2007-09-22

Arial Não - Parte 4

A fonte regular da família Arial é a segunda mais usada na comunicação informal de massa - cartazes e avisos de parede, faixas de rua. A principal fonte usada é a Black. A razão disso parece ser uma percepção generalizada de que a Black é mais efetiva para chamar a atenção e preencher o espaço da página.

Assim, comecei a mexer na Arial a partir do peso Black. A fonte regular é mais fácil de editar, por exigir decisões mais simples a respeito da localização precisa dos chanfros nas hastes das letras.



O espécime acima ilustra os princípios gerais empregados na Arial Corrected. O primeiro princípio é a mudança geral nos chanfros nas hastes. Os chanfros da Arial são inclinados em diversos ângulos, buscando imitar os de tipos muito mais antigos que a Helvetica, como Akzidenz Grotesk e Franklin Gothic. Como Arial é originalmente um plágio de Helvetica, os chanfros inclinados servem para distinguir entre ambas. Normalmente passam despercebidos por leigos, mas estão lá para dar personalidade ao tipo.

Porém, Arial foi desenvolvida originalmente para funcionar em impressoras laser de 300dpi em corpos pequenos. Para compensar as condições desfavoráveis de impressão, ela ganhou chanfros muito inclinados, bem como compensações ópticas exageradas, que são bem visíveis nos cotovelos dos caracteres A M N R V W X Y e na parte oblíqua do numeral 1. A presença desses excessos é agravada na prática porque o uso leigo atual de Arial envolve, na imensa maioria dos casos, alguma deformação: as letras são violentamente esticadas e comprimidas, tendo como único critério o volume ocupado no layout pela linha de texto.

Então, uma versão revisada da Arial poderia abolir completamente os chanfros e ir um pouco além eliminando todas as compensações ópticas, que perdem sua função original e ainda ganham uma aparência horrível quando a letra é ampliada eletronicamente.

No caractere a baixo, o chanfro horizontal é alinhado aproximadamente com a porção média do original inclinado. Isso não vale como regra para toda a fonte, pois há letras como C e S, onde a proporção manda que o chanfro fique numa localização diferente, acima ou abaixo da original.

Uma compensação óptica exagerada no a baixo é a curva na base da haste vertical. Na fonte Corrected Black ela foi geometricamente simplificada. Estudo a possibilidade de eliminá-la completamente no peso regular (como é na Franklin Gothic).
A volta superior do olho também foi redesenhada. Na fonte original, ela não se une à haste vertical numa curva graciosa, como em Helvetica, nem em ângulo reto como em Univers. Fica num meio-termo indeciso, vago, parecendo torta nos corpos maiores. A solução que incorpora o mínimo possível de alteração é fazer a volta terminar em reta inclinada, como na Akzidenz Grotesk.

Abaixo, temos capturas da janela de métrica do Fontographer, mostrando o que acontece na fonte quando essas mudanças são aplicadas de maneira global. O r baixo foi completamente redesenhado, ficando com menor extensão para corrigir a tendência original de trombar na letra à sua direita. O t baixo passou a ter o chanfro vertical e ligeiramente rebaixado como em Helvetica.




Nas caixas altas, a mudança mais visível é o R reequilibrado com a perna reta, no estilo da Franklin Gothic. A perna original tem vários problemas: exagero na compensação óptica na junção com a volta superior; começa em curva e vira reta, com aspecto rústico demais em corpos grandes; é esteticamente incoerente com o restante da fonte; o ângulo da inclinação é exagerado; tende a grudar no A à sua direita. A perna reta resolve todas essas questões. A proporção resultante sugere a possibilidade de colocá-la um pouco mais para dentro do caractere.




Fora isso, o rabo em curva do Q foi substituído por outro similar ao da Helvetica. O K original é outro caractere com compensação óptica exagerada (junção das diagonais muito distante da haste vertical). O G original tem um problema de proporção na curva inferior e no posicionamento do gancho interno.

2 comentários:

Marcio Gazetta disse...

Parabens pela iniciativa. Não sei se eu blog tem sistema de trackback, mas citei vc la no gazetteando http://www.gazetta.com.br/blog/acompanhe-o-nascimento-de-uma-fonte/

Mario disse...

Estou no Technorati. Valeu o link e o post! Quanto mais gente entrar no debate, melhor.
E tem razão, esqueci de dizer que Arial virou fonte curinga na propaganda também.

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