2006-12-29

Meta-referência auto-refutante


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Dois tipos de mensagens de ano novo

Chegaram pelo email várias mensagens de ano novo.
A maioria é mais ou menos deste jeito:

O ano de 2006 foi bom, mas o de 2007 vai ser melhor! É só querer, pensamento positivo, bola pra frente! Que o espírito mágico do Natal entre no nosso coração! Que o ano novo seja de muita luz. Que seja cheio de paz! Que tenha muita harmonia! Que possamos conseguir o que desejamos! Que tenhamos grandes conquistas profissionais! Que perdoemos os erros dos outros! Que corrijamos os nossos erros! Que possamos encher de amor a vida das pessoas queridas! Que o mundo inteiro se encha de amor! Que nossos bolsos se encham! Blá blá blá...

Sinceramente, nem dou muita importância à mensagem se ela começa com uma platitude e termina com um clichê. Nem quando começa com três clichês e no conjunto é uma coleção de platitudes. Mas a crua e chata verdade é que quase todas são assim. Parece que os autores tentam compensar em dois parágrafos a falta de atenção com os seus conhecidos durante o resto do ano. E pecam em falta de atenção na redação dos seus textos atenciosos.
Além disso, os desejos manifestados são irrealísticos. Espírito mágico no coração, encher a vida de amor? Por acaso você viu como está o fim de ano no Rio?
A minha mensagem favorita foi a da Jan, que escreveu apenas isto:

almost done...

sabem o que eu espero de 2007?
nada.

porque isso gera expectativa, que gera ansiedade e frustração.

então, não espero: quero. quero qualidade total em cada minuto.
nos pontos altos e nos baixos.

:-)

obrigada por estarem aqui,
e boas festas.

Jan

Pronto! É isso! Pra que complicar o simples?
O que essa mensagem deseja é o mesmo que desejo a você, agradecendo a teimosia de continuar vindo aqui para ler os meus queixumes e obscuridades.
Que seu 2007 seja o melhor possível dentro das circunstâncias.

Different Thinkers, Parte 6: Klaus Schulze

Há muito tempo postei as impressões sobre um músico pioneiro chamado Edgar Froese. Naturalmente tinha também de dizer algo sobre seu colega e contemporâneo Klaus Schulze, que tem uma carreira de longo sucesso na Europa mas é virtualmente desconhecido do povão do lado de cá do oceano.
90% do que é chamado dance music, trance, house e techno (e também, talvez infelizmente, o new age e o ambient) trilha um caminho originalmente aberto por esses pioneiros alemães do começo dos anos 70, chamados coletivamente de "Berlin School" e cuja característica em comum é o uso de exóticos sequenciadores rítmicos e misteriosos sintetizadores eletrônicos. Que toda banda de hoje utiliza trivialmente.
O barato com Klaus Schulze é que, sem as preocupações do marketing de um artista ou de uma gravadora, as respostas dele às entrevistas são de uma sinceridade brutal e não visam agradar ninguém. Ele se impacienta com as perguntas genéricas que os entrevistadores fazem para todos os músicos. As questões abaixo, de entrevistas de 1997 e 1996, foram selecionadas e traduzidas do site pessoal dele.

O que inspira você como músico?

Me desculpe, mas essa é a pergunta que todo mundo faz para mim (e, suponho, a todos os outros artistas) a vida inteira. E toda vez eu não tenho resposta.

O sampler oferece liberdade de criação virtualmente ilimitada na criação de sons. Porém, uma vez criados, eles podem ser usados demais (pelo mesmo artista ou por outros) e perder seu impacto. Quais são os outros elementos de composição que podem prevenir a obsolescência de uma música gerada eletronicamente? Por exemplo, a música clássica usa harmonia, contraponto etc. como veículos de criação e originalidade, assim como a interpretação virtuosa.

Sua pergunta é muito complicada, mas poderia ser re-enunciada assim: "o que faz da música uma boa música"?
Minha resposta: música que não aborreça o ouvinte. Como em qualquer outra profissão, faça o melhor possível e seus "clientes" ficarão felizes.
A propósito: a afirmação de que esta ou aquela tecnologia oferece "liberdade de criação ilimitada" é um pouco míope. Boa música ou bons sons não surgem por causa de uma nova técnica. A tecnologia sem dúvida é usada também (e muito mais) para criar o mesmo lixo de sempre. A música que toca no rádio comprova isso a cada minuto. "Liberdade" pode ser uma coisa muito irritante e confusa. O ofício do artista não é fazer tudo o que for possível dentro dessa "liberdade". Em lugar disso, ele escolhe uma certa forma ou abordagem e então exibe a sua arte através dessa forma. Isso é mais ou menos o oposto de "liberdade ilimitada". O progresso vem da disciplina, não do caos.

Que significou para você a criação do seu primeiro álbum [em 1971]?

A pergunta é abrangente demais, geral demais para ter uma resposta significante, detalhada e honesta. Além disso, lembre-se que já passaram 26 anos. O que eu pensava há 26 anos? O que uma determinada atividade significava para mim naquela época? Você lembra o que pensava há 26 anos? Pelo menos eu não me lembro.

Qual é o seu melhor álbum?

Essa pergunta é feita a todos os músicos. E naturalmente, o músico, se for sério, sempre responde: o meu álbum mais recente é o melhor, senão eu não o teria feito.

Como compositor do seu novo álbum, como você o situaria?

Não sou em quem tem de dizer aos ouvintes o que esse disco é, ou em que categoria ele deveria ser classifcado. Música que precisa ser explicada pelo artista não é a minha praia. Olhe ao seu redor e veja que tipo de música precisa de explicação. Regra geral: quanto mais palavras, mais chata a música... No meu caso: o disco está aí, é a minha oferta. O ouvinte pode escutar e decidir. Não eu.

Outra pergunta que as pessoas vivem fazendo: quais instrumentos você usa hoje em dia?

São simplesmente demais para contar e enumerar aqui. Eu teria que olhar no meu site. Lá tem uma lista com umas fotos. Se você clicar nas fotos, elas aparecem maiores. As fotos são de 1996. Desde então, troquei os Ataris por mais Macs [para a gravação digital e o controle dos sintetizadores]. Claro que não toco todos os instrumentos disponíveis no meu estúdio em cada disco.

Os instrumentos evoluíram desde que você começou a fazer a sua música. Essas mudanças ajudaram ou influenciaram a sua evolução musical?

Mas é claro que sim. Isso é óbvio: tudo muda, o tempo todo. Os instrumentos mudam, as pessoas mudam, os artistas mudam, a moda muda, a mídia muda, o ouvinte muda, seus pontos de vista e opiniões mudam... Até mesmo o veículo sonoro mudou durante minha carreira, do disco de vinil para o CD e da fita análoga para o sampler digital, o computador e a gravação direta no HD. Naturalmente isso me influencia, assim como a todas as pessoas, sejam criadoras ou ouvintes de música.
Que mais? Por exemplo, considere que as pessoas envelhecem e com 50 anos de idade ouvem uma música de maneira diferente de como ouviam com 20. Mas isso é só um exemplo da mudança. As influências são múltiplas e mútuas... e normais.

Que tal fazer uns concertos fora da Europa? [Em mais de 40 anos de carreira, Klaus nunca tocou nos EUA.]

