erro crasso que qualquer pessoa leiga poderia poder perceber, e me exaspero que não perceba. É a fixação equivocada do eixo dianteiro, incapaz de fazer curvas. Há no desenho um guidão de estilo atual, o que apenas deixa o erro ainda mais evidente. A mancada, claro, foi fielmente reproduzida na luxuosa maquete.
Fui investigar se alguém mais da mídia aceitou a bicicleta sem qualquer reflexão. Tristemente óbvio que ninguém estranhou nem destacou a bike.
Enfim, daqui a mais algum tempo "descobriremos" em mostras "científicas" que Leonardo também inventou o iPod e o forno de microondas.

Aqui, uma referência aprofundada sobre o assunto (em inglês).

2007-03-07

Tendências no supermercado

Percorrer as gôndolas do supermercado sem um objetivo de compra definido sempre foi para mim um bom exercício de observação. Inicialmente pela curiosidade parcialmente antropológica de entender a razão de cada uma das seções ficar onde está em relação às outras - regra básica: supérfluos caros à frente, essenciais baratos nas laterais, carnes no fundo, besteiritos no checkout. Também vale o exercício fútil porém irresistível de tentar adivinhar o que passa dentro da cabeça daquela dona de casa parada indecisa no meio do corredor, a partir das coisas extraordinariamente desconexas que ela já colocou dentro do carrinho. Finalmente, já que é assunto da minha área profissional, presto uma atenção enorme nas novas embalagens brilhantes, metalizadas, laminadas, com alto-relevo, impressas a oito tintas.
Desprezo a obsessão gratuita de tantas embalagens em trazer variações do mesmo produto - baunilha, morango, limão - com aparência absolutamente igual até a última molécula na foto, mudando unicamente a cor, orgulhosas por nada em especial, como se as curvas de Photoshop ainda fossem novidade neste século. Querem me impressionar de verdade, senhores designers de embalagens? Produzam uma foto diferente para cada sabor, com enquadramento e ângulo únicos. Limão de frente, baunilha mais pela esquerda, morango pela direita. Aproveitando o embalo, tentem retocar um pouco menos essas benditas fotos, porque fica na cara demais que o que a gente come não se parece com elas. Dica de fotoxopista velho, acostumado a retocar rostos de modelos: ausência de imperfeições não é o mesmo que perfeição. Não vai rolar stress no comprador se a massa do bolo na foto tiver uma bolhazinha maior do que as vizinhas. Compreendido? Desabafo feito, passemos ao tópico seguinte.
Divirto-me com a criatividade inteligente de alguns textos nos rótulos. Por exemplo, na embalagem do Nescau edição limitada sabor guaraná, vem o genial slogan: "Pare de imaginar e experimente!" Pois comprei e experimentei mesmo. Comprei o marketing inteligente e experimentei um achocolatado estranhíssimo, ainda que agradável. Talvez não tenha o impulso de comprar pela segunda vez, mas para a Nestlé isso foi uma vitória, já que estou falando desta experiência publicamente no meu site, para um punhado de adoráveis consumidores altamente qualificados. E isso porque muitos deles, incluindo eu mesmo, certamente preferem mil vezes o concorrente Toddy.
Que venha então, por favor, o Toddy de guaraná com frutas vermelhas, gaseificado, vitaminado, cafeinado, com partículas brilhantes, brinquedo grátis e ingressos para um parque temático, e que seja interativo e pinte a língua. Com um slogan adequado para os novos tempos pós-orkut: "Toddy PowerGel - a bebida láctea achocolatada instantânea light aditivada que liga!"
O escracho se justifica porque o mesmo produto, com sabor esdrúxulo e nome técnico cheio de rodeios e eufemismos ridículos, e que só pretende estar à venda durante um mês e tanto, também representa o pior do que está acontecendo com os produtos de consumo no Carrefour mais próximo. O modismo pelo modismo pelo modismo pelo modismo pelo modismo.
