2006-02-28

Firefox estendido

No PC, o Mozilla Firefox é a escolha mais natural para browser. Mas como fica no Mac, que já tem o ótimo Safari, da própria Apple? O Safari funciona com todos os sites que preciso acessar, possui o melhor controle tipográfico, interface enxuta e empata em velocidade com o Firefox. E vem instalado com o sistema. Por que pensar em mudar?
Depois de voltar a usar um PC com Windows, fiquei inclinado a adotar o Firefox também no Mac. E não apenas porque as versões Windows e Mac funcionam de maneira idêntica, mas por causa do grande fator desequilibrador a seu favor: as extensões. Algumas são de tanta utilidade que até fica difícil surfar a Internet sem elas depois que você se acostuma. E quase todos funcionam igualmente no Windows, no Linux e no Mac OS. Dito isso, apresento minha lista de extensões imperdíveis do momento.

SessionSaver - Talvez o mais útil de todos. Memoriza todas as páginas que estavam abertas ao sair do Firefox e recarrega tudo do cache ao reabrir o browser. Funciona mesmo quando o programa dá pau e fecha sozinho. Páginas longas reabrem no exato ponto em que estavam abertas. Até posts de blog deixados pela metade são recuperados. Sensacional!

Adblock Plus - Não bloqueia todas as propagandas, mas já é alguma coisa.

del.icio.us - Talvez seja o incentivo que faltava para eu começar a usar esse serviço de bookmarks públicos que a Adri tanto gosta.

Amazing Media Browser - Serve para salvar no disco os movies embutidos nas páginas Web.

Download Statusbar - Substitui a janela dos downloads por uma statusbar com barrinhas indicando os downloads. Essencial.

Fasterfox - Acelera a carga das páginas e mostra o tempo de carga. Para os fanáticos por performance.

Viamatic foXpose - Visão de todas as páginas abertas, na forma de miniaturas. Para pessoas geeks como eu, que a qualquer momento têm em torno de uma dezena de tabs abertos, é útil para lembrar quais estava lendo ontem e esqueci pela metade. Sem falar que é visualmente muito chique.

PageStyle2Tab - Colore cada tab para ficar com a aparência do fundo da página. Bem útil para distinguir os tabs. Não fica lindo no Mac, mas também funciona lá.

Fission - Coloca a barra de progresso de download da página dentro do campo de endereço, como é no Safari.

PDF Download - Permite decidir o destino dos PDFs. Existe um plug-in similar para Safari.

Resize Search Box - Mais uma coisa do Safari reproduzida no Firefox. É um simples controle de largura para o campo de busca.

Fire FTP - Cliente de FTP integrado ao Firefox. Bonito, confortável e rápido.

Performancing - Editor de blogs compatível com vários sistemas de blogs.

Bookmarks Synchronizer - Sincroniza os bookmarks do Firefox entre vários computadores. Elimina um dos maiores inconvenientes de ter várias máquinas para trabalhar, que é meu caso.

Sugestões de extensões adicionais para instalar: dicionários online, controle de tabs, controle de scripts, controle de cookies, leitor de RSS. Existe até extensão para verificar se você está com a última versão de cada uma das demais.

O que faz falta?

Uma função intrigante, já inventada há muitos anos mas nunca implementada para valer, é um sistema para anexar uma camada de comentários a qualquer site e ler os comentários deixados por outros visitantes. Ainda não existe um sistema aberto e universal para isso; por enquanto, você só vai achar um punhado de sistemas independentes e incompatíveis. As primeiras iniciativas de sistema universal de comentários foram barradas por donos de sites que temiam (corretamente) a ameaça de interferência abusiva e incontrolável na sua comunicação pública. Mas hoje em dia a maioria dos sites de notícias inclui uma área para comentários dos visitantes, usualmente com um moderador.

2006-02-27

Por que eu deveria me surpreender?

Google Video vira repositório de vídeos de pegadinhas, brigas de rua e pornografia.

Basicamente, o fato cru confirma a obviedade tediosa de que gente como eu e você na Internet se compraz com "conteúdo" fútil ou controverso. Você pode usar a rede para aprender coisas novas, se divertir ou desperdiçar seu tempo irremediavelmente; a decisão é sua. Conheço pessoas que usam o Yonkis (um site que coleciona links de bizarrices) como página inicial do browser. Departamentos inteiros das empresas páram o que estiverem fazendo para ver uma curiosidade bizarra como o "fenômeno Katilce", a "entrevistaista da Ruth Lemos" ou o "Batman Feira da Fruta". Pára para ver, e passa semanas repetindo e comentando. Quando fui falar algo com o pessoal sobre as mortes causadas pela revolta dos muçulmanos com as charges de Muhammad, até me mandaram calar a boca porque o assunto era "sem graça". Na discussão sobre tipografia neste blog, por muito pouco não rolou o mesmo. Então tá bom.