Os americanos sempre me perguntam isso. Meu amigo kdm [organizador do site pessoal de Klaus Schulze] me disse: Beethoven nunca tocou nos EUA, Wagner nunca tocou nos EUA, Schubert nunca tocou nos EUA, Bach nunca tocou nos EUA, Mozart nunca tocou nos EUA... então, por que eu? :-)

Depois de tantos anos, que mais você tem a dizer?

Só posso repetir: sou um músico, não um orador...

Não, o que quero dizer é que a música é uma linguagem universal. Muitos artistas transmitem sentimentos com ela, eles tentam "dizer" alguma coisa.

A maior parte do que se escreve sobre "o que o artista quer dizer com a sua arte" é papo furado, é promoção para a mídia, nonsense inventado pela gravadora ou pela imprensa, porque as pessoas gostam de ouvir historinhas e mitos.
Voltando a "o que o artista quer dizer com a sua arte": a "Abertura Guilherme Tell" de Rossini foi usada mil vezes em filmes de faroeste de Hollywood, então quando nós a ouvimos, já vamos pensando em cavalos galopantes. Mas na verdade, Rossini e o herói suíço que é tema da música não têm absolutamente nada a ver com cowboys, cavalos ou Hollywood. As capas das gravações de "Peer Gynt" de Grieg geralmente mostram uma paisagem nevada de inverno, e as pessoas ouvem ela dessa maneira (como eu mesmo ouvi por muito tempo). Mas "Peer Gynt" é localizado no escaldante Norte da África!
Isso mostra que você pode anexar muitas imagens diferentes à pura e inocente música, especialmente com palavras sobre seu "significado". Mas... o que a música pode fazer por si mesma é só uma coisa: transmitir emoções. Tristeza, alegria, silêncio, excitação, tensão. Não é algo que precise de muitas palavras... porque de fato é uma "linguagem universal".

Em retrospecto, você aprecia a música eletrônica de hoje? Acha que em algum momento o pessoal se desgarrou do caminho?

Hoje não existe mais uma categoria chamada "música eletrônica". Quase toda a música atual é feita eletronicamente. Especialmente a música mais "barata"... mas também muita música pop e dance boa e interessante. 95% da música atual é feita por métodos eletrônicos com samplers e computadores. Um pianista clássico, Glenn Gould, antecipou (e desejava) essa evolução (ou revolução?) já nos anos 60.
O que eu não suporto mais ouvir é "música eletrônica" feita por um pessoal que ainda tenta copiar o que eu ou o Tangerine Dream fizemos há 15, 20 ou 25 anos - mas basicamente sem o frescor, a energia e a emoção do que fazíamos então. Parece um revival de Dixieland - outro tipo de música que não gosto muito, e pela mesma razão. É engraçado ver hoje alguns músicos jovens tocarem como se estivessem em 1973, até com os mesmos instrumentos de 1973.
Recentemente, os copiões eletrônicos começaram a incorporar um pouco de "techno" e "trance", pois finalmente perceberam que precisam adicionar algo de novo - mas mesmo nisso eles estão dez anos atrasados: ainda lembro a repulsa deles em relação ao "techno" e "trance" quando eram novidade. Essas pessoas - freqüentemente, amadores e fãs - não conseguem fazer nada por si próprios, só pegar algo que foi estabelecido pelos verdadeiros inovadores e já virou história. Não me entenda mal, em geral eu gosto do pessoal que faz "Hausmusik" - mas é mesmo necessário que todos esses milhares de músicos de fim de semana poluam o mundo com CDs de fundo de quintal? E por que é que tantos jornalistas são incapazes de distinguir os amadores dos inovadores? Será que é porque eles mesmos fazem como hobby esse tipo de música?

Onde estará a música eletrônica daqui a dez anos?

Hoje, a música eletrônica é uma coisa normal. Nós vencemos, por assim dizer. Como já falei antes, em 1974 ou 75 nós previmos (ou pelo menos desejamos) a vitória da eletrônica. Mas não me pergunte sobre daqui a 10 anos. Provavelmente o termo "música eletrônica" estará totalmente obsoleto. Na verdade, já está. Quase toda a música atual é feita "eletronicamente". Não vai mais haver necessidade de rotular nenhuma música de "eletrônica". As demais músicas terão de ser rotuladas de outra forma, porque a música "não-eletrônica" é que vai ser a exceção.

Você foi um dos verdadeiros inovadores quando mais jovem. Você vê inovadores do mesmo tipo hoje?

Na Europa existe uma banda de imenso sucesso [na época da entrevista, 1997]: Oasis. E muitos seguem a tendência. As pessoas da minha geração percebem no Oasis somente uma cópia de um pequeno quarteto que foi muito popular há uns 30 anos, chamado The Beatles, que era um nome bem engraçado nos anos 60.
Daí que existem todas essas direções para onde o "techno" está indo, com modismos e gêneros inventados a cada semana. O que eu ouço em todos eles é sempre uma mesma coisa: ritmo. O que não é ruim. Eu mesmo fui um baterista. O ritmo fez um longo caminho a partir da África (contra a vontade) até a América, de New Orleans para Chicago, deu origem ao Jazz, o Rhythm & Blues, mais tarde o Disco... hoje em dia falam em Techno, Hip Hop, Drum 'n' Bass... Mas "verdadeiros inovadores" eu não vejo hoje em dia. Talvez na semana que vem? Certamente eles existem, mas os milhares de diletantes do "techno" - que nem sabem tocar um instrumento - bloqueiam a vista dos inovadores.

Quais são, na sua opinião, os principais atributos do artista do novo milênio no contexto da cultura pop adquirindo dimensões novas como cultura digital virtual?

Desculpe, mas não posso e não vou responder isso. Não sou um cientista, nem um historiador, nem um filósofo, nem um profeta... sou só um músico!
Acho notável que os jornalistas sempre parecem achar que um artista deve responder a todos os tipos de perguntas sobre assuntos que nada têm a ver com o trabalho dele, e que ele deva ter respostas e soluções para todos os problemas do mundo e até sobre o futuro insondável.
Eu sei que muitos "artistas" dão essas respostas... mas prefiro o jeito como Bob Dylan lida com a questão. :-)

Você vê imagens na sua mente quando toca?

Não, eu não vejo imagens na minha mente quando toco minha música. Nem no estúdio nem durante um show. Eu sei que isso acontece com os ouvintes, pelo menos pelo que me dizem, mas não comigo quando estou criando a música.

Seus filhos gostam da sua música?

Claro que não. Eu faço o que posso, sou apenas o velho pai deles. "Pai" já estaria bom, mas eu também sou velho - velho demais para eles me acharem "cool". Também já fui jovem um dia. Eu lembro como era. Naturalmente eu não ouvia as músicas favoritas dos meus pais! Era "uncool" mesmo.

Qual a sua maior satisfação e qual seu maior desapontamento?

Provavelmente você queria ouvir uma resposta mais sensacional, mas não tenho. Estou satisfeito por ainda poder fazer minha música. E satisfeito porque existem pessoas por aí que gostam dela.

Que direção você vê a sua música tomando no futuro?

Quase toda entrevista acaba com essa pergunta. Tudo bem, mas o que posso dizer além de "não sei"? Depende de muitas coisas. Eu espero nunca ficar chato. Se um artista não consegue fascinar as pessoas, acabou. Impressionar é tudo o que é necessário na arte. Você não pode aborrecer as pessoas.