Deve estar muito fácil para a indústria lançar besteiradas limitadas a fim de fisgar o público novidadeiro, porque na minha época de consumidor néscio não era assim. Lembro quando alguém inventou a versão de chocolate branco para um produto de chocolate tradicional (acho que era um bombom). O resto da indústria alimentícia macaqueou em massa essa iniciativa no dia seguinte e lotou as gôndolas de produtos brancos, todos inferiores e indignos de competirem com os originais pretos, mas custando a mesma coisa. Não deu certo, mas essa mania continuou gerando todas as variações indignas imagináveis para todos os produtos possíveis.
Outra faceta desse fenômeno é "estender" uma marca de sucesso a uma linha de produtos tão vasta que a marca se dilui perigosamente. Só para continuar na Nestlé, líder absoluta na insanidade: Galak pode ser picolé ou biscoito recheado, Neston é iogurte, Nescau é cereal matinal ou bombom. E esses nomes representam a cada dia mais coisas novas e diferentes. Se o resto da indústria seguir seus passos, algum dia ainda teremos biscoitos Coca-Cola e refrigerantes Delícia Cremosa. Nesse momento, ou a marca finalmente perderá toda a personalidade e não significará mais nada de concreto, ou o comprador já não conseguirá distinguir o que há dentro da embalagem, se bolas de cereal ou salgadinhos.
Até aqui, de qualquer maneira, estamos falando de criatividade e não de falta dela. Olhando para o outro lado, o tiro de misericórdia na originalidade alimentícia só pode ter sido a Colomba Pascal. Certo dia de final de verão, no ocaso dos anos oitenta, um executivo de uma indústria de panetones teve a idéia de fabricar e vender panetones fora do Natal, associando-os a outra data religiosa. O cara não era tão inteligente como devia se crer, porque se tivesse escolhido São João em lugar da Páscoa, teria dois ciclos de exatamente seis meses para dividir perfeitamente o ano da fábrica. Mas o aspecto mais curioso da invenção é a forma como foi apresentada ao mundo. Como até então não existia nenhum antecedente do bolo de Páscoa no mercado, o anúncio na televisão vendeu a idéia com o texto publicitário mais contraditório da história da propaganda: "UMA NOVA TRADIÇÃO". Um fantástico insulto à inteligência, verdadeiro soco na cara verbal. Mas de uma ousadia tão extrema que acabou dando certo. O povo nem se preocupou em entender o formato de cruz irreconhecível e bizarro do produto, que teoricamente seria baseado numa pomba.
Saltemos 20 anos de "nova tradição" até os tempos atuais, e o que temos? À sua esquerda, na esteira rolante do Extra da Brigadeiro, as Colombas da Bauducco. À direita, as Colombas da Visconti. A maior diferença é que uma embalagem é amarela e a outra azul. Nem mesmo os logos são suficientementemente diferentes um do outro. Para a semelhança ficar ainda mais perturbadora, as duas marcas resolveram ao mesmo tempo que o formato de cruz gorda/pomba deformada dos bolos, que já era patético por si, poderia tranqüilamente dançar, para grande benefício nos custos de fabricação e zero feedback negativo dos consumidores.
Assim é que as embalagens das duas marcas proclamam, em temível simetria: "Nova Colomba! Em novo formato, muito mais prático!" As Colombas de 2007 têm contorno precisamente elíptico. São, para todos os efeitos, nada além de panetones achatados, com o mesmo teor de gordura trans e com as mesmas variações de sabores. Quer quatro tipos diferentes de chocolate? Toma aí: Chocolate, Trufa, Brigadeiro e Mais Chocolate! A única diferença real é o formato. Mentira: as Colombas parecem maiores que os panetones do mesmo peso, e custam mais também.
Pois vou comprar nesta Páscoa a mesma coisa que já compro há vários anos: o ovo de páscoa Trakinas. Aquele em formato de disco, com pedaços de biscoito. Tomara que dessa vez venha de brinde a almofada que imita pum, porque a câmera que atira água já peguei duas vezes.