Bendito subpixel rendering!A Microsoft prepara para este ano um novo sistema operacional e um novo pacote de programas de escritório. A empresa diz que a qualidade tipográfica é uma das metas principais do Office 12 e do Windows Vista. A peça fundamental da tipografia da MS é o ClearType, um método de visualização de fontes que melhora a legibilidade dos caracteres em monitores LCD, usados em laptops, celulares e cada vez mais em PCs desktop.
O ClearType é um sistema de
subpixel font rendering. Nele, cada elemento de cor (R, G e B) de cada pixel da tela é iluminado individualmente, de uma forma que também leva em conta a luminosidade dos elementos dos pixels vizinhos. O resultado visual é uma eliminação de serrilhados muito mais efetiva que no esquema tradicional de suavização, que consiste simplesmente em atribuir meios-tons aos pixels.
O ClearType foi anunciado em 1998 e implementado em 2000 no Reader, um programa de leitura de
e-books da Microsoft. Disponível a partir do Windows XP em 2001, infelizmente ele vem desligado por default e é desconhecido de muitos usuários que se beneficiariam dele. Muitos não gostam de suavização em geral porque faz as bordas das letras parecerem borradas; mas o ClearType aumenta muito a nitidez das bordas das letras em relação à suavização comum.
No Office 12 e no Windows Vista, a novidade será o lançamento de um conjunto de
seis fontes exclusivas, desenhadas para aproveitar todo o potencial do subpixel rendering. As fontes começam todas com C - Calibri, Cambria, Candara, Consolas, Constantia e Corbel - e representam três gêneros tipográficos. Calibri, Candara e Corbel são sem serifa; Cambria e Constantia são serifadas; Consolas é monoespaçada.
Notei que Constantia tem grande influência de Perpetua, a clássica fonte de Eric Gill, não se furtando a copiar diretamente o "a" romano e o "f" itálico. Corbel e Calibri são tão parecidas entre si que em geral só podem ser distinguidas pelos seus arremates em corpos maiores. Calibri é branda e arredondada, como se fosse fotocopiada; Corbel tem muito a ver com Frutiger. Cambria é praticamente uma concorrente direta da Adobe Minion.
As amostras linkadas no parágrafo acima, que foram produzidas usando o ClearType, comprovam a incrível capacidade dessas novas fontes de não apenas serem legíveis em corpos diminutos, mas também de terem estilos visuais claramente reconhecíveis nesses corpos. Todas oferecem boa diferenciação visual entre caracteres similares, como "1", "l" e "I". Elas respondem à incessante exigência em comum de leigos e técnicos por legibilidade, legibilidade, legibilidade... mas sem deixarem de ser elegantes. Elas representam um passo enorme além da mediocridade conformista e idiotizante da Arial, ou o mecanicismo tedioso e uniforme da Verdana. Não dá para imaginar que um documento de Word composto com essas fontes fique xumbregas.
No Windows, as novas fontes efetivamente ajudam a melhorar a qualidade de displays com resolução mais baixa. Esse benefício não acontece no Mac OS X, onde as letras parecem mais grossas do que deveriam, mesmo com a opção LCD ativada nas preferências do sistema.
Reinvenção da rodaPara saber o que a Microsoft pretende fazer, usualmente basta olhar para o que a Apple já fez. E é justamente o que acontece com o ClearType. A razão pela qual eu não dei primeiramente o
link oficial do ClearType é que a Microsoft tenta fazer você crer que se trata de uma invenção original dela, mas a técnica já era usada no Apple II para melhorar o visual dos displays de baixa resolução daquela época. A Microsoft reinventou algo que foi patenteado pela Apple em 1977.
A Adobe também tem sua versão da mesma tecnologia, com o nome
CoolType. Ela foi lançada pouco depois que o ClearType e produz resultados visualmente idênticos. O CoolType é usado no Acrobat Reader (multiplataforma) e nas preferências desse programa existe um passo-a-passo para ajustar o contraste das letras.
A Microsoft também lançou um controle de contraste, em 2002, na forma de uma
página Web e depois como um
painel de controle avulso, que recomendo a todos que usam laptops com Windows XP.
Entre 1997 e 2002, a Apple tinha um acordo de compartilhamento de patentes com a Microsoft e. ao mesmo tempo, baseou-se em tecnologia da Adobe para criar o Quartz, o modelo de visualização nativo do Mac OS X. Naturalmente, ela acabou também implementou o subpixel rendering como uma opção do Quartz. A opção fica bastante escondida do usuário, em System Preferences, seção Appearance, menu Font smoothing style, opção Medium - best for Flat Panel.