2006-12-27

Bikes, Parte 26: História da Specialized Stumpjumper

Um presente pra quem gosta da Specialized. Demorou mais de 2 meses pra chegar da Amazon, mas chegou.
A Adri comprou para mim o livro comemorativo de 25 anos da Specialized Stumpjumper, a primeira mountain bike fabricada em larga escala.
São 100 páginas ordem mais ou menos cronológica. Aqui vão as reproduções de algumas páginas e fotos interessantes.



Capa do livro.




Novembro de 1977. Joe Breeze, Otis Guy, Chris McManus, Howie Hammerman em Kent Rock, lado norte do monte Tamalpais, Marin County, Califórnia. Esses caras são alguns dos inventores do mountain bike e estão no local onde o esporte nasceu. As primeiras bikes eram velhas beach cruisers modificadas ("clunkers"). Outros criadores do MTB ainda em atividade no ramo são Tom Ritchey, Gary Fisher e Keith Bontrager.




Setembro de 1976, um grupo de bikers com "klunkers" faz um passeio de montanha de Crested Butte a Aspen. Diz a legenda que Gary Fisher aparece nesta foto.




1978. King Kelly pilota a Breezer número 2 na descida de Repack, em Fairfax, Califórnia.




1979. Bikes sendo levadas de caminhão para o topo da descida Repack.




Competidores de cross-country em 1982. Primeira foto que mostra Stumpjumpers numa competição. O visual e as roupas das pessoas era absolutamente informal. Só no final da década os corredores de cross-country passaram a ter pinta de atletas, pegando emprestada a indumentária de Lycra dos ciclistas de estrada.




Detalhe da primeira propaganda da Stumpjumper. Quem pedala nas fotos é Tim Neenan, o designer da bike. A Stumpjumper é vendida como uma bike boa para andar não apenas na terra, mas também na estrada e como meio de transporte urbano.




A primeira Stumpjumper era azul escura, pesava 13,150 kg, tinha câmbios Suntour, 15 marchas, manetes de freio de moto, freios cantilever Mafac e pedivela TA tripla de cicloturismo.




Anúncio da Stumpjumper para página dupla de revista em 1982. Novamente, o cara na foto é o designer da bike. Muita gente zoou ele por causa das meias de cano alto.




A bike de competição de 1984 era cor-de-rosa, feita com tubulação Tange Prestige, tinha o primeiro garfo unicrown (em vez de cachimbado), freios traseiros de ferradura montados embaixo do chainstay (um erro que todas as marcas da época copiaram e depois se arrependeram), câmbios Deore XT e catraca maior de somente 26 dentes.




Em 1985 a Specialized passou a disponibilizar suporte mecânico de graça para todo mundo durante as provas. Além de fazer boa propaganda da marca, servia como laboratório de pesquisa disfarçado.




Sim, é ele, o Capitão, Ned Overend, em foto antes de iniciar sua gloriosa carreira no XC. Lenda viva do esporte, ele tem mais de 50 anos de idade e continua vencendo corridas.




A primeira Epic foi feita em 1992 com tubos de carbono e cachimbos de aço. Não, bike toda preta não era muito comum na época. Deve ter lançado a moda atual.




A Epic Ultimate pesava 10,800 kg, tinha cachimbos de titânio feitos de encomenda pela Merlin e custava em torno de US$ 6 mil. A idéia de criar a divisão de elite S-Works (assim chamada em alusão à divisão Skunkworks da Lockheed-Martin) começou após uma troca de idéias com os engenheiros da Porsche na Alemanha.




Em 1990, uma Stumpjumper da primeira geração foi incluída no acervo do museu Smithsonian.




Primeiro protótipo da suspensão traseira FSR, com design originalmente criado por Horst Leitner adaptando o design "4-bar" de motocicletas.




Propaganda de lançamento da FSR em 1993. Eu tinha uma revista com esse anúncio. Foi impactante na época. Todas as marcas estavam lançando ou anunciando bikes com suspensão total, mas a FSR dava mesmo a impressão de ser a única desenvolvida cientificamente. 13 anos depois, as FSR atuais continuam usando o mesmo conceito, diferindo apenas nos detalhes.




Detalhe da suspensão FSR da S-Works ano 1994.




A S-Works FSR 1994 usava um triângulo frontal de CrMo, garfo produzido em parceria com a RockShox, amortecedor traseiro Fox, freios Avid e o primeiro modelo de passador SRAM GripShift feito para competição.




Marga Fullana venceu dois campeonatos mundiais de XC. A imagem é de 2000.




Shaun Palmer por volta de 1998.




2003, primeiro ano da Epic com amortecedor Brain.




A Demo, bike de freeride com absurdos 23 cm de curso de suspensão e uma articulação independente para o freio traseiro, foi originalmente bolada num brainstorm dos engenheiros com peças de Lego.




S-Works FSR carbon, modelo 2006.




Darren Barrecloth "recicla" uma árvore de 500 anos de idade.
O texto final diz que 100% dos lucros da venda do livro serão doados à IMBA e ao Mountain Bike Hall of Fame.

2006-12-25

Bike, Parte 25: Mais burrice da TV

Na manhã de domingo, véspera de Natal, a Globo transmitiu uma competição de Four Cross, modalidade de mountain bike com corridas rápidas e curtas entre grupos de pilotos.

No dia anterior, matérias e flashes no JN e no Jornal da Globo anteciparam a lambança que eles fariam com um esporte que louvavelmente resolveram apresentar ao povo ignorante, mas ignorando-o igualmente.

As matérias nos telejornais falavam em "mountain bike" como se fosse tudo uma coisa só, quando na verdade há várias modalidades, algumas totalmente diferentes entre si, em percurso, técnica e equipamento. É como pensar que esqui, barco a vela ou motociclismo é uma coisa só.

A parte mais infame da matéria foi ao mostrar superficialmente a evolução técnica de uma mountain bike atual (de downhill, nada menos) em relação a uma de 1991. Isso quase soa como insulto, pois as bicicletas que a maior parte da população usa como transporte urbano básico são extremamente semelhantes à bike "obsoleta" que foi mostrada na TV. Para terminar a cagada, alguém comenta no ar que as bikes de competição custam "a partir de 15 mil reais". Um valor irreal: nem competidores patrocinados gastam tanto numa bike. A avaliação infeliz e gratuita é praticamente uma convocação aos ladrões e assaltantes. Faltou tato nesse momento.

A transmissão no dia seguinte desagradou ainda mais. Primeiramente porque as baterias da competição foram intercaladas ao vivo com as "atrações de Natal" da TV. Isso tirou o timing do aquecimento dos atletas. Segundamente porque o percurso não foi bem projetado e a corrida podia ser decidida logo na primeira curva. Mesmo assim, insistiram em usar desnecessariamente a câmera tira-teima. Mas, acima de tudo, porque absolutamente ninguém com um microfone tinha a noção mais vaga do "mão tem baique" e ficaram inventando qualquer blablablá sem nexo para preencher o tempo. Não tiveram a idéia salutar (usada em outros esportes) de chamar alguém do meio para servir de comentarista e limitar as mancadas de informação dos narradores, que não sabiam identificar corretamente os atletas nem, em alguns casos, pronunciar seus sobrenomes.

