2007-07-11

Clube do G3: o pai do iMac

No post anterior sobre o iMac, fiz dois comentários: que o design curvilíneo e colorido rompia com o conformismo da indústria em enfiar todo tubo de imagem CRT numa caixa retangular bege; e que a tecnologia "revolucionária" do iMac já existia antes, apenas não tinha ganhado uma embalagem visualmente sedutora. Este texto sobre o antecessor do iMac prossegue nesses temas.

Eis "o iMac antes do iMac" - o computador monobloco que a Apple produzia antes de reinventar tudo do zero:



Esse design integrado "tudo-em um" foi usado sem modificações numa larga variedade de modelos lançados entre 1995 e 97: 5200, 5215, 5400 5500 e outros que formam a "série 5000". Foi o primeiro monobloco da Apple com processador PowerPC.

O exemplar incorporado ao museu foi gentilmente cedido pelo Junior Sacco, da Conrad. O primeiro dono foi o Ale Monti.

Eu o levei para casa na mão, de ônibus. (Sim, todos os seus 21 quilos.) O modelo exato é um Performa 5215CD, e foi fabricado em outubro de 1995. Muito provavelmente, é um dos Macs vendidos na Fenasoft de 1996 por um preço em torno de R$ 1700 (em torno de 3 mil em dinheiro atual). O stand da Macmania na feira pegou emprestados quatro deles para deixar os visitantes jogando Marathon em rede. O Mac do Junior veio em perfeito estado e roda o mais recente sistema suportado, Mac OS 9.1, num HD ATA de 1 giga. A memória está no máximo: 64 MB. Falta um cartão de rede Ethernet no slot PDS, mas posso pegar um de uma outra motherboard.

A (feia) denominação "Performa" se refere ao pacote (bundle) dos Macs destinados ao uso doméstico com uma coleção de softwares. O computador vinha com uma carteira cheia de CD-ROMs de títulos educacionais, jogos e aplicativos. A Web ainda estava na infância; downloads de programas por ela, nem em sonho. No máximo, o que rolava era puxar um shareware de um BBS via modem, com alguma paciência e sofrimento. O próprio CD-ROM como meio de distribuição de software ainda estava apenas despertando.

O gabinete repete os conceitos de hardware do Color Classic e da série 500. A motherboard é removível pela traseira, encaixada numa gaveta deslizante, e pode ser intercambiada entre os vários modelos das séries 5000 e 6000. Outra idéia aproveitada dos Macs antecessores é o microfone integrado ao topo da moldura do monitor, também presente no iMac. Atualmente, no mesmo lugar vai uma webcam embutida. O painel frontal embaixo da tela é muito parecido com o da série 6000, criando uma identidade entre os dois modelos.


O último Mac fraquinho?

O 5215CD tem um processador 603 trabalhando a 75 MHz, com desempenho equivalente ao do mais antigo Power Mac (6100 de 66 MHz), o que é mais ou menos comparável ao Pentium de 100 MHz.

Existem sérios gargalos de desempenho, relacionados com a velocidade e largura do barramento, e isso distingue negativamente todos os Macs das séries 5000 e 6000 - exceto o 5500 e o 6500, cuja placa-mãe traz uma arquitetura mais moderna. Não é preciso fuçar em números para sentir algo esquisito no 5215CD original: até mesmo o redesenho da tela parece lento para quem vinha de um Quadra. É um Mac que demora meio minuto para abrir o Word 98. Você fica se perguntando o que há de errado.

Além da performance medíocre, alguns detalhes técnicos indicam que é uma máquina de "baixo custo" (ao menos para o fabricante, já que no varejo ele custava em torno de US$ 2 mil nos EUA). O monitor (fabricado em OEM pela LG, como o do iMac) é um tipo básico, sem camada anti-reflexo e resolução máxima de 832x624. Assim como os demais Macs da época, ele pode se desligar via software, mas ainda existe um interruptor de força atrás, como nos Macs LC, e o modo de espera (sleep) não existe. O vídeo exibe somente 256 cores, e o áudio é de 16 bits para CDs de música, mas de 8 bits para os sons do sistema.

Ao trocar a placa original pela de um 6500 de 225 MHz que eu tenho à disposição, o computador mudou completamente de personalidade. Todas as limitações desapareceram: o som passou a ser full 16 bits, o vídeo pulou para milhões de cores, a opção de sleep ficou disponível e a velocidade geral melhorou de forma dramática, mais ainda em se tratando de placas com apenas dois anos de diferença de idade. A única diferença para um 5500 real é que o vídeo não passa de 832 x 624, quando no 5500 pode ser 1024 x 768 como no iMac.

