2006-11-20

Viés - Parte 3

Um fenômeno difuso, que tem a ver mais com a natureza humana do que com um envolvimento particular no mundo tecnológico, são os movimentos ou modismos de falar mal de alguma empresa, que surgem na imprensa de tecnologia e se auto-alimentam como bolas de neve, via notas e notícias negativas em massa que citam umas às outras.
A onda de más notícias e boatos afeta a empresa e vice-versa, numa perigosa espiral descendente, o que me faz querer descobrir se algumas delas não seriam orquestradas por concorrentes. Existem diversas maneiras reconhecidas de desestabilizar um concorrente. Exemplos: vaporware (anunciar um produto sem intenção de lançá-lo, apenas para prejudicar as intenções do concorrente) e FUD (espalhar dúvida e desconfiança sobre a viabilidade do produto concorrente). Quando a onda de artigos negativos na imprensa especializada se interpenetra com o FUD sob medida feito pelo concorrente interessado em ver a sua caveira, a pressão pode ser irresistível e matar o produto.

O "saco de pancadas" de relações públicas da vez pode ser retratado de forma muito pior do que realmente está. Quando se recupera da fase ruim, os maledicentes persistem ainda por algum tempo cantando a sua morte inevitável.
Embora todo mundo conheça o caso exemplar da IBM nos anos 80 e saiba que a Dell enfrenta problemas atualmente, para mim o mais famoso saco de pancadas da história da computação foi a Apple, que teve um período de horror há cerca de 10 anos.
Eu já estava envolvido na Internet na época, lia todas as revistas especializadas, e a sensação em relação à Apple era de fim de mundo. Os problemas da empresa foram causados por incompetência própria, não por maledicência alheia. Mas não devemos desconsiderar o poder combinado de uma maré de más notícias vindas simultaneamente de múltiplas fontes, acompanhadas por peças de FUD profetizando um fim sangrento para a companhia e orfandade para seus consumidores. Má notícia vende mais jornal, e menções negativas à Apple começaram a aparecer em lugares inesperados. O Mac era ridicularizado em contextos que não tinham a ver com informática. Matérias de capa sobre o desastre iminente apareceram em revistas influentes, como Business Week e Wired.
Uma década passou, a Apple se recuperou de seus equívocos, encontrou novos caminhos e voltou a ser relevante. Dez anos depois da crise, porém, ainda há "analistas de mercado" insistindo teimosamente que o atual sucesso é uma breve fase antes do colapso definitivo.
Eu me perguntava a quem beneficiaria a bancarrota da Apple. A Microsoft, após dominar o software para PC com o Windows 3.1 e o Windows 95, ficaria completamente isolada no mercado de sistema operacional para micros pessoais. Se a MS já manda e desmanda na indústria de PCs (situação expressa nos termos leoninos dos contratos de licença de OS para os fabricantes de PCs), o que aconteceria se o monopólio se tornasse absoluto? Seria ruim para todo mundo. Não haveria controle de preços pelo mercado e não haveria estímulo à inovação. Até a Microsoft reconheceu que ficar sozinha não era bom negócio: apoiou publicamente a Apple em 1997. A empresa tinha em vista o processo antitruste que então corria contra ela. Ficar sozinha no mercado naquele momento era o argumento definitivo para perderem a causa, mesmo que a Apple falisse por culpa própria e não da Microsoft.

