O carismático G3 bege (Gossamer)

O processador PowerPC 750, apelidado pela Apple de G3, foi lançado em 1997, já sob a administração de Steve Jobs. O novo potente chip estreou neste Mac e numa versão desktop com a mesma motherboard. O gabinete torre já fora brevemente introduzido num Mac anterior, e sua maior inovação era o sistema de dobradiças para facilitar o acesso ao interior. O visual era de um caixote sem imaginação, ainda que sutilmente esculpido em superfícies curvas e chanfros, no mesmo estilo do Newton e dos PowerBooks da época. O único detalhe marcante era o misterioso botão verde que abre a porta lateral, reminiscente do eMate e precursor do iMac e do iBook.
A abertura com dobradiça, semelhante à do Power Mac 7600, era feita após deitar o Mac de lado na mesa e arrancar o cabo de força. Não era a solução mais elegante possível, porém já muito melhor que os horrendos 8500 e 9500, que precisavam ser desmontados completamente apenas para se chegar aos slots de memória.
O meu exemplar foi comprado diretamente da Apple, em 1997. Pedi para vir com mais RAM (acho que 192 MB, de um total máximo de 768) e o upgrade total de VRAM (incríveis 6 MB). O HD era um Western Caviar IDE de 6 GB.
Era um orgulho para mim ter saltado, após apenas dois anos, de um doméstico Quadra 605 para o topo de linha da Apple no momento. Usei esse Mac pessoal como máquina de trabalho na editora, como era comum naquele tempo de muito trampo e pouca grana. A capa da Macmania acima foi criada a partir de um CG de Marcos Smirkoff e finalizada no mesmo Mac que é seu assunto.
Assim como o 6500, a máquina me frustrou inicialmente com sérios problemas de instabilidade. Travava muito com a Internet e corrompia o HD tão facilmente que coloquei o Dr. Norton para fazer verificações diárias. Lembro nitidamente de uma noite de fim de semana, trabalhando na editora em companhia do Luciano Ramalho. Não agüentei após mais uma travada e dei um soco no painel frontal, gritando: "é para isso que paguei tão caro?" Em menos de um minuto estava arrependido da atitude. Mas continuei cada vez mais frustrado. Os paus aumentavam em freqüência.
Finalmente descobri que as travadas eram por causa de defeitos físicos no HD, estragado após apenas um ano de uso. Todos os Western Caviar dessa geração que me lembro tiveram o mesmo problema, a ponto de lotarem os sucatões de Santa Ifigênia, por volta de 1999. Mas nunca ouvi falar em recall ou ressarcimento por todos esses drives zoados.
Conformado com a perda de alguns dados sem backup e colocando no lugar do HD original um Quantum de 20 GB, segui adiante. Depois, instalei um queimador de CD, item de luxo na época, e a máquina finalmente ficou confortável.
A coisa mais curiosa que fiz com o G3 naquele tempo foi carregá-lo nos braços em plena rua, a pé, ao longo de um quilômetro, para dar uma palestra sobre quadrinhos e Web no Centro Cultural São Paulo. Corria o ano de 1998. Pluguei o G3 no projetor do auditório e pronto. Não precisei preparar nada antecipadamente; simplesmente abri os arquivos de trabalho e dei as explicações à platéia em tempo real. Ao final da apresentação, formou-se uma roda de gente impressionada fazendo perguntas sobre o computador.
Em 2001 a editora me deu um iMac DV para trabalhar. Levei para casa o G3. Depois de um tempo parado, resolvi instalar nele o Mac OS X 10.1 e implementar um hack para ativar o software escondido no sistema que compartilha a conexão à Internet (hoje bastaria clicar num botão nas preferências do sistema).
Descobri várias coisas chatas. A primeira é que precisaria particionar o HD de forma que tivesse na primeira partição menos de 8 GB, com o sistema instalado obrigatoriamente nessa partição. Fora isso, o chip de vídeo onboard seria inadequado para movies mais recentes e pesados. E em certas versões do OS X, há um bug que faz a tela ficar preta inesperadamente. Mais adiante, trombei no limite superior do software oficialmente suportado: Mac OS X 10.2.8 (Jaguar). As versões seguintes do sistema exigem portas USB onboard.
Com todos os problemas, todavia, a máquina sempre foi usável e obteve incríveis uptimes de 80 a 150 dias entre uma atualização de sistema e a seguinte, sem nunca reiniciar e jamais travando.
Em 2003, a Julia precisava de um computador em sua residência definitiva. Cedi o G3, que já continha os arquivos dela, mais o meu velho monitor Apple Trinitron de 17", comprado em 1995. Mas o monitor, que já estava lastimável, apagou de vez dali a poucos meses. O Mac, naturalmente, ficou encostado. Em janeiro de 2007 levei à casa dela outro monitor, que tinha sido do pai dela. O Mac ligou, mas o mouse USB não se mexeu.
Trouxe o Mac à oficina do Clube do G3 para revisão e restauração.
Desmontei e tirei quantidades enormes de fuligem negra de dentro do gabinete. Montei tudo de volta, copiei os arquivos do HD e o reformatei para receber um sistema zerado e programas atualizados.
Então, os problemas começaram.
Primeiro, o novo sistema não funcionava. Recorri a repetir a instalação de dentro do G3 azul e nada também. Testei o disco num iMac e não rolou. Coloquei de volta no G3; falhou. Repeti a instalação do Mac OS X; fracasso. Finalmente, vi que o HD não montava mais em máquina nenhuma. Morreu completamente.
Daí, o firmware zoou, não aceitando mais nenhum HD, nem IDE nem SCSI. Finalmente, a motherboard no geral parou de dar quaisquer sinais de vida. Creio que a interface PCI da placa USB estava queimada e pode ter iniciado os paus progressivos. O saldo final foi a transformação do G3 numa bela sucata, com o que obviamente não me conformei.
Ironicamente, na oficina já existia um G3 bege da Tuta, grande xodó dela, em estado impecável. Idêntico ao meu, exceto pelos drives e memória e pela ausência da expansão de VRAM. Ficou prometido que essa máquina será dedicada futuramente a fazer a digitalização dos LPs de vinil raros da família.
A Julia acabou ficando com um iMac 266 reformado em lugar do G3. Saí em busca de uma placa nova para ele. Não achei ainda a placa, mas achei um case bem conservado, que arrematei, limpei e preparei com os drives e acessórios para no futuro receber a placa definitiva. Portanto, a história do meu G3 não acaba aqui. Assim como o 6500, ele será remontado com peças de outros Macs. Stay tuned.















