2007-02-26

Clube do G3: um conto inacabado

 
O carismático G3 bege (Gossamer)




O processador PowerPC 750, apelidado pela Apple de G3, foi lançado em 1997, já sob a administração de Steve Jobs. O novo potente chip estreou neste Mac e numa versão desktop com a mesma motherboard. O gabinete torre já fora brevemente introduzido num Mac anterior, e sua maior inovação era o sistema de dobradiças para facilitar o acesso ao interior. O visual era de um caixote sem imaginação, ainda que sutilmente esculpido em superfícies curvas e chanfros, no mesmo estilo do Newton e dos PowerBooks da época. O único detalhe marcante era o misterioso botão verde que abre a porta lateral, reminiscente do eMate e precursor do iMac e do iBook.
A abertura com dobradiça, semelhante à do Power Mac 7600, era feita após deitar o Mac de lado na mesa e arrancar o cabo de força. Não era a solução mais elegante possível, porém já muito melhor que os horrendos 8500 e 9500, que precisavam ser desmontados completamente apenas para se chegar aos slots de memória.

O meu exemplar foi comprado diretamente da Apple, em 1997. Pedi para vir com mais RAM (acho que 192 MB, de um total máximo de 768) e o upgrade total de VRAM (incríveis 6 MB). O HD era um Western Caviar IDE de 6 GB.
Era um orgulho para mim ter saltado, após apenas dois anos, de um doméstico Quadra 605 para o topo de linha da Apple no momento. Usei esse Mac pessoal como máquina de trabalho na editora, como era comum naquele tempo de muito trampo e pouca grana. A capa da Macmania acima foi criada a partir de um CG de Marcos Smirkoff e finalizada no mesmo Mac que é seu assunto.
Assim como o 6500, a máquina me frustrou inicialmente com sérios problemas de instabilidade. Travava muito com a Internet e corrompia o HD tão facilmente que coloquei o Dr. Norton para fazer verificações diárias. Lembro nitidamente de uma noite de fim de semana, trabalhando na editora em companhia do Luciano Ramalho. Não agüentei após mais uma travada e dei um soco no painel frontal, gritando: "é para isso que paguei tão caro?" Em menos de um minuto estava arrependido da atitude. Mas continuei cada vez mais frustrado. Os paus aumentavam em freqüência.
Finalmente descobri que as travadas eram por causa de defeitos físicos no HD, estragado após apenas um ano de uso. Todos os Western Caviar dessa geração que me lembro tiveram o mesmo problema, a ponto de lotarem os sucatões de Santa Ifigênia, por volta de 1999. Mas nunca ouvi falar em recall ou ressarcimento por todos esses drives zoados.
Conformado com a perda de alguns dados sem backup e colocando no lugar do HD original um Quantum de 20 GB, segui adiante. Depois, instalei um queimador de CD, item de luxo na época, e a máquina finalmente ficou confortável.
A coisa mais curiosa que fiz com o G3 naquele tempo foi carregá-lo nos braços em plena rua, a pé, ao longo de um quilômetro, para dar uma palestra sobre quadrinhos e Web no Centro Cultural São Paulo. Corria o ano de 1998. Pluguei o G3 no projetor do auditório e pronto. Não precisei preparar nada antecipadamente; simplesmente abri os arquivos de trabalho e dei as explicações à platéia em tempo real. Ao final da apresentação, formou-se uma roda de gente impressionada fazendo perguntas sobre o computador.

Em 2001 a editora me deu um iMac DV para trabalhar. Levei para casa o G3. Depois de um tempo parado, resolvi instalar nele o Mac OS X 10.1 e implementar um hack para ativar o software escondido no sistema que compartilha a conexão à Internet (hoje bastaria clicar num botão nas preferências do sistema).
Descobri várias coisas chatas. A primeira é que precisaria particionar o HD de forma que tivesse na primeira partição menos de 8 GB, com o sistema instalado obrigatoriamente nessa partição. Fora isso, o chip de vídeo onboard seria inadequado para movies mais recentes e pesados. E em certas versões do OS X, há um bug que faz a tela ficar preta inesperadamente. Mais adiante, trombei no limite superior do software oficialmente suportado: Mac OS X 10.2.8 (Jaguar). As versões seguintes do sistema exigem portas USB onboard.
Com todos os problemas, todavia, a máquina sempre foi usável e obteve incríveis uptimes de 80 a 150 dias entre uma atualização de sistema e a seguinte, sem nunca reiniciar e jamais travando.