Fica difícil decidir se foi uma coisa boa ou ruim a iniciativa de transmitir uma competição de mountain bike em um dos horários com menos audiência televisiva no ano inteiro.

Adendo - A discussão rola nos fóruns de bike. No segundo dia apareceu mais gente defendendo a transmissão da Globo, dizendo que não dá para agradar todo mundo de cara, que é válida qualquer oportunidade para divulgar o esporte na mídia de massa, e mil outros "descontos".

Respondo que com uma boa vontade básica da emissora seria possível evitar os erros de informação. E não é para a gente se contentar com "qualquer oportunidade", não. Especialmente agora que os leigos na rua podem olhar de um jeito preocupante para as nossas bikes porque deu na televisão que elas custam "quinze mil reais".

Entre outras razões, é justamente por se dar excessivo "desconto" às falhas profissionais em todos os ramos (e não apenas no da fabricação de panetones e carrocerias de ônibus) que nosso país funciona pela metade. Vamos começar a mudar de atitude quando?

2006-12-24

Crueldade adulta

Onde está a linha da razão que separa uma preocupação saudável da pura paranóia politicamente correta? Se é importante para o desenvolvimento psicológico da criança uma exposição à violência figurada, ao mal alegórico e à crueldade fictícia, como administrar isso?

Fiz uma pesquisa básica antes de começar a escrever sobre o assunto. Os adultos que cresceram cantando as velhas cantigas de roda e agora escrevem livros e montam websites passando-as adiante para as gerações novas têm um traço em comum: não se conformam com a mudança cultural, e mais freqüentemente, simplesmente não a compreendem. Nem sabem exatamente ao que estão resistindo.

Não é o caso de lamentar o ocaso das musiquinhas antigas, mas observar que elas estão sendo substituídas por outros elementos culturais. É preciso conhecer e entender esses novos elementos. Se estes são em princípio melhores para a formação da mente infantil é uma outra discussão, que nem cabe em post de blog. Meu interesse aqui não tem a ver com a manifestação cultural em si, mas somente com seu conteúdo formativo.

Os adultos inconformados mencionam unanimemente como elementos susbtitutos as "músicas de programa de TV da Xuxa". Isso é desatenção. Eles estão falando da realidade de 20 anos atrás. Hoje a televisão está com o prestígio declinante entre os mais jovens. Os filmes são cada vez mais claramente reconhecidos como entretenimento vazio. Os fatores principais que despontam agora são a Internet e os videogames. São esses que devemos analisar agora.

A mensagem cultural da mídia do último século, desde os blockbusters de Hollywood até os mangás modernos e às novelas globais, é sempre a mesma:

Você deve fazer absolutamente tudo o que quiser: não deve prestar contas a ninguém. Conseqüências não se medem: passe por cima de tudo e de todos para chegar onde quer. Os resultados devem ser imediatos: satisfação instantânea.

É a mensagem de uma sociedade de massas cada vez mais consumista, individualista e predatória. Que, tenho a impressão, gera um número crescente de anti-exemplos que são a matéria-prima fundamental dos artigos de jornais. E ao mesmo tempo é explorada na publicidade até que não sobre mais fundamento algum.

Mas a premissa básica é fajuta: você não pode operar verdadeiramente dentro deste mundo com esses "valores" se não for um bandido. E por definição, o bandido age por fora das regras da sociedade. Às massas cumpre sonhar iludida e cega com o anti-ideal e viver com o mínimo de conflitos internos num sistema moral fragmentado. Odeia o político corrupto e reclama dele todo dia, mas vota nele com todo o gosto. E torce pelos vilões nas novelas. A hipocrisia é geral.

Nos videogames mais modernos em que o jogador representa um papel, eu vejo uma preocupação dos designers em criar um equilíbrio positivo/negativo, através de um sistema de jogo que mude as circunstâncias história conforme as ações do jogador, restaurando as regras de funcionamento da vida real. O gênero de game que mais cresce no mundo é o RPG online, onde a pessoa simplesmente desenvolve uma vida fictícia paralelamente à sua vida real. E pode ser boa ou má à vontade, mas tem que pagar por suas ações. Não é o vale-tudo dos filmes e novelas.

Quando aparece alguém querendo proibir um videogame em que o jogador interpreta um assassino, me alinho a favor do game e contra o censor. Por três motivos bem estabelecidos: a experiência num mundo de ficção não determina o comportamento social real da pessoa, as crianças sabem distinguir entre fantasia e realidade melhor do que se supõe, e quase sempre os censores são apenas palhaços hipócritas querendo aparecer na mídia.

Alguns anos atrás, a Conrad traduziu e publicou um livro chamado Brincando de Matar Monstros. A intenção do livro é equilibrar a onda de politicorretismo-caretista que ameaçava degenerar em uma censura cerrada aos videogames. A tese é simples: a criança deve poder lidar com a violência no mundo da fantasia, a fim de se equipar emocionalmente para o mundo real.

Já existe uma idade mínima recomendada no rótulo de cada game, mas vamos ser sinceros, quem obedece à recomendação? Crianças jogam e viram bandidos de rua, roubam carros e metralham traficantes da gangue rival. Não estou falando mal, eu adoro "GTA", mas da mesma maneira como gosto de jogos como "Katamari Damacy" ou "Gran Turismo", que não envolvem a aniquilação violenta e incessante de oponentes. O fato de os adultos não evitarem que as crianças jogeum games considerados impróprios para a idade tem a ver, basicamente com eles simplesmente não entenderem como são esses games. Ou de não estarem cumprindo sua responsabilidade de fiscalizar o que chega às mãos dos filhos.

Não será que as cantigas de roda e canções de ninar assustadoras cumpriam exatamente o mesmo papel de preparação da mente infantil para uma vida cruel? Para mim isso é até óbvio. Nesse caso, quem não gosta de "Atirei o Pau no Gato" deveria reservar-se o papel de não propagar a musiqueta, em vez de violentar a sua letra original. Assim como alguém que não aceita games violentos pode se recusar a jogar "Bully", mas não tem o direito de proibi-lo a quem tem a idade legal para jogar.

Quanto à Internet, ela é responsável por transformar o computador numa ferramenta social. Até recentemente, apareciam queixas de o computador "isola" as crianças. Mal sabe o adulto desatento que o principal uso da máquina é exatamente o contrário: socialização com outras pessoas através da rede. E nessa socialização valem as mesmas regras de sempre, não as regras do vale-tudo.

Infantilidade cruel

O mundo da fantasia infantil sempre teve um componente importante de horror e violência. Pode atestar isso quem já leu traduções fiéis das lacrimejantes histórias de Andersen ou dos assustadores contos dos Irmãos Grimm. As coisas ruins são apresentadas sem nenhum disfarce ou paliativo. É para sofrer mesmo, e nem sempre o final é redentor. Dentro da função psicológica do mito, os sustos e desgraças das histórias são parte integrante da preparação da criança para o mundo perigoso que irá enfrentar fora de casa.

