2007-10-29

Traduzir envolve pensar

No embalo de uma campanha de curso de inglês que sacaneia as traduções chutadas, eis alguns exemplos reais da quixotesca missão de tentar corrigir o que já ficou tão corriqueiro que parece não ter mais solução.

Escolha sua linguagem
Está errado, porque "linguagem" não é tradução de "language". "Idioma" ou "língua", sim. Palavras de idiomas diferentes que têm a mesma raiz, parecem ser a mesma coisa, mas cujo significado diverge a ponto de não serem intercambiáveis, são conhecidas como "false friends". Em português: "falsos cognatos". Meu exemplo favorito é "Gift". Em inglês, é presente; em alemão, veneno.
A tragédia é que a frase acima aparece em cada vez mais websites e softwares. Pode ter vindo para ficar.

Amplitude modulada (AM) e Frequência modulada (FM)
Essas são antigas. O truque aqui é que a tradução mantém a sequência original das letras nas siglas. Não é um erro. Porém, se esses sistemas de rádio fossem invenção mais recente, os nomes usados no nosso jargão seriam mais ao pé da letra: "modulação de amplitude" e "modulação de frequência". Isso porque a tendência atual no Brasil é mexer cada vez menos nas palavras estrangeiras. Por exemplo, durante os primeiros 15 anos desde a descoberta do DNA, era mais comum ver escrito ADN, que é a versão em português. Depois, a sigla virou para a forma original.

Suas alterações foram salvas com sucesso
Nunca as vi serem salvas sem sucesso. E você? Ou foram salvas ou não foram salvas. Nada mais claro. O original "successfully" é uma redundância, um floreio, que dispensa tradução.

Nossa proeza tecnológica
Foi a inspiração deste post. Essa frase apareceu na revista Exame de outubro. O texto fala da Sony querendo recuperar a dianteira no mercado de TVs. O texto original, evidentemente, continha "...our technological prowess". Só que "prowess" denota habilidade, não conquista, que é o significado de "proeza".

Já deu para ver que este assunto poderia render um blog sozinho. Quando eu tinha 10 ou 11 anos, ganhei do meu pai um livro que explicava mais de mil falsos cognatos comuns em inglês. Pegadinhas como "actual", "fabric", "agenda", "compromise", "college", "lecture", "particular", "prejudice", "attend". Na mão de um bom redator com senso de humor, elas podem ser terríveis.

4 comentários:

  1. Interessante..
    Você tem o nome desse livro?!

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  2. 'dáme tu saco, bo'

    'tengo ganas de pegarte'

    'tirá essa foto en la basura, y sacá otra'

    em espanhol também são muitos muitos, o que leva nossas Xuxas e Luxemburgos a vexames memoráveis;
    talvez pela proximidade das línguas, o pior fica mais visível, e dá-lhe portunhol.

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  3. Não tenho o nome do livro, faz muito tempo que perdi. Era algo com "Inglês: mil erros que você deve evitar".

    Se buscar por "falsos cognatos" e "false friends" no Google, vêm algumas páginas informativas.

    Quanto ao espanhol, teve aquela entrevista do Collor na TV argentina, na qual ele soltou um "duela a quien duela". Está perfeitamente certo, mas soou esquisito até pros meus ouvidos geneticamente ibéricos.

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  4. hahaha.. obrigado pelo comentário, ela é minha namorada, deixou um sentido dúbio né? mas com certeza amo muito mais a ela do que o meu trabalho. obrigado pelo imediatismo!
    abraço!

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