Não estou, com estes comentários, ensaiando uma crítica cultural. Mas ouço tanta gente reclamando da péssima programação da TV e vejo praticamente as mesmas pessoas contribuírem para que a Internet adquira as características indesejáveis da TV. Com a diferença de que a Internet é assíncrona e o vídeo de atropelamento mortal ou de façanhas sexuais pode chegar ao meu email a qualquer hora do dia ou da noite.

O problema que o Google terá de enfrentar envolve censura. Além da baixa qualidade educativa média dos vídeos e a incapacidade de filtrar confiavelmente os pornôs, surgiu uma denúncia de que um vídeo mostrando procedimentos de soldados americanos no Iraque só pode ser visto em PCs situados fora dos EUA. Parece suspeito demais para ser coincidência. Mais ainda soba perspectiva da recente autocensura do Google na China.

Prospectores de bizarrices nada devem temer, todavia, pois quando o Google reverter via tencologia o seu problema de relações públicas, os vídeos podres irão todos para o YouTube e tudo bem.

2006-02-25

O verdadeiro concorrente é o chinês anônimo

Minha última ida à Santa Ifigênia não foi para comprar qualquer coisa em particular, apenas para dar uma olhada nos produtos à venda. Estiquei a visita ao Stand Center da Paulista.

O notebook HP Lance Armstrong, baseado no chip AMD Turion 1.8 (64 bits), tem a grife LIVESTRONG impressa do lado de fora e a assinatura do hipercampeão do Tour de France por dentro. Uma parte da venda do aparelho vai para a fundação criada pelo atleta para dar apoio às vítimas de câncer.
O Acer Ferrari inaugurou uma tendência. Computadores "temáticos" de grife vão ficar comuns. Aposto que quase nenhum geek nas redondezas tem idéia de quem seja o tal do Lance Armstrong, mas as pulseirinhas dele são onipresentes, certo? E o computador é bem bonito.
Quando olhei as especificações, fiquei positivamente impressionado. CD/DVD±RW, leitor de cartões Flash embutido, FireWire, Wi-Fi interno, disco de 80 GB, tela widescreen? Tudo por R$ 4 mil e pouco? Custa bem menos do que a Trek Madone utillizada pelo herói do ciclismo.
Me dá um laptop desses, uma camisa amarela e um capacete, por favor.

Uma coisa que noto facilmente ao passar os olhos por um balcão cheio de laptops HP, Acer, Asus, Itautec etc. é que quase todos carregam influência visual dos produtos Apple. São um pouco mais enfeitados, no geral são menos elegantes, têm mais peças externas, não são tão fininhos. Mas uma coisa é patente... Quando a Apple fazia laptops pretos e arredondados, todos os outros tendiam a ser pretos e arredondados; agora que eles exibem linhas retas e cores metálicas, os PCs também têm linhas retas e cores metálicas (mas mantendo a opção preta). A Asus tem até um notebook branco, que consegue ser mais branco ainda que o iBook. Parece coisa para se usar na cozinha ou num hospital.
Estou seguro de que os geeks que estão lá para comprar, preocupados com números, valores e siglas, não captam conscientemente esse fenômeno do design. Mais ainda porque nessas lojas não há Macs para fazer a comparação direta. Mas creia em mim.

E, já que estamos nesse assunto, me explique isto: os PCs de grife conseguem chegar aqui consistentemente mais baratos que os Apples, mesmo sendo igualmente importados e tendo de pagar exatamente os mesmos impostos que a Apple sempre aponta como culpada pelos preços ridículos dos Macs no canal legal. Ainda aguardo explicações convincentes.

Com considerável atraso, o mercado "alternativo" do iPod finalmente explodiu e hoje quase qualquer box das galerias tem iPods para vender. (E também os skins de silicone para tentar retardar a riscariada nos infelizes.) Mas uma quantidade maior de tocadores ainda é desses modelos anônimos chineses, com acabamento duvidoso, mas com talento tecnológico. O mais espantoso de todos é o que parece ser apenas um clone tosco do iPod Nano. Mas veja o que ele faz: com tela colorida e interface de ícones como um celular, ele toca vídeo, grava som e traz rádio FM. Exatamente as mesmas dimensões do Nano, veja bem. E os modelos que não copiam a Apple descaradamente? Bem... o modelo mais humilde com tela LCD também toca vídeo. E também tem rádio. Não vou comparar preços para não ficar chato.

O progresso dos tocadores de MP3 comprova que os pequenos fabricantes hi-tech chineses, aplicando o conhecimento de engenharia e os padrões de qualidade industrial alcançados fazendo produtos sob licença para os americanos, estão começando a se aventurar no design dos produtos de consumo e vão bater de frente com as grandes grifes. Especialmente custando tão menos.