Em 2003, a Julia precisava de um computador em sua residência definitiva. Cedi o G3, que já continha os arquivos dela, mais o meu velho monitor Apple Trinitron de 17", comprado em 1995. Mas o monitor, que já estava lastimável, apagou de vez dali a poucos meses. O Mac, naturalmente, ficou encostado. Em janeiro de 2007 levei à casa dela outro monitor, que tinha sido do pai dela. O Mac ligou, mas o mouse USB não se mexeu.
Trouxe o Mac à oficina do Clube do G3 para revisão e restauração.
Desmontei e tirei quantidades enormes de fuligem negra de dentro do gabinete. Montei tudo de volta, copiei os arquivos do HD e o reformatei para receber um sistema zerado e programas atualizados.
Então, os problemas começaram.
Primeiro, o novo sistema não funcionava. Recorri a repetir a instalação de dentro do G3 azul e nada também. Testei o disco num iMac e não rolou. Coloquei de volta no G3; falhou. Repeti a instalação do Mac OS X; fracasso. Finalmente, vi que o HD não montava mais em máquina nenhuma. Morreu completamente.
Daí, o firmware zoou, não aceitando mais nenhum HD, nem IDE nem SCSI. Finalmente, a motherboard no geral parou de dar quaisquer sinais de vida. Creio que a interface PCI da placa USB estava queimada e pode ter iniciado os paus progressivos. O saldo final foi a transformação do G3 numa bela sucata, com o que obviamente não me conformei.
Ironicamente, na oficina já existia um G3 bege da Tuta, grande xodó dela, em estado impecável. Idêntico ao meu, exceto pelos drives e memória e pela ausência da expansão de VRAM. Ficou prometido que essa máquina será dedicada futuramente a fazer a digitalização dos LPs de vinil raros da família.
A Julia acabou ficando com um iMac 266 reformado em lugar do G3. Saí em busca de uma placa nova para ele. Não achei ainda a placa, mas achei um case bem conservado, que arrematei, limpei e preparei com os drives e acessórios para no futuro receber a placa definitiva. Portanto, a história do meu G3 não acaba aqui. Assim como o 6500, ele será remontado com peças de outros Macs. Stay tuned.

2007-02-25

Clube do G3: outra história de sucesso

 
O imortal 6500 (Alchemy)




O 6500 é, dentre todos os membros ilustres do Clube do G3, o que mais vezes mudou, apenas para continuar a mesma coisa de sempre. Reencarnou duas vezes e sofreu mudanças para continuar funcional, mantendo-se fiel ao aspecto original. Depois do G3 azul, é o único Mac do museu que tem uso cotidiano, como jukebox de MP3.

o Power Mac 6500, fabricado em 1997/1998 e retirado de linha pouco antes da entrada do iMac, marcou o fim de uma linhagem de Macs de uso doméstico começada em 1994 no Quadra 630, o último de todos os Quadras, o qual por sua vez era uma evolução dos Macs LC, que existiam desde 1990.
Ao ganhar o chip PowerPC 603, o Quadra virou o Performa da série 6000, que vendeu bem no Brasil entre 1995 e 97. Desse Performa tenho dois exemplares quase idênticos do 6230, a versão desktop, que era uma máquina medíocre até em seu tempo, mas foi o modelo de entrada para o mundo encantado da Apple naqueles tempos de dólar baixo e promoções matadoras na Fenasoft.
A mesma placa-mãe da série 6000 também foi usada na série 5000, uma variação monobloco. Autêntico predecessor do iMac, tinha um gabinete bege, banal e desinspirado. Finalmente surgiram os modelos minitorre 6400 e 6500.
Os três formatos de Macs, apesar do visual muito diferente, têm a mesma motherboard, que fica numa bandeja e pode ser deslizada para fora do gabinete com total facilidade. Qualquer motherboard dessa família serve nos gabinetes de todos os outros modelos, de tal modo que é possível, por exemplo, transformar um tosco 6230 num fulgurante 6500. Foi, aliás, exatamente o que aconteceu com um dos meus 6230. Mas isso deveria ser assunto para outro post...