Mas as versões modernas desses contos estão cada vez mais boazinhas, edulcoradas, inócuas. E não é apenas nas infindas "adaptações" dos contos clássicos que passam a ferro as suas peculiaridades literárias. O exemplo quem me vem à cabeça é a versão Disney de "A Pequena Sereia". A história original de Andersen é de arrasar um coração de pedra, com a sereia passando por incontáveis sofrimentos atrozes e não conseguindo ficar com o príncipe no fim. Há uma lição implícita: existem coisas na nossa natureza que é impossível mudar. É justamente isso que dá o impacto emocional e torna o conto memorável. Mas como é a história da Disney, mesmo? Pois é. Finais arranjadinhos são marca registrada da cultura de massa americanizada do pós-Segunda Guerra. Semana passada vi o filme "Down In The Valley", com Edward Norton. A premissa é boa, o desenvolvimento surpreendente, os atores ótimos, mas tudo que acontece de dramático na história é (in)convenientemente compensado ou desfeito no fim. Frustrante.

Voltando ao imaginário infantil, a primeira vez que a "descrudelização" me chamou a atenção foi quando tentaram propagar uma letra sanitizada para a ancestral cantiga de roda "Atirei o Pau no Gato", típica canção cruel que as criancinhas aprendem em tão tenra idade que nem chegam a interpretar o significado da letra. Como é que a musiquinha vem sendo ensinada nas escolas do país? Assim:

Não atire o pau no gato-to-to
Porque isso-so-so não se faz-faz-faz.
O-o gato-to-to é nosso amigo-go-go.
Não devemos, não devemos,
Maltratar os animais.


Ou

Não atire o pau no gato-to-to
Por que ele-le-le é nosso amigo-go-go.
Jesus Cristo-to-to nos ensinou-ou-ou
Que devemos, que devemos,
A-amar os animais.


Claro que na minha opinião, também é politicamente incorreto colocar Jesus no meio da segunda versão, e ainda por cima atribuindo-lhe algo que ele não fez.

As cantigas de roda tinham letras bastante elaboradas que foram sendo abreviadas ou parcialmente esquecidas, coincidentemente ou não à custa das partes que consideraríamos controversas. Quando ainda era criança não existia a Wikipédia, mas me caiu na mão um livro muito antigo com as partituras e letras de todas essas musiquinhas tradicionais. Fiquei estarrecido de ver como eu conhecia só um pedaço de cada uma, e como a parte desconhecida quase sempre acrescentava uma dimensão dramática. Um exemplo ainda bem conhecido:

Ciranda, cirandinha
vamos todos cirandar
vamos dar a meia-volta
volta e meia vamos dar


tem como segunda estrofe o tristíssimo

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou


Até aí, sem novidade, pois a maioria dos brasileiros ouviu a segunda parte, mesmo que nunca tenha refletido sobre ela.
Mas você sabia que

Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
Quem gosta de mim é ela
E quem gosta dela sou eu.


continua assim?

Pirulito que bate bate
Pirulito que já bateu
A menina que eu amava,
coitadinha, já morreu.


Não vou me alongar nos clichês "Boi da cara preta", "Nana neném que a Cuca vem pegar", "Eu sou pobre de marré", "Eu tenho medo de apanhar", "Quem não marchar direito vai preso pro quartel", nem mesmo a inteiramente catastrófica "O Cravo e Rosa". Essas ainda não sofreram a fúria revisionista. Talvez morram por simples falta de uso, suplantadas pela televisão e pelo World of Warcraft.

Algum tempo atrás circulou pela Internet uma crônica criticando todas essas letras cruéis e atribuindo a sua origem a uma (suposta) vocação tirânica e (real) baixa auto-estima do brasileiro. O texto era em tom de ironia, mas o povo em geral não entendeu, como é comum acontecer com a ironia transmitida online. Talvez esse problema seja o verdadeiramente pior do brasileiro (ao menos online): levar-se a sério demais, falta de capacidade de lidar com ironias.

Wikipédia - 1

Cochonilha

2006-12-23

Macaquice cultural de fim de ano

Certamente alguém já escreveu sobre isso com muito mais profundidade, mas só não queria deixar passar mais um ano sem nunca falar sobre o assunto.

Natal com nevasca, velhinho vestido com roupa de inverno, trenó puxado por renas e comidas hipercalóricas... isso tudo é lá no Hemisfério Norte!

Desde criança fico imaginando uma solução para eliminar essa inversão-climática-de-macaquice-terceiro-mundista que vemos repetida todo fim de ano nos shoppings, boutiques de rua e agências de banco, com um nível de falsidade que cresce somente na medida da ostentação material.

A solução é muito simples: inverter tudo em seis meses.

A noite de São João deveria ser a mais quente do ano e a de Natal a mais fria. Basta, então, trasladar São João para dezembro e o Natal para junho. Já que essas datas são arbitrárias mesmo, qual o problema? Parece que Jesus nasceu foi em Abril (mesmo signo do Buda).

Com a correção sazonal as coisas começam a ficar um mínimo mais coerentes, ao menos a sul do trópico de Capricórnio. As comidas hipercalóricas europeizadas do Natal e os enfeites com temas glaciais mais ou menos até que começam a se justificar. E a absurda concentração de movimento comercial e correria pré-férias no último trimestre é trocada por um mínimo de homogeneidade, bem-vinda para os negócios.

Já ter a minha cidade de clima subtropical-mutante-bolha-de-poluição coberta de neve no fim de junho seria pedir demais. Acho que pedir para repensarem a pseudo-europeização estética também seria muito. Mas qualquer melhoria seria bem-vinda.

Nos bastidores do laboratório de design do Zune da Microsoft

Paródia por Glass Maze, tradução minha.

