2007-07-22

Não adianta, ainda adoro aviões



Diante de tanta tristeza, ódio e negatividade no país, e ao sentir que esse clima ruim estava me contagiando também, resolvi que é preciso começar a fazer algo original: olhar o lado brilhante.

Começo por essa foto feliz, que fiz em 20 de novembro de 1995 com minha velha Sony Cyber-Shot T7, a apenas 150 metros do local que todo mundo tem visto pela TV.

Lembro de ter parado com a bike no ponto exato do alinhamento com o eixo da pista de pouso, na estreita calçada que ali é separada do asfalto por uma sarjeta cheia de caquinhos de vidro e guard-rails amassados, pois naquele local a avenida faz uma curva brusca, onde os carros passam rápido demais quando não há congestionamento.

A tarde estava perfeita, o céu bonito, e os aviões passavam tão depressa por sobre minha cabeça que era difícil acertar um enquadramento com minha câmera compacta. Eu fixava a exposição, punha a máquina em modo burst, e quando o avião passava, virava a cabeça acompanhando o movimento e disparando sem parar. Depois de algumas tentativas frustradas com o enquadramento fechado, abri o zoom e terminei com a foto acima.

Minhas memórias com aviões só são felizes. Aviões são belos.

Nada como a sensação impressionante do poder da aceleração da aeronave ao decolar. Aquela sensação estranha no estômago quando o avião muda de elevação. O céu escuro da alta altitude visto através de uma janela meio embaçada, os ouvidos amortecidos. Nada como ver a segunda metade de um filme sem som e com legendas em holandês e, de alguma forma, conseguir entender a história. Nada como um pôr do sol espetacular visto de cima das nuvens. Nada como as luzes noturnas da cidade de Salvador, Bahia, passando exatamente por baixo de você. Ou as misteriosas formações geológicas em Minas Gerais que não dá para reconhecer no Google Maps. A sensação inédita de ver as primeiras casas de madeira suíças cobertas de neve, acompanhadas de árvores desfolhadas num mar branco. A costa rochosa e recortada onde a Galícia se encontra com Portugal. Ou o contorno fantástico da ponte aérea ao sul do Pão de Açúcar ao retornar do Rio. Pequeninos carros em estradas refletindo o brilho intenso do sol por um instante breve. A cor turva e arroxeada do ar de São Paulo numa tarde poluída de setembro.

Não gosto de dormir em avião; gosto de ficar atento e observar cada pedaço da paisagem que se esvai rapidamente, no ritmo certo para ser apreciada sem enjoar. Gosto de tentar identificar as cidades e rios de memória e ver na tela de informações que nossa altitude é a mesma do pico do Everest.

Gostei de ter sido improvisado em um assento da tripulação num 747 absolutamente lotado e ter ganho um cobertorzinho, refeições de primeira classe e brindes da companhia como compensação pelo desconforto. E na verdade não havia desconforto, porque naquela modesta tábua de sentar era possível ficar espichado, enquanto as pessoas nas poltronas não tinham paz para dormir, a ponto de algumas preferirem se jogar no chão ao redor.

Gosto do aroma do combustível e do silvo das turbinas, da tripulação elegante e culta, e gosto do jornal estrangeiro que alguém deixou no suporte atrás da poltrona para eu ler de graça.

Vivi durante 20 anos em Guarulhos, exatamente embaixo da rota principal dos aviões. Vi da porta da rua aviões que não existem mais, como o 727 e o DC-10. Vi do quintal de casa o Concorde barulhento que trouxe François Miterrand e o Air Force One com Ronald Reagan a bordo.

Nas últimas semanas, passando de ônibus e de bike pela avenida ao largo de Congonhas, vi repetidamente o avião do presidente Lula estacionado num canto do aeroporto que é o mesmo lugar por onde escapou o Airbus que explodiu.

4 comentários:

  1. Rafael Lima23/7/07 22:41

    Um presente:
    http://blog.transporteativo.org.br/

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  2. Fernando Monteiro25/7/07 00:38

    fala Mario,

    as aeronanes 727 e DC-10 ainda estão em atividade pela variglog, e que aliás como diz um cmte amigo de infância, são belas "jatonaves"!

    []s

    http://www.variglog.com/portugues/perfil/aeronaves.asp

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  3. Oh sim, fui impreciso, devia ter dito que eles não fazem mais transporte regular de passageiros em Guarulhos. Depois conserto o texto. Valeu.

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  4. Cada vez gosto mais do teu blog. Apesar de só ter viajado de avião uma vez, há mais de 10 anos atrás, compartilhamos o mesmo pensamento. E a foto que colocates virou meu papel de parede. A sensação de liberdade que ela me proporcionou foi extrema!

    Abraços,
    Lucas Timm.

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