A situação deu uma virada parcial nos dez anos que correram. A Apple se recuperou e agora cresce rapidamente, o Linux e o software livre também crescem, e a Microsoft enfrenta problemas sérios para modernizar o Windows. Começou um fenômeno que eu jamais poderia imaginar nos anos 90: o surgimento de um segmento de imprensa anti-Windows e anti-Microsoft.
A impaciência dos colunistas de informática com o atraso no lançamento do Vista se expressa em artigos seguidos com a tese de que a MS não consegue mais avançar. As explicações são várias: incompetência no gerenciamento, excesso de ambição, conflito entre suportar as tecnologias velhas e desenvolver outras mais modernas, prazo de testes apertado... Toda semana aparece uma explicação nova. Agora que o novo sistema está quase pronto, o mote das matérias negativas passou a ser: "o Vista não vai funcionar direito", "Vai ter novos problemas de segurança", "Vai ser mais lento", "Vai atrapalhar o usuário para fazer suas tarefas" e assim por diante. Muitas vezes por pura especulação e não baseado em fatos reais dos testes. Há de se ler tudo com desconfiança e separar o que é crítica justa do que é anti-hype.
Alguns dos analistas que parecem estar em campanha contra o Vista são os mesmos que estavam em campanha contra o Macintosh no passado. O que é que há na cabeça deles?
Os catastrofistas usualmente não entendem da tecnologia como entendem do mercado, fazendo previsões que não funcionam porque se baseiam em condições do passado que não valem mais no presente. Os realmente desonestos, alguns dos quais até já foram denunciados por outros sites, propagam análises negativas com intenção de pressionar as ações da empresa para baixo e lucrar com isso. Mas eu acho que a grande maioria dos maledicentes é gente sem noção querendo aparecer. Afinal, má notícia vende mais jornal.

Continuando o tema do meu texto anterior, veja aqui mais "bad press" sobre o Zune. Cortesia ZDNet.

Viés - Parte 2

A Internet é grande, mas o jornalismo online de informática continua permeado por dois tipos de antiprofissionais: os redatores de sites que regurgitam sem reflexão o material fácil dos press-releases das empresas, e os que escrevem para apoiar "causas".

Infelizmente, no Brasil os pressrelisistas são a tonitruante maioria. Num meio já carente de volume de novidades, basta à empresa do ramo organizar um "evento" (reunião dos jornalistas na mesma hora e lugar, para simplificar e baratear a divulgação) e dar a cada um um "jabá" (amostra grátis do produto), acompanhado de um kit de informação técnica. Pronto: fama e fortuna com o mínimo esforço. A pressa, a preguiça e o gosto natural pelos mimos atraem o jornalista ao marketing da empresa como o escuro às baratas. E a falta de senso crítico ou de proporção garante que até o mais eloquente lixo digital ocupe espaço destacado nas páginas de sugestões de compra das revistas.

Os evangelistas são minoria, mas fazem um barulho grande devido à motivação implacável que os faz investir tempo e recursos na "causa". Acreditam genuinamente no produto e na ideologia de marketing a ele associada. Trabalham a seu favor sem esperar ou receber nada em recompensa. Quando a afeição via religião, deixam de admitir a possibilidade de contestação sóbria e crítica salutar. Enxergam-se como iluminados que acharam a solução perfeita, ao contrário ddas massas ignorantes, que são incapazes de decidir corretamente por si mesmas. Por isso, apostam na imposição de uma via única a todos os demais. Não querem um mundo com variedade, concorrência, alternativas. O objetivo final é a erradicação do que for diferente. Se os dogmas da fé são contestados por fatos reais que negam a exclusividade ou perfeição do produto idolatrado, os adeptos seguem firmes adiante, em casos extremos alienando-se e pregando apenas uns aos outros.
Esta descrição pode ser aplicada individualmente a fanáticos por PC/Windows, GNU/Linux, Apple/Mac, mas também a adeptos de videogames Nintendo ou Sony, ciclistas que preferem bikes hardtail ou full-suspension, e assim por diante, em todo subgrupo de produto tecnológico de massa com categorias distintas e definidas.
Detalhe: os evangelistas mais radicais podem não ser sinceros, apenas cínicos agitadores.