1 - Designer Chefe [segurando um iPod]: Então, nós queremos fazer um destes.
2 - Designer Auxilar: Ou seja, adotar e estender um destes.
1: Exatamente. [faz que sim com a cabeça] Certo. Então, vamos nessa?
2: Hmmm... não. Vamos ter que projetar ele.
1: Eu pensei que a gente podia simplesmente adotar o design deles.
2: Não, o Jobs tem advogados bons. Teríamos que estender bastante.
1: Tá bom... [virando o iPod na mão] VistaPod?
2: Não só o nome...
1: Certo. Bem, que tal fazer essa rodinha de controle com uma textura? Com saliências e reentrâncias. O TexturePod!
2: Não. A gente não pode nem fazer uma rodinha de controle. A Apple patenteou isso. E se possível, vamos ficar bem longe do nome "pod".
1: [suspira] Espera um pouco, por que a gente simplesmente não compra os caras?
2: Jobs não venderia.
1: Ah, bom. Imagino que seja por questão de princípios.
2: Não. Nós não adotamos princípios. Que tal fazer a tela bem grande?
1: Gostei! Vamos lançar o VistaPod Enterprise Edition com tela grande, o VistaPod Home Edition com uma tela bem pequenininha, o VistaPod Business Edition com uma tela grande que só metade funciona, o VistaPod Student Edition...
2: Para este produto a gente quer adotar a simplicidade. Só uma versão.
1: [pausa] Sei...
2: Só um tipo de VistaPod.
1: Hm...
2: E nós NÃO podemos chamar ele de VistaPod.
1: Certo.
2: Certo.
[silêncio desconfortável]
1: Então, quanto nós já oferecemos ao Jobs?
2: Muito. Então, voltando... a tela vai ser grande. E vamos colocar botões no lugar da rodinha.
1: Mas claro. Rodinhas são besteira mesmo. Não dá pra digitar com uma rodinha!
2: É. [pausa] Você sabe que não vai precisar digitar nada nesse aparelho, né?
1: [franze a sobrancelha] Mas então, como é que faz para escolher uma música?
2: Não é digitando o nome dela.
1: Então, as músicas vão ficar no Menu Iniciar?
2: [pausa] Não vai ter menu Iniciar.
1: Oh.
2: Escuta, por acaso você já viu um iPod?
1: Ééé... não. Eu só ia mandar um pros nossos Engenheiros de Adoção e Extensão fazerem outro.
2: Tá, mas nós não podemos fazer isso.
1: Certo. [pausa] Então... tela maior, botões. Sem menu Iniciar. Sem teclado. Sem mouse?
2: Sem mouse.
1: Sem mouse. OK. [pensando] Já entendi.
2: Beleza.
1: Os iPods vêm em várias cores, não? Branco, preto, azul e mais umas outras, né?
2: Sim.
1: Então vamos usar uma cor que ninguém nunca usou antes.
2: [suspira] Assim já dá pra começar...
1: Marrom.
2: Marrom?
1: Marrom.
2: Como um caminhão da UPS?
1: Eu pensei mais num marrom tipo merda, mesmo.
2: Um tocador de MP3 cor de merda.
1: Isso. [sorri] Sim!
2: Então a sua proposta é um ShitPod.
1: [franze o cenho] Eu achava que a gente não podia usar a palavra "pod".
2: Mas quem compraria isso?
1: É psicologia reversa. Todo mundo já fala que nossos produtos parecem merda. Então, o que acontece quando a gente faz um que parece merda de verdade?
2: [esfrega a têmpora] Sei lá...
1: Aí a gente fala: SIM, parece merda! Essa é a sacada!
2: ...
1: É contracultural! É audacioso!
2: ...
1: Acho que estamos tendo um momento inspirado agora.
2: Você já projetou alguma coisa antes?
1: Que mais? Vamos fazer ele tipo um tijolo. Um tijolaço marrom com uma tela bem grande e botões.
2: Um ShitBrickPod.
1: Algo do gênero. [junta as mãos] Acho que já temos o conceito. Vamos pedir ao marketing pra fazer fotos de adolescentes rindo, festejando, cheios de pose enquanto ouvem os seus ShitBrickPods. E vamos chamar a campanha de "Trazendo o feio".
2: Não acho que seja uma grande idéia.
1: A Apple já fez o bonito, certo? Eles já têm o design bem-feito e elegante. Nós temos que ir numa outra direção.
2: Então, o que você está dizendo é que nós temos que vender audaciosamente um produto feio e mal projetado?
1: Olha, nós já estamos fazendo isso há quinze anos. Por que parar agora? O que é que teria de tão especial no ShitBrickPod?
2: Eu não acho que...
1: OK, hora do almoço! [levanta-se] Foi divertido. Vamos criar outra coisa amanhã!


Original em inglês

2006-12-22

Bikes, Parte 24: Diamondback Full Suspension

Meu segundo projeto de restauração de bicicleta:

Diamondback Dual Response CM (1995)


Esta bicicleta bela e raríssima, porém sem valor comercial, eu comprei de segunda mão em São Caetano do Sul em dezembro de 2006. Era meu segundo xodó, depois da Stumpjumper. Esse modelo de bike, usado em competições de downhill nos Estados Unidos entre 1993 e 1995, era um exemplo notável da história do desenvolvimento das suspensões de bicicletas.
Foi furtada de dentro da garagem do edifício da Tuta, onde eu então morava, em agosto de 2007, apenas dois dias antes da minha mudança de lá para um novo endereço. Jamais foi reencontrada. Uma perda insubstituível.
Removi do blog o artigo original que detalhava a bike e o projeto de restauração, com dados e fotos.
Ela nem estava ainda em boas condições para ser pedalada na rua. A restauração estava no começo, com componentes Shimano STX de nove anos de idade que encontrei por milagre, ainda zerados; pneus de downhill Panaracer novos; um guidão reto Ritchey; algumas outras peças de época, tudo em estado impecável. Não deu tempo de jatear e anodizar a balança traseira, nem repintar o quadro de chromoly. Também ainda não estava instalada a suspensão dianteira Marzocchi, idêntica à original, que conseguira pelo Mercado Livre, para sustituir o garfo mais moderno que fora instalado nela pelo dono anterior. O amortecedor traseiro também era Marzocchi e estava em perfeito estado.
A Tuta disse que falaria com o condomínio para me "compensar" com o valor até então investido por mim na bike. Mais ou menos equivalente a um laboratório fotográfico estragar um filme contendo fotos preciosas e querer "compensar" o fotógrafo dando-lhe um novo rolo de filme.
O que alguém poderia fazer para "compensar" o sumiço de uma bicicleta rara, certamente sem similar no país, furtada de um prédio em plena rua Cônego Eugênio Leite por um intruso que obviamente usou engenharia social para entrar na garagem?
O condomínio não levou a sério a falha de segurança. Afinal de contas, devem ter pensado, bicicletas são roubadas o tempo todo, não é assim mesmo?
Não considerando o furto como uma advertência, o prédio continuou a não ter porteiros em período integral. Pagou caro pela negligência. Nas semanas seguintes, dois apartamentos foram roubados, com enormes perdas materiais. Coincidência demais, eu diria. Aí sim, os moradores investiram em segurança.
Nunca me conformei com esse incidente e ainda fico extremamente incomodado ao lembrá-lo.

2006-12-21

Veneno delicioso

O panetone Kopenhagen com gotas de chocolate meio amargo é um dos mais gostosos e macios, possivelmente o melhor. E um dos mais caros.

Mas ache e analise a tabela nutricional, que fica oculta no fundo da embalagem e tem o fundo preto para não chamar muita atenção. Vou ajudar você e copiar algumas informações relevantes da tabela, com uma correção nos números.

Explico a necessidade de correção. A porção-base (fatia) descrita na tabela é de irrealísticos 80g. No mundo real, ninguém come uma fatia de 80 gramas desse panetone, vira e vai fazer outra coisa da vida. Vamos ser sinceros e medir logo o panetone inteiro.

Valor energético: 385kcal
O panetone inteiro pesa 500 gramas. 1 porção de 80 gramas tem 385 calorias. Então, o panetone completo tem 2406,25 calorias.

Como base de comparação, cada panetone de 500 gramas equivale em calorias a 4,3 Big Macs (1 Big Mac = 560 kcal).

Sem novidade até aqui. Todo mundo sabe que panetone tem muita caloria. Foi inventado para um clima de inverno gelado e com neve, não para os 40 graus que faz na minha cidade toda semana de fim de ano. Mas não entremos ainda no assunto da macaquice cultural do Natal; isso por si valeria um longo post que estou com preguiça de escrever agora. Voltemos à nossa pauta do momento e avancemos até os segredos ocultos no coração da tabela negra.

Gorduras Totais: 20g
Total no panetone de 500g: 125g
(36% do VD)
Acho que só chocolates, provolones e manteigas integrais estão nessa faixa de adiposidade. Outras marcas de panetone pegam tão pesado na receita?