ClearType versus QuartzOs desenvolvedores do ClearType, que escrevem um
blog e apareceram em
entrevista de vídeo no Channel 9 da MSDN, revelam uma confiança fanática nas suas conquistas - afinal, eis um setor da MS que inventa alguma coisa! Mas não se abstêm de atacar a Apple e chamar o Quartz de inferior. É uma pena, porque as alegações mostram que eles não compreendem tão bem assim a rival, que no mínimo deve ser respeitada como uma grande responsável pelo estímulo de aperfeiçoamento da Microsoft.
Onde está o erro nas críticas? Basicamente, em não observar que existem diferenças de concepção da MS e da Apple sobre o que seja boa tipografia no monitor de um computador. A abordagem da MS é fazer com que as fontes fiquem legíveis em corpos pequenos na tela, otimizando o ClearType e envolvendo-se diretamente no design das fontes. Cada corpo de cada fonte tem o desenho adaptado para otimizá-lo em relação aos pixels individuais em que é desenhado. É uma escolha que beneficia os usuários comuns.
A abordagem da Apple (e também da Adobe) é simular com fidelidade o visual do texto impresso em qualquer corpo, em qualquer fonte, com exata uniformidade na forma. Isso significa que em alguns corpos partes das letras podem parecer menos nítidas, a fim de respeitar a métrica. É uma escolha que beneficia os artistas gráficos, os construtores do renome da plataforma.
O ClearType privilegia o uso dos tipos em condições comuns e previsíveis. Se por exemplo alguém tentar compor um texto num programa do Windows XP que tenha corpo quebrado, como 8,5 ou 8,314, o programa dirá que o número não é válido, forçando você a escolher um valor inteiro. Mas no design gráfico é normal deparar com textos em corpos quebrados, nem que seja ao dar zoom dentro do layout. Dependendo do ClearType, nessas condições as letras ficarão deformadas. Num Mac, pode-se escrever texto em qualquer tamanho ou mesmo inclinado, mantendo uma aparência sempre coerente com aquilo que sairia impresso. Essas características são próprias do sistema operacional e não precisam ser programadas para cada aplicativo.
Cada vez menos importanteEsses avanços na tipografia em telas digitais enfrentam um novo desafio: a sua crescente irrelevância. Os displays de computadores têm tido sua resolução paulatinamente ampliada, e logo terão quantidades de pixels tão enormes que começarão a competir em nitidez com o próprio papel impresso. Nessas condições, tecnologias criadas para resolver um problema de letras muito pequenas passam a ser relativamente irrelevantes.
Os primeiros monitores de Macs e o modelo de impressão PostScript da Adobe tinham por convenção uma resolução de tela de 72 ppi (pixels por polegada). Essa resolução era cômoda por estar dentro da faixa usual de uma tela de alta resolução da época, e pelo fato de uma polegada ser quase equivalente a 72 pontos (medida tipográfica), fazendo na prática com que um ponto equivalesse a um pixel e facilitando o raciocínio dos designers gráficos.
Eventualmente, a resolução dos monitores foi subindo e a convenção permaneceu em uso pela Apple e Adobe, enquanto a Microsoft passou a trabalhar com uma resolução padrão de 96 ppi, o que explica porque a mesma letra em determinado corpo em pontos no Mac e no Windows têm tamanhos diferentes, a versão Windows utilizando mais pixels (ou seja, com mais definição) que a versão Mac. Atualmente, a resolução mais comum em monitores é de 100 ppi (como, por exemplo, num monitor de 17" a 1260x960 pixels), mas pode alcançar e até ultrapassar 150 ppi em subnotebooks e smartphones.
Além de as fontes pequenas serem menos incômodas em telas tão nítidas, o maior problema passa a ser outro: o encolhimento da interface. Tudo está ficando muito pequeno na tela: menus, controles, ícones. A solução é uma interface escalável, que permita ao usuário ajustar o tamanho geral desses elementos. O Windows dispõe de uma escalabilidade rudimentar no seu controle de aparência visual baseado em "temas". O Mac OS clássico nunca teve escabilidade, mas no OS X já existe uma infra-estrutura técnica para isso e o recurso poderá estrear na próxima versão do sistema, Leopard. A escalabilidade da interface só funciona a contento se todos os elementos forem vetoriais ou desenhados em resoluções muito altas. Ambas as condições são possíveis no Quartz e têm um uso corrente no efeito de lupa do Dock do Mac OS X.