Entre os maiores sites gringos, os redatores do tipo pressrelisista mais ou menos se concentram na Cnet, e há bastantes evangelistas no ZDNet.
(O eufemismo para evangelismo na imprensa online é "foco".)
Em defesa da ZDNet pode-se dizer que os blogs de notícias contemplam todos os tipos de pontos de vista. O problema é que simplesmente não dá para ter certeza da sua fiabilidade, do quanto os autores se aprofundaram no assunto para não darem informação errada, quanto que está escrito é fato obtido de fontes reais e o quanto é boato saído da cabeça deles e de seus amigos, se eles não estão agindo pautados pelo seu interesse pessoal em favorecer ou prejudicar alguém.
Supostamente, o controle de qualidade é o sistema de comentários, mas na prática ele serve como simples campo de batalha entre os leitores e não acrescenta muito.
Acaba sendo preferível um sistema de notícias no qual você sabe de antemão que o viés é inevitável, como o Slashdot. Pelo fato de quase tudo que é postado ser discutido com alto nível de autoridade por grande número de leitores, há mais chance de fazer a verdade emergir, como queria aquele filósofo grego. Eu sou cínico e acredito que a verdade não pode brotar de dentro do ponto de vista superfocalizado de um grupo especialista, por melhores que sejam as intenções.

2006-11-16

Viés - Parte 1

Na encarnação anterior deste blog, eu me arriscava a escrever colunas de opinião de informática, focando no assunto "Apple/Mac", aproveitando meu envolvimento com a revista Macmania (hoje Mac+).
Parei de mexer com Mac (exceto o de casa), me distanciei (definitivamente) do mundo nerd dos PCs para me aproximar (temporariamente) do mundo nerd dos games, minhas motivações ideológicas para defender o Mac e resistir à MS ficaram obsoletas, o assunto envelheceu e morreu, encerrei o blog e o reiniciei depois com outras idéias.
Vinham convites para retomar o assunto informática com alguma coluna de revista. Preguiçosamente, declinei todos, menos um. Aceitei por impulso começar uma coluna num site brasileiro de informática. Sugeri inaugurar o espaço com um texto que já tinha escrito sobre o Zune, onde afirmava que o iPod da Microsoft não daria certo e dava alguns porquês. O editor achou o texto adequado e publicou.
No dia seguinte, o post estava crivado de flames de leitores. Mas não flames motivados por erros factuais na minha matéria. Flames porque eu tinha ousado especular que a Microsoft fracassaria com seu novo hype.
Sem perceber, eu estava falando a outro público, composto de nerds novidadeiros e, principalmente, fanboys do Windows. Que esperavam ler uma matéria fazendo coro com outros propagadores de hype, concordando que o Zune é uma novidade fantástica que vai a) destruir o iPod; b) humilhar Steve Jobs; c) provar que a Apple é uma farsa... Em lugar disso, falei que o Zune seria para a Microsoft um prejuízo comercial tão grande quanto o Xbox 360, e um vexame de marketing tão grande quanto o Origami (lembra? Não vou dar link, você vai ter de lembrar. Houve um momento em que só se falava disso na imprensa de PC na Internet. Cadê agora?).
Os pecezistas encheram os comentários com insultos pessoais. Alguns só me xingavam, sem nem expor o ponto em que discordavam do artigo.
No dia seguinte, em vez de criar caso, comuniquei ao editor que não contribuiria nunca mais. E nem mesmo no meu blog voltei a escrever análises de tecnologia.
E não se engane, este texto não é uma análise de tecnologia: é uma análise dos leitores de análises de tecnologia.