Gorduras Saturadas: 5,6 g
Total no panetone de 500g: 35g
(25% do VD)
Sim, 35 dos 125 gramas são de gorduras saturadas. Vai se preocupar com isso? Eu não, o meu queijo é quase todo feito de gordura saturada. Os franceses comem queijo todo dia e vivem muito. Mas quem tem problemas cardíacos e precisa controlar a gordura pode começar a perder o sono por razões relevantes na noite do dia 24.

Gorduras Trans: 7,0g
Total no panetone de 500g: 43,75g
(VD não estabelecido)
Agora é que as pessoas perfeitamente sadias podem também perder o sono. A esta altura do século, todo mundo já viu em algum lugar na mídia que gordura trans é sinônimo de veneno. O VD não foi estabelecido porque, na opinião dos médicos, simplesmente nenhuma quantidade dessa substância é segura para o consumo humano.
Como base de comparação, cada porção de McFritas grande contém de 5 a 8 gramas (dependendo da fonte) de gordura trans. O panetone de 500 gramas contém, portanto, gordura trans equivalente a algo entre 5 e 8 McFritas grandes!

A Elma Chips reduziu esse ingrediente nas suas batatas fritas e está anunciando isso nas embalagens. O McDonald's diz que vai fazer o mesmo, procurando se antecipar a um novo problema de marketing. Porque sejamos honestos: a preocupação primárias dessas corporações não é com saúde pública, e sim com imagem pública. Caso contrário, teriam eliminado os componentes tóxicos da comida desde muito antes de a mídia começar a pegar no pé.

É hora, então, de pegarmos no pé da Kopenhagen e sei lá quais outras fábricas de panetone. Faça sua parte: leia as tabelas escondidas nas embalagens e reclame.

2006-12-13

...Mas o nosso prefeito vai acabar com isso

Os pobres motoristas condenados a percorrer diariamente de ponta a ponta a Paulista congestionada estão podres de tanto ver esse anúncio gigante em prédio.
De todas as peças "estilo de vida genérico - nada a ver com telefones", inaugurado aliás pela Motorola e não pela Vivo, esta é a que considero pior.



Uma interpretação da imagem domina solitária, acima de todas as outras:
"A menina corria desembestada na rua, caiu, bateu a boca na guia de concreto, quebrou vários dentes e agora está sangrando e gritando de dor."
E ainda tem um péssimo cabeleireiro.
O celular está fora de escala e perspectiva. Foi adicionado com Photoshop à fotografia já produzida. Ou seja, pode até mesmo ser uma dessas stock photos - fotos prontas que se compram via catálogo e por atacado, como por exemplo as que a revista Veja usa toda semana para não precisar pagar um ilustrador.

Mas o nosso prefeito quer acabar com isso. De acordo com lei que ele criou e aprovou, os megaanúncios de rua - sejam inteligentes ou estúpidos - têm data marcada para desaparecer da cidade de São Paulo: primeiro de janeiro de 2007.
Mas um juiz, atendendo a uma das empresas de publicidade na rua, já soltou liminar anulando a lei.
Nada acontece de maneira simples.

2006-12-10

Retopia - Parte 1

Foi em Retopia que eu vi.
Uma das maiores avenidas da cidade é um monstro com sete faixas de cada lado, sendo as centrais usadas para escapar para as transversais. Os carros páram em todos os cruzamentos e a velocidade média não é maior que a de alguém fazendo jogging. O imposto é caro e não há onde estacionar. Mesmo assim, a população se mantém teimosamente na condição de escrava das quatro rodas. Nada completamente implausível, não fosse a extraordinária má educação no trânsito. Não por terem esquecido as regras de convivência no asfalto, mas pela vontade eterna de tirar uma vantagenzinha indiivdual. Uma manobra errada aqui, uma fechadinha ali, uma conversão ilegal acolá, e ninguém realmente consegue dirigir em paz.
Normalmente considera-se que a única linguagem que o povo entende é a mordida na carteira. Assim, as autoridades foram reforçando o sistema de fiscalização e autuação e apertando as regras. Para sua surpresa, o povo não se sensibilizou. Providências mais fortes se tornaram necessárias.
O primeiro problema a ser atacado foi a mania de invadir as travessias de pedestres. Nos semáforos da avenida principal há cronômetros digitais que contam os segundos restantes até o sinal fechar. No zero, uma barreira de metal sólido, com acionamento hidráulico automático, ergue-se verticalmente a partir de uma estreita fenda transversal que fica dentro da faixa branca que separa os carros dos pedestres. A barreira atinge a altura final de 1,5 metro em cerca de 0,7 segundos, acompanhada de um ruído intimidador. É um cruzamento mutante entre uma guilhotina invertida e o braço de uma escavadeira.
Bastaram sete ou oito carros erguidos no ar e amassados pelas arestas em ziguezague da barreira hidráulica durante a primeira semana, para que o número de invasões de faixa diminuisse, mesmo em cruzamentos comuns.
Os fiscais voluntários camuflados, conhecidos como fiscais cidadãos, foram outra inovação bem-sucedida em Retopia. Voluntários recebem um equipamento de vídeo que monitora o campo visual de 360 graus ao redor do seu carro. Ao testemunhar uma infração, o motorista aperta um botão que aciona o sistema remoto de documentação. A informação correspondente ao último minuto da gravação de vídeo é enviada via rádio e analisada na central de tráfego para autuação imediata. O equipamento já era usado nos carros da companhia de tráfego, mas seu uso disfarçado em veículos comuns instilou nos maus motoristas a pequena dose de paranóia necessária para desestimulá-los de ofensas gratuitas na rua.
A última novidade no trânsito em Retopia não é resultado de política pública, mas da inventividade da indústria de blindagem de carros, em perpétuo progresso frente à violência cada vez pior. Os veículos modificados ganharam a opção de receber canos de armas automáticas embutidos na carroceria, lembrando vagamente as canhoneiras de navios de guerra antigos. O orifício redondo na lateral do carro é um alerta para manter os maus elementos à distância. Em caso de abordagem hostil, como em assalto ou sequestro, o vigilante remoto credenciado, que assiste a tudo em tempo real através de câmeras de vídeo a bordo do automóvel, pode emitir o comando para atirar. Projéteis de curto alcance com efeito de fragmentação são usados. O carro modificado usualmente é um cupê, e na versão básica a mira das armas é fixa na região lateral da porta do motorista e do passageiro da frente. Uma opção mais cara inclui um sistema de mira móvel para o vigilante remoto trabalhar de forma mais eficiente.