Além de usarem o chip 603, que poderia ser retroativamente apelidado de "G2", Os Macs das séries 5000 e 6000 foram os primeiros com HD IDE, mantendo a interface SCSI para o drive óptico, o Zip e as conexões externas. Muitos modelos tinham opção de placa para entrada e saída de vídeo, que rigorosamente ninguém que conheço usou para valer.
Um dos modelos tinha uma placa-mãe adicional de PC para rodar Mac OS e Windows sem emulação, mas não era capaz de exibir ambos os sistemas no mesmo monitor simultaneamente. Parecia ser um recurso para tentar desesperadamente segurar o pessoal que estava fugindo em massa do Mac para o PC em 1996. Ademais, lembro que as propagandas da Apple brasileira dessa época apresentavam o processador PowerPC como algo tão bom que "até pode rodar o Windows", aludindo ao software emulador SoftPC - e por tabela implicando que o Mac OS sozinho não era motivo bom o suficiente para alguém querer permanecer no Mac. Era um marketing de tiro no pé, mas a Apple estava de fato desesperada.

O 6500 foi criado durante essa pior época da Apple. Queria sair do lugar-comum estético da CPU caixote, mas ainda não sabia por onde. Os designers pareciam meio perdidos, ensaiando mudanças estéticas no case, mas sem uma direção real. Enquanto o contemporâneo G3 bege tem arestas afiadas combinadas a superfícies convexas para tentar - sem sucesso - perder a monotonia tijoluda de um case torre, o 6500 é completamente arredondado e com pés grandes, lembrando uma geladeira dos anos 50. Simpático, mas um pouco gratuito. Mas o G3 bege tem um toque visionário: a surpreendente maçaneta verde translúcida na porta lateral. É uma ruptura significativa com a caretice do resto do gabinete e prenuncia o visual revolucionário dos iMacs. Já o 6500 fica acanhado em seu ambiente pretendido, a sala de estar da casa.
O gabinete tem altura extra para poder acomodar um subwoofer interno. O som não é extraordinário, requer equalização no iTunes, mas já é muito acima da média das CPUs tipo torre de qualquer marca do seu tempo.
Tecnicamente, o hardware é brilhante. A motherboard removível é impressionantemente pequena e despojada. Não tem vídeo muito veloz, mas é ágil e sem gargalos de desempenho no Mac OS 9, com um processador 603ev de 300 MHz resfriado por um cooler minúsculo. As duas placas PCI são conectadas através de um riser card, inexistente nos outros modelos da família.
Os meus Macs dessa família apresentam uma modificação importante, que é a troca da obsoleta bateria do relógio de 4,5V por um suporte para pilhas alcalinas AA. No 6500 o pacote é afixado ao riser card com zip-ties (abraçadeiras de nylon). O Velcro original não seguraria as pilhas novas, muito pesadas. Os demais modelos de Macs usam a bateria de lítio de 3,6V, fácil de encontrar.
O case tem uma estrutura metálica interna pesada e reforçada, e até os painéis plásticos são grossos, a fim de melhorar a acústica. O HD IDE fica numa posição estranha, deitado de lado por trás do painel frontal. A baia superior acomoda um drive Zip-100 opcional, presente no meu exemplar.
O 6500 é minha máquina definitiva para rodar o Mac OS clássico, mais até que o G3 bege, onde prefiro colocar o Mac OS X. Graças ao som bom, o meu 6500 está com o iTunes (versão para o Mac OS 9) instalado e pode acessar e tocar através da rede as músicas armazenadas no HD do meu G3 de trabalho.