O artigo na Wikipedia observa que os Macs das sérias 5000 e 6000 são geralmente os mais fracos já fabricados pela Apple. O que não os impediu de serem muito populares, inclusive no Brasil, onde atenderam à demanda de usuários profissionais que não queriam (ou não podiam) pagar o alto preço das workstations e se seguraram extraindo o que podiam de máquinas limitadas. (Com o Mac mini custando um quinto do preço do Mac Pro topo de linha, essa tendência permanece firme até hoje.)

Entre um modelo e outro, chegou a existir um G3 "tudo-em-um" com um gabinete intermediário entre o estilo de rigidez geométrica da série 5000 e as curvas e texturas do iMac. Por mais interessante que fosse, porém, ele era destinado somente ao mercado educacional e provavelmente nunca chegou um exemplar dele ao Brasil. (Se souber de um, me avise hoje mesmo...)

É sempre bom notar que, tirando o processador e conectores diferentes, o iMac era uma máquina razoavelmente similar ao 5500. Mas capturou a simpatia do público como se fosse um invento completamente novo e revolucionário. A novidade visual (aliada ao marketing) foi a maior causa dessa mudança de visibilidade. Para muita gente no Brasil, não existia Apple antes do iMac. Outros poderiam dizer cinicamente que não existia Apple no Brasil antes do iPod. E eu, mais cinicamente ainda, diria que parece não continuar existindo, ao levar em conta que o principal ponto de venda do iPod são os boxes dos chineses do Stand Center. Mas isso já é tema para outro artigo...


Comparando Performa e iMac

Pela primeira vez na vida, tive a oportunidade de colocar um Mac da série 5000 e um iMac lado a lado e comparar as idéias de design.

O 5000 é elegante, mas não tem um pingo de arrojo. Ainda hoje, mais de uma década depois, parece atraente e contemporâneo. Mas ao ser comparado com o iMac, perde a graça. Ele usa a linguagem visual Espresso, criada no começo dos anos 90 pela Apple e depois assimilada pela indústria de PC. Mas a estilização é contida, neutra, discreta, até tímida.

É um caixote quadradão com uma base de ângulo e rotação ajustável, como um monitor CRT comum. O painel frontal, que incorpora alto-falantes nos cantos, destaca-se da tela como se fosse um acréscimo final. Dessa forma, o 5000 é um computador inteiro disfarçado de monitor. Essa diretriz de design é a mesma que foi adotada no iMac e vale até o dia de hoje.

Enquanto o iMac reduz o seu volume aparente fazendo as laterais convergirem em curva para a traseira, o 5000 tem uma grossa moldura na frente e um corpo estreito, de laterais paralelas. Embora seja mais volumoso, mais alto e mais pesado (21 kg!) que o iMac, a superfície da tela é um pouco menor.

Visto de frente, as linhas de contorno dão a ilusão de serem retas, mas não são. Assim como outros Macs da mesma geração, ele é inteiramente modelado com superfícies convexas, o que lhe dá um aspecto "almofadado". Devido à dificuldade de projeto e execução industrial, esse uso de curvas era um diferencial de design da Apple nos anos 90. Hoje em dia pode parecer bobagem, mas faça uma comparação do Performa com o popular Compaq Presario monobloco, seu principal concorrente.

Ao mexer num aparelho desta idade, é preciso ter cuidado excepcional com as partes plásticas, pois elas ficam quebradiças. As abas de encaixe que retêm no lugar o painel frontal e a gaveta do HD na traseira quebram muito facilmente. Esse problema ocorre na maioria dos gabinetes de Macs beges desse período. Ponto negativo para o design industrial da Apple.

Uma das últimas versões da série 5000 tinha um charmoso gabinete na cor preta, que só foi vendido fora dos EUA; infelizmente, nunca chegou ao Brasil.

5 comentários:

  1. Aulas de história by Mario, excelente como sempre :)
    Tenho viajado muito pelo interior, e sobre a popularidade do Performa veja esse exemplar que encontrei em uma loja de ferragens.

    http://www.flickr.com/photos/dumpa/798038085/

    Outro dia vi o Presario monobloco em outro cliente também, esse não tirei foto. Abs

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  2. Quantos Macs vc já tem Mario?

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  3. Funcionando, são os que já foram mencionados no blog. Há algumas carcaças vazias e motherboards avulsas também.

    Agora estou de mudança e o acervo está bagunçado. Ainda não dá para expor ao público...

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  4. AAA eu tinha um desses compaq monobloco (funcionando) ate final do ano passado, aconteceu que ele estava desativado nao tava mais usando ele, dai eu puis ele num canto da lavanderia e eu um dia sai e deixei a janela aberta, choveu no compaq inteiro e estragou e entáo eu joguei no lixo, mais até hoje tenho todos os manuais e cd's que vieram com ele.

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  5. Um amigo meu tem um desses Compaq.
    Em tempo, computador não se joga fora como casca de banana. Deve ser encaminhado a um reciclador especializado.

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