Não é necessário explanar a estranheza de um cidadão ser um fanboy do Windows num mundo em que, a cada dia que passa, o Windows se torna mais motivo de embaraço do que de orgulho para quem faz ou quem usa. Mas é menos surpreendente ainda que o fanboy não resista a atacar a pedradas e mordidas o primeiro que se atreva a tocar uma nota dissonante.
Faz parte da nossa cultura.
Em sites estrangeiros não demasiado técnicos, como a ZDNet, os posts costumam vir seguidos de flames, geralmente brigas entre usuários do site com tendências ideológicas opostas. A ideologia em questão é a plataforma de computador. Os que chutam o balde são pessoas obstinadamente devotadas a atacar a plataforma "contrária". Já têm a cabeça feita de tal forma que nenhuma notícia vai mudar o que pensam, e escrevem comentários na esperança algo vazia de convencerem mais alguém para a "causa". Mas esses são apenas um ou dois dentre as dezenas de leitores que se sentem motivados a acrescentar alguma coisa ao artigo. Por sua vez, estes são uma fração mínima das centenas de milhares que acessam o post a cada dia. Ou seja, os fanboys são uma minoria bem pequena, mas que faz um barulho desproporcional.
Num fórum brasileiro do mesmo gênero, se não houver moderador vigiando, o pau come solto. Em dez anos de Internet, sempre me impressionou como o radicalismo é violento por estes lados.
Uma explicação que encontrei é o fator "status pessoal". Nos sites gringos você não vê nada mais além de um nick por trás de uma opinião. É quase certo que jamais conhecerá a pessoa por trás do nick, ou sequer que voltará a ter uma trocas de palavras online com ela. Assim, a discussão fica centrada nas idéias. Estando exposta a sua idéia, o usuário do fórum fica satisfeito.
Nos nossos fóruns, é diferente. O peso pessoal é muito maior. Não entra em pauta somente a defesa de uma idéia, mas uma afirmação implícita sobre si mesmo. E a nossa sociedade, imatura e desorganizada, joga um peso enorme no status individual, na aparência, em demonstrações de força. Não é por menos, aliás, que o orkut é um sucesso desmedido no Brasil.
Achava que meu julgamento fosse demasiado severo por paranóia intelectual, mas vi o mesmo fenômeno da oposição violenta repetido em discussões de outros assuntos também. Esse caso do site de PC nem foi o mais notável, nem o último. Apenas foi o que terminou definitivamente de extinguir a minha vontade de escrever qualquer coisa para nerds de PC, depois de eu já ter concluído que não valia a pena escrever para gamers.

Voltando ao Zune, o aparelho está finalmente chegando ao mercado. Vou destacar dois artigos sobre ele. Um é uma prévia do software, feita pelo Engadget. O outro é uma análise crítica feita pelo Roughly Drafted.
Em que pese este último ter um forte viés pró-Apple, o texto dele é quase que uma versão estendida do meu, e não há um dado ou argumento lá que eu consiga refutar. A conclusão é impiedosa.
Flames devem ser dirigidos ao autor.

Update - Por sincronicidade, o site AppleInsider publicou uma tela de uma tentativa de instalação do Zune num beta do Windows Vista. Veja por si próprio o resultado!

Há descuidos e há descuidos

Minha rede Wi-Fi não alcança o banheiro no andar de cima da casa, aparentemente por causa da escada metálica, que absorve as ondas de rádio. MAS... tem uma rede aberta que pega justamente lá... a do vizinho! Todas as outras redes sem fio disponíveis no edifício (entre 8 e 10, dependendo da hora do dia) estão devidamente fechadas.
O nome da rede aberta é "Apple Network" não sei das quantas.
Ou seja, um macmaníaco relaxado ou inocente.
Alimento para aqueles mitos e clichês maldosos afirmando que os usários de Mac não entendem lhufas de informática.
Posso surfar a Internet pelo meu laptop impunemente, usando banda roubada dele. Se ele nem sabe que a rede pode ser fechada, então é de esperar que não saiba nem como detectar roubo de banda.
Ainda investigarei se é possível entrar no diretório público do Mac do vizinho (uma pasta pública de arquivos vem ligada por default) e deixar lá uma mensagem: "se liga, amigo, não pode deixar tudo escancarado; tem de fazer a lição de casa... ligar o firewall, a encriptação..."