A história do meu 6500 começou com um Performa 6400 (mesmo case, CPU mais antiga, outros programas), que a Macmania adquiriu da Apple no começo de 1997. Foi minha máquina de trabalho e travava muito com o System 7.6. Os paus cessaram completamente ao instalar o Mac OS 8 beta. O hardware não tinha culpa, mas a minha primeira impressão da máquina foi ruim, por conta das falhas do software.
Então, o modem queimou e a máquina ficou encostada.
Em 1997, comprei meu esfuziante G3 bege e tinha esquecido o 6400. Mas a mãe da Julia tinha um 6500/300 com Zip Drive, também encostado, que acabei ganhando e levando para casa em 1999. O case estava muito bom, exceto por uma queimadura de cigarro numa lateral da tampa.
Na mesma época, a editora fez um bota-fora e peguei para mim o 6400 que ninguém queria. Fiz um combinado das melhores peças de cada um e joguei fora o case desmontado e maltratado do 6500, mantendo dele o painel frontal para ter coerência com a motherboard, mais a tampa sem queimadura de cigarro. O Mac sobrevivente ganhou aspecto de novo.
Em 2003, a Comunidade Zen Budista precisou de um Mac para substituir um outro mais velho, e levei o 6500 reformado para lá. Foi usado pela Monja Coen em pessoa durante um ano. Depois ele foi trocado por um PC moderno. Pediram que eu desse um fim no Mac.
O pobre 6500 rejeitado também não tinha lugar na casa da Adri, onde eu passara a morar. Seguiu direto para a Conrad Editora, onde o instalei embaixo da minha mesa. Nos primeiros dois meses, eu não tinha workstation própria e usei o valente para diagramar algumas coisas enquanto não chegava um eMac novo para mim. Para integrar o Mac velho ao mundo atual, tive a paciência de achar e comprar em Santa Ifigênia uma rara placa de rede Asanté Fast 10/100 PCI.
Depois que meu eMac chegou, o 6500 continuou por lá mesmo, com a justificativa (verdadeira) de que era ideal para rodar o Fontographer, programa que dava pau nos eMacs. No CPD da Conrad existia também um 6400, do qual não tive mais notícia após a mudança de editora, mas dele peguei emprestada uma placa de upgrade Sonnet G3. A máquina ficou um foguete, mas depois a placa foi removida e sumiu misteriosamente.
Na mudança para a Futuro, o 6500 seguiu junto com outros objetos sensíveis no Fiat Doblò do Jô Auricchio. Chegando ao novo endereço, ao abrir a porta do carro o Jô viu horrorizado o Mac caindo no chão de quina, de cabeça para baixo. O case ficou deformado e rachado. Eu já tinha tirado o painel da frente para trocar o HD, de modo que a máquina subitamente virou o que tinha toda a cara de uma sucata imprestável. Eu não estava presente na hora do acidente, apenas encontrei o Mac torto e estourado sobre a minha mesa. Nem deu para ficar bravo.
Pois bem: pluguei o Mac, liguei e ele funcionou como se tivesse sido tratado a lustra-móveis durante toda sua vida. Minha admiração multiplicou-se.
O André Jaccon, do CPD da Futuro, tomou conta do 6500 gentilmente após a mudança, a título de experimentar nele o Linux. Bateu a preguiça, nada foi feito. Então, eu o resgatei e trouxe para a oficina do museu do Clube do G3.
Não sabia o que fazer com um Mac feio e destroçado, mas que funcionava perfeitamente. Então, com timing impecável, descobri na casa do Igor Miyamura outro 6500 igual, com o case perfeito e... a motherboard queimada! Nem era do Igor, mas de um amigo dele. Coincidência ou destino? Comprei o case sem vacilar e reconstruí o 6500 novamente. Hoje está tão perfeito como quando era novo.

Update - No final de maio, instalei no 6500 a placa de vídeo que sobrou do 9500 queimado. Com isso, ele passou a aceitar dois monitores. A sensação é incrível. Pena que só tenho para brincar dois monitores muito velhos e que suportam resoluções completamente diferentes um do outro. Mas a sensação do desktop estendido deveria ser experimentada por todo geek pelo menos uma vez.

Upgradeabilidade dos Macs

A restauração de um computador passa por quatro etapas:

1. Reconhecimento - levantar a ficha técnica completa, avaliar o hardware existente e planejar upgrades e trocas de peças;
2. Desmonte e limpeza completos, peça por peça;
3. Remontagem com os upgrades;
4. Faxina no software.

Macs são mais simples de mexer do que PCs, porque o hardware é mais padronizado e os upgrades são limitados. O software é ainda mais fácil: por ter reunido programas desde os tempos da Macmania, já tenho o básico para cada geração de máquinas. No caso de Macs doados com documentos pessoais dos donos ou ex-donos no HD, é trivial transferi-los para outro Mac mais moderno e gravá-los em CD ou DVD, depois de garantir que os documentos sejam abríveis no OS X ou no Windows.

Antes de embarcar numa restauração, é preciso saber o que se pode esperar da máquina. Se ela vai ser somente um enfeite chique para iniciar conversas com as visitas, ou se pode atuar como terminal de Internet ou até como computador de trabalho. Às vezes, a adaptação necessária é pequena. Outras vezes, uma limpeza no gabinete e no software basta para devolver a dignidade à velha máquina.