2006-12-08

Ônibus, Parte 2: Fotos da insanidade



Os ônibus CAIO "Piso Baixo" são um sucesso, no que depende das empresas de ônibus, que estão comprando de monte. Quase todos os "carros" (como são chamados os coletivos pelos motoristas) novos circulando em corredores, quando não são do tipo articulado, são esses.
Tudo começou com o decreto municipal obrigando a circularem mais carros compatíveis com cadeiras de rodas. A resposta, em vez de um benefício extra para a população, foi um equívoco de engenharia, uma catástrofe ergonômica que castiga injustamente o cidadão com mais desconforto e perigo.
Escrevo no meu Pocket PC ao vivo, sentado na seção frontal de um deles. A linha 5119 sobe a Brigadeiro Luiz Antônio, desce a Joaquim Floriano e ruma para o Terminal João Dias via Av. Morumbi e Giovanni Gronchi. O destino final é o Terminal Capelinha.
São 18 horas e o carro está naturalmente cheio. Desligo a iluminação da minha telinha para atrapalhar um ou dois curiosos que tentam insistentemente ler.
No post anterior sobre ônibus, esqueci de descrever um aspecto importante. Parece que existem pelo menos dois modelos diferentes desse ônibus. Neste onde estou agora, o piso baixo existe entre a porta de entrada do lado esquerdo (corredor) e as duas de saída, uma de cada lado, para ponto de corredor e ponto comum. Mais ao fundo fica uma seção elevada com dois degraus generosos. Mas quem embarca de um ponto comum entra pela porta mais à frente, junto ao motorista, sobe os degraus de praxe e então precisa descer outros dois degraus até chegar ao cobrador. O cobrador é completamente invisível da porta de entrada.
Menos de metade do caminho da linha 5119 é no corredor de ônibus. O restante é em via normal, usando as portas do lado direito. Forma-se uma fila de pessoas espremidas na entrada, aflita por não avistar o cobrador e também porque a fila absolutamente não se move.
Uma senhora comenta para a outra: "Esse degrau é horrível, não tem onde se segurar!"
Um homem fica espantado e reage rindo. Várias vezes ele tenta, sem sucesso, puxar conversa com estranhos, incluindo o motorista. "Uma escada!... No meio do ônibus!... É novo, né?..."
Uma jovem grávida, com a ajuda sucessiva de outros três passageiros, passa o bilhete único para o cobrador e senta na frente, planejando descer pela porta de entrada, sem tentar atravessar a multidão compacta.



O "carro" passa pela porta do Palácio dos Bandeirantes exatamente uma hora depois de cruzar a Paulista. De bike, teriam sido no máximo 35 minutos, e isso respeitando todos os sinais. É mesmo de estranhar que um percurso relativamente curto precise de tanto tempo para ser feito. O problema maior não é a grande quantidade de paradas em pontos, mas a superabundância de semáforos interrompendo o fluxo em avenidas largas e de grande circulação. Perde-se um tempo excruciante esperando o sinal abrir; como a aceleração do ônibus é extremamente lenta, ao pegar embalo ele não consegue passar no próximo sinal e acaba parando em rigorosamente todos. Não é surpreendente que tantos motoristas de ônibus impacientes formem filas duplas e triplas ultrapassando-se fora da faixa exclusiva em plena Avenida Paulista, ajudando a piorar também o tráfego dos particulares que nada têm a ver com o caso.
Soa a clichê, mas é um fato impossível de ignorar num busão chapado de gente que, após dois ou dez dias úmidos e quentes seguidos, o odor corporal dentro do coletivo sobe acima do aceitável até mesmo por narizes certamente insensibilizados pela poluição urbana, como o meu. Muita gente reusa a roupa no dia seguinte sem lavar, outras tantas pessoas simplesmente não se banham, outras dispensam o desodorante por razões de dogma religioso, e assim por diante. E meu nariz fica sabendo de tudo. Cada odor conta uma pequena história dispensável. O cheiro escuro de casas mofadas se mistura aos pulmões contaminados por cigarros, salgadinhos baratos de rua, naftalina de armário, o ocasional traço de metabolização alcoólica que me lembra solda de acetileno, e o indefinível e simples cheiro de idade.
O "carro" é mais comprido, mais pesado e mais estável sobre as irregularidades do piso do que os modelos antigos, que pareciam amplificar em vez de atenuar as vibrações. O problema dos sacolejos brutais causados pela buracaria do asfalto diminuiu e o principal estorvo passou a ser outro, comum a todas as épocas: o típico motorista bruto e estressado, que castiga o motor, os freios e a direção fazendo manobras gratuitamente bruscas, atirando constantemente os passageiros uns sobre os outros, desesperados de não conseguirem se agarrar em balaústres. O fenômeno é quase universal em "carros" pequenos como os microônibus da periferia, cujos motoristas se sentem donos do bairro, mas neste monstro metálico há abundante sofrimento a ser experimentado nas áreas escassas de apoio, como os degraus e o setor baixo. Algumas pessoas, quase sempre mulheres, usam conscientemente o corpo como pára-choque. Não, não é agradável.
Está bastante escuro, devido às nuvens espessas que ameaçam dissolver São Paulo em mais um temporal furioso. As luzes internas do "carro" se mantêm apagadas, incluindo os três luminosos de "Cuidado Degrau" fixos ao teto. Ligo a tela do Pocket PC para poder continuar a escrever, mas me convenço de que não vale a pena naquele momento, desligo de volta e espero por um trecho mais iluminado.
Três, quatro, cinco passageiros que embarcam em pontos sucessivos fazem a mesma pergunta: "Onde está o cobrador?" Resposta de alguém: "Dentro do buraco". Alguém pergunta: "Mas ali para a frente não está vazio?" Resposta de outro, dando risada: "Vazia está minha barriga, que não almocei ainda!" Um outro esclarece: "Tem que descer os degraus." Perplexidade: "Degraus? Como assim? Aqui no meio?"



Atravesso para a parte de trás e pago a passagem estrategicamente durante uma parada. Percorro os últimos 2 mil metros de pé sobre a plataforma que fica junto à porta direita, no lugar dos convencionais degraus de saída. No canto de cada lado da porta existe um rebaixo no piso por onde passa o braço que abre e fecha o mecanismo, e onde o pé de uma criança calçada com chinelo poderia ser esmagado com perfeita facilidade.
Ninguém quer ficar parado sobre os degraus do corredor, nem mesmo num "carro" totalmente lotado. Nem na área central desprovida de balaústres que fica entre as duas portas de saída. Sim, as portas, pois elas são quase de frente uma para a outra, criando dois fluxos contrários de passageiros se acotovelando, os que querem um lugar na traseira e os que querem sair da traseira para desembarcar.
Paradoxalmente, à medida que a oferta de transporte coletivo aumenta, a experiência de uso do serviço piora. Tenho lembranças das minhas idas ao Liceu de Artes e Ofícios quando tinha 14 a 17 anos. As linhas eram da Empresa de Ônibus Vila Galvão (Guarulhos-Metrô Tietê, atualmente Tucuruvi) e da Nações Unidas (Vila Nilo-Santana e Vila Nilo-USP). A suspensão era indizivelmente ruim, os bancos eram de fibra de vidro sem estofamento, o piso de chapa de alumínio crua, e os "carros" lotavam no meu horário de retorno às 23h30. Mas isso nunca me fez ter vontade de dar um basta na "condução" e ir de bicicleta, como faço hoje em dia. Eu achava o serviço aceitável pelo pouco que custava e usava meus razoáveis 35 minutos de trajeto desde Guarulhos até a cidade grande para ouvir meu walkman Unisef e repassar os cadernos com as aulas de circuitos elétricos.
Hoje as coisas são extremamente piores, no sentido que não são realizadas visando o benefício dos usuários. Desperdiça-se o vultoso dinheiro adquirido com tarifas que sobem muito acima da inflação em pontos mal implementados, linhas morosas, avenidas intransitáveis e ônibus criminosamente mal projetados.
E uma explicação surge como teoria capaz de explicar tudo: os responsáveis, os tomadores de decisão sobre os transportes públicos em SP, nunca utilizam pessoalmente os serviços que oferecem.
Isso não é um problema de natureza individual, mas de cultura coletiva.