A utilidade cotidiana de um Mac antigo é vinculada à geração de software mais recente que ele suporta. Qualquer Mac com rede Ethernet serve como máquina de escrever, mas pode ser fútil manter um trambolho velho para essa tarefa em dias de vídeo digital, banda larga, monitores planos e CPUs baratas.
Na minha opinião, máquinas estacionadas no Mac OS clássico já ficaram irremediavelmente para trás, exceto em tarefas muito especializadas (como a da máquina de escrever) que não exijam a última tecnologia do momento.
A maioria dos usuários de computador não-especialistas gasta a maior parte do seu tempo usando a Internet. Por essa perspectiva, o critério de avaliação fundamental para definir a "reciclabilidade" de um computador velho é a capacidade de exibir páginas da Web modernas, ricas em mídias dinâmicas, como YouTube, Apontador e Gmail. Isso depende de browsers modernos, plug-ins em dia e uma agilidade mínima do hardware. No mundo PC, isso seria um Pentium III a partir de 500 MHz, com Windows XP SP2 e uns 512 MB de memória. Em geral, uma máquina de no máximo seis anos de idade.

No Mac OS 9.2.2, o último dos sistemas clássicos, a opção mais moderna de browser gratuito é o iCab, desenvolvido heroicamente por um programador alemão. Consegue abrir páginas modernas com CSS. A velocidade é péssima, mas não é por culpa do browser. A segunda opção de browser clássico é o horrível Netscape 7, que em vez de fazer o trabalho dele, obriga você a criar um login e passa o resto da vida insistindo para você se inscrever nos inúmeros e irrelevantes serviços Netscape. Não é de admirar que a companhia tenha caído no esquecimento. O plug-in Flash disponível para os clássicos já ficou obsoleto e vai abrir algumas coisas sim, outras não.
No Mac OS X 10.2.8 Jaguar, que é o sistema mais recente oficialmente suportado nos iMacs velhos e no G3 bege, vários aplicativos atuais já não podem rodar. Felizmente, o Firefox 2 e o Opera funcionam.
Assim, defini que o Mac mínimo aceitável deve rodar o Jaguar. Mas vai fazê-lo sofrendo, pois o Panther e o Tiger são mais eficientes. Existe um hack sofisticado para instalar sistemas mais recentes, mas no G3 bege você tromba com o chip de vídeo antigo demais, e os iMacs mais velhos (os que não trazem porta FireWire) simplesmente não comportam a RAM necessária.
Existem mais limitações chatas no G3 bege e nessess iMacs antigos. Eles exigem que o sistema operacional esteja contido na primeira partição do HD, que não pode ser maior que 8 GB. Assim, qualquer HD contemporâneo fica rachado em duas partições. Mais: o particionamento deve ser obrigatoriamente feito no OS 9, não no OS X, apesar de este oferecer o recurso. Ademais, o G3 bege não aceita dar partida de um disco IDE configurado como slave.
Quanto aos iMacs, há uma peça "bugada" na parte de alta tensão do monitor - o flyback - que em praticamente todos os exemplares construídos até 2000 acaba queimando em algum momento. Há oficinas com know-how específico para consertar esse problema, mas o custo pode não compensar. Especialmente quando se acrescenta o preço de um upgrade na memória SO-DIMM e no HD - tudo isso para rodar uma versão completamente ultrapassada do Mac OS X.
Já o G3 azul roda o OS X 10.4 Tiger sem engasgos nem bugs. Curiosamente, o Photoshop CS2 nunca dá no G3 o famoso problema dos G4, onde o programa ocasionalmente fecha na sua cara quando você abre as caixas de Levels e Curves. Por outro lado, com qualquer G3 você pode esquecer de USB 2, Bluetooth integrado, SATA, Wi-Fi, iSight, telefonia via IP, Front Row e playback de vídeo HD. Esses recursos só surgem a partir do G4 com vídeo AGP.

Para ser algo mais do que uma curiosidade histórica que roda o Tetris original (ou Marathon...) mas não presta para o dia-a-dia, o seu Mac precisa ter no mínimo rede Ethernet. Automaticamente fica de fora por esse critério a maioria das máquinas fabricadas antes de 1994, mas essas têm opção de adicionar a placa - desde que exista uma disponível, já que estamos falando de interfaces proprietárias obscuras, como NuBus e PDS, não o familiar PCI. Sem falar naquele velhusco conector de rede que exige adaptador. Os Macs construídos a partir de 1996 em geral já trazem a rede onboard.
Modelos anteriores a 1993 não têm drive óptico interno e só aceitam um drive externo via SCSI - ou seja, uma mosca branca com um olho azul e outro verde. Sem rede e sem CD-ROM, convenhamos, não dá. Transportar arquivos em disquetes... tá brincando? Até tenho drives e cartuchos Zip, mas estritamente para usar na manutenção. Zip foi uma boa idéia que veio tarde demais. Gravadores de CD e DVD só existem em máquinas modernas.
É imbatível a conveniência de dispor de uma rede que dê acesso a uma máquina moderna contendo queimador de disco e HD espaçoso. Guardo todos os softwares que quiser nesse disco, sirvo através da rede e pronto.

Resumindo, ao reformar uma máquina para uso cotidiano por uma pessoa não-especialista, meu critério de corte é a capacidade de rodar o Mac OS X 10.2 (Jaguar) com o Firefox 2.0 e acessar o YouTube com os vídeos pulando. Por esse critério passam todos os iMacs e as máquinas de mesa a partir do G3 bege. Mas sempre exigindo upgrade na memória e no HD. O G3 e sucessores usam memórias comuns e baratas, pois são as mesmas dos PCs. Já os iMacs sem FireWire pisam na bola ao exigirem a memória de laptop SO-DIMM, que é quatro vezes mais cara. Felizmente, HDs IDE comuns servem em Macs.

Apesar das encheções todas, lembre que são equipamentos fabricados há 8 ou 9 anos. Pense no pouco que você faria com um PC da mesma idade.

2007-02-24

Apresentando o Clube do G3

Este texto é o começo de uma nova série com assuntos geeks. Oh, não. Mas é por isso que a Internet tem muitos outros sites. Para ninguém morrer de tédio lendo mais textos sobre assuntos geeks. Quem quiser (ou já se entediou irremediavelmente) e se interessa por restauração de Macs antigos, continue lendo. Bem-vindo ao museu da oficina do Clube do G3.

O valente G3 azul (Yosemite)




O computador que eu usava nos frilas entre 2003 e 2006 era o iMac G4 ("abajur") da Adri. Quando saí de lá, para não ficar sem nada, a fada-madrinha Tuta me passou o ilustre G3 azul que pertencera ao pai da Julia e estava encostado depois de uma tentativa frustrada de upgrade de HD. Junto com ele passei a tomar conta de outros Macs velhos, meus e de alguns amigos, formando uma espécie de museu que será uma atração no meu futuro estúdio. O acervo inclui também: G3 bege, 6500, 6230, Classic II, 7600, 9500 e iMac Bondi Blue. Alguns funcionam, outros não. Se você tiver um Mac velho encostado, entre em contato para ver se me interessa adquirir e adicionar à coleção. Além da Tuta, já contribuíram a Adri, Alexandre Villares e Marcelus G. Zalotti.

Como o G3 azul ainda é atraente para usar no trabalho, vou fazer uma descrição que possa ser útil aos interessados em brincar com um desses. Há vários à venda na Zahdy, oficina de computadores na Rua Vitória.
O G3 azul era topo de linha em 1998. Com CPU de 350 MHz, a Apple afirmava que ele chegava ao dobro da velocidade dos PCs da época. O fato de continuar usável no dia-a-dia após nove anos de evolução do software é seu atestado de competência. Muito à frente de seu tempo no hardware, foi o primeiro Mac com FireWire e USB onboard e o primeiro no formato torre sem drive de disquete. Tem o visual colorido no mesmo estilo do primeiro iMac, com painéis translúcidos por toda parte, alças para carregar e um logo lateral bombástico.
O software do nosso dia-a-dia aumentou muito em tamanho e complexidade desde 1998. O G3 azul vinha originalmente com 64 MB de RAM e 6 GB de HD, mais um leitor de CD básico e um drive Zip-100 opcional. Após a ida às compras em Santa Ifigênia, o meu exemplar ficou com 1 GB de RAM (R$ 75 cada placa de 256 MB PC-133), 240 GB de disco (três Seagate Barracuda de 80 GB, R$ 150 cada) e um gravador DVD-Multi (R$ 120).
(Dica: por algum problema de driver, o gravador mais recente da LG não consegue gravar nada no Mac OS X 10.4; o modelo da Samsung, sim.)
Com a capacidade máxima de RAM de 1 GB, o meu software atual (Mac OS X 10.4 Tiger, Adobe Creative Suite 2, Google Earth etc.) roda confortavelmente. Já os HDs de 7200 rpm não são aproveitados ao máximo por causa da controladora IDE-66 que, além de lenta, só aceita volumes de até 128 GB. Meu Seagate de 300 GB teve de ficar plugado em outro Mac mais moderno para ser acessado via rede, a uma velocidade bastante aceitável, próxima à da leitura do DVD-R.
Os principais pontos fracos são a ausência do USB 2 (inexiste placa de upgrade compatível) e o obsoleto vídeo ATI Rage 128 PCI, obrigando a CPU a fazer muito trabalho que nas máquinas atuais seria desviado para a placa de vídeo. O gargalo nos gráficos seria resolvido se a máquina tivesse AGP, como a segunda geração do G4. O firmware de uma placa de vídeo comum para PC não é compatível.
Outros defeitos... Traz uma controladora SCSI PCI, mas não tenho nada para plugar nela além de um scanner antigo; discos SCSI são muito rápidos, mas caríssimos. O G3 não suporta a câmera iSight, o áudio do Skype roda com enorme dificuldade e a fonte de alimentação customizada tem uma ventoinha relativamente barulhenta.
Aprendi a desmontar a máquina completamente (basta uma chave Phillips e uma Allen de 3mm). Lavei todos os painéis plásticos. Ficou idêntico às fotos acima, feitas pela Apple na época do lançamento.
Apesar do visual brega, a engenharia do hardware é brilhante. Um salto enorme em relação a todos os computadores Apple anteriores. Também é ridiculamente superior ao contemporâneo iMac - um pesadelo mecânico cheio de gambiarras estúpidas, que já tive a tarefa de desmontar muitas vezes. Com o G3 azul, porém, a Apple deu uma lição de design interno e aproveitou as melhores idéias até o atual Mac Pro. Para começar, sobra espaço interno; há baias para acomodar mais quatro HDs (RAID SCSI, sonho de consumo...). É possível abrir a porta lateral com dobradiça e admirar o G3 por dentro... em pleno funcionamento! A motherboard fica presa à porta e deixa todo o interior acessível. Colocar e tirar peças é incomparavelmente fácil. O processador esquenta pouco e traz apenas um dissipador de calor passivo, sendo o papel do cooler feito pela ventoinha da fonte.
O custo/benefício do G3 azul é excelente, pois é o modelo mais antigo que roda o Mac OS X 10.4 Tiger, com muito mais agilidade que um iMac G3. Tenho, porém, fortes suspeitas de que o 10.5 Leopard, previsto para sair em março, não irá rodar em processadores G3, o que encurta sua perspectiva de vida útil. O G4 com o mesmo tipo de gabinete passaria então a ser a próxima máquina desejável mais barata.
Quanto a aplicativos, fora as limitações apontadas, ele se garante com os programas Adobe. Acabei de terminar um retoque numa imagem de 600 MB para a Tupigrafia. Basta socar memória e disco que ele vai longe.

Update - Ontem (22 de maio), a memória do G3 foi ampliada para o máximo de 1 GB. Enquanto isso, estudo a possibilidade de pegar um G4 AGP de segunda mão e transferir os componentes do G3 para ele - maneira simples de dar um upgrade na máquina sem gastar muito.

2007-02-03

O velho truque novamente

Rainer pediu para eu fazer a simulação abaixo como um presente para a mãe dele.
Na minha opinião, ele está perdendo uma ótima chance de tirar a barba e o bigode e parecer 15 anos mais jovem. Mas a família ainda prefere com bigode.

Quem é quem?















Pedaços de uma seqüência especialmente perturbadora de "A Scanner Darkly", que chega aqui com o título previsivelmente genérico de "O Homem Duplo". Segundo filme de Richard Linklater que usa rotoscopia digital para converter fotogramas em animação. Ignore os críticos malas. NENHUM filme baseado nos livros de Philip K. Dick jamais chegou a ser fiel à história. Provavelmente isso nunca acontecerá. E sabe de uma coisa? Não faz mal.