O que pode dizer um macmaníaco em benefício de sua opção quando os produtos mais acessíveis de outras marcas trazem consistentemente uma maior variedade de recursos? O clone do iPod é um exemplo vagabundo, mas note bem: o HP Lance Armstrong tem até um leitor de cartões Flash. O notebook branco da Asus (que fabrica Macs na China sob encomenda para a Apple, você sabia?) tem uma webcam embutida, como o MacBook Pro, mas a da Asus tem uma articulação na base. Outros PCs permitem trocar o HD sem ter de desmontar nada. Outros trazem um útil controle de rolagem no trackpad. Outros oferecem áudio 5.1 e mesmo 7.1.
No campo do hardware, seria melhor a Apple não bobear, porque excesso de purismo no design pode deixar ela besta. Falta elegância nos concorrentes? Talvez. Mas eles estão oferecendo mais por menos. Eu adoraria um MacBook com leitor de cartão de memória embutido, faixa de rolagem no trackpad e DOIS botões em vez de um só. Caso para se pensar.

2006-02-23

Trojan é isso aqui

Aproveitando que todo mundo na Internet que não está falando da Katilce está falando de malware, eis um fino exemplo de trojan, que encontrei numa das minhas caixas postais na terça-feira. Um montão de gente já viu isso, certo?

De: ruthes@ig.com.br
Para: (conjunto de letras geradas automaticamente, interpretadas pelo provedor como pertencentes à minha conta de email)
Assunto: A5I5UT - [Departamento de Cobranças] - D8C8UU

Departamento de Cobrança

Conforme solicitação, estamos enviando o link onde detalhamos os valores correspondente a sua divida que ainda está pendente em nosso estabelecimento. Para maiores esclarecimento, acesse o conteúdo detalhado no link abaixo.

--Visualizar Carta de Cobranca--

Helders Advogados Associados
Av. Brigadeiro Faria de lima, 640 Centro
Direito Penal, Comercial e Trabalhista
helders_advs@hotmail.com


Ouse clicar no link e abrirá uma página Web igualmente tosca, hospedada no kit.net, contendo uma repetição da ameaça de cobrança e o link de download do trojan:

Comunicado Urgente:

Prezado Sr(a), Conforme vossa solicitação, estamos enviando um demonstrativo dos valores que estão sendo cobrados de V. S.ª, lembrando ainda que o não pagamento poderá gerar processo judicial. Estamos à disposição para eventuais esclarecimentos através do nosso link abaixo. Atenciosamente, Escritório de Advocacia e cobranças.

--Para maiores detalhes, e ou imprimir fatura do debito, clique aqui:--

Departamento de Cobrança
Williaws Borges Freitas
Belo Horizonte, Janeiro de 2006


Finalmente, o trojan.
Como ele é um programa de Windows (está bem claro que ele foi gerado pelo Microsoft Visual Studio), destrinchei o código no Mac OS X, onde é incapaz de rodar, sem o mínimo desassossego. Como prova, eis alguns strings de interface e códigos legíveis do arquivo (sem edição, mantendo cada um dos inúmeros erros de português):

This program cannot be run in DOS mode.

HKEY_CURRENT_USER\Software\Microsoft\Windows\CurrentVersion\Explorer\Shell Folders

HKEY_LOCAL_MACHINE\SYSTEM\ControlSet001\Services\SharedAccess\ParametersFirewallPolicy\StandardProfile\EnableFirewall

O Banco do Brasil, está implantado mais um modulo de segurança nas transações através da internet. Agora você poderá usufruir da mais moderna tecnologia em transações on-line. Para aderir ao sistema de acesso super seguro, basta seguir os procedimentos abaixo:

Novo sistema de segurança do Internet Banking Caixa
Clientes da caixa agora poderá desfrutar no novo sistema de segurança recentemente implantado, com este novo sistema, o cliente contará com a mais moderna técnica de proteção em ambiente totalmente seguro. Aderindo ao novo sistema de segurança, você estará em primeiro plano, todos os processos do sistema operacional ficará aguardando você finalizar a sessão entre o seu computador e o servidor da caixa, impedindo assim que qualquer virus ou trojan possa funcionar enquanto você acessa a sua conta. Para sua maior segurança, recomendamos que você faça a sua adesão neste momento, para isso basta clicar no botão continuar logo abaixo:


Informe a senha de auto-atendimento, composta de 8 digitos
Favor Informar Sua Senha de 8 Dígitos
Data de Nascimento (dd/mm/aaaa)
Nome da Mãe
CPF do Titular da Conta
Informa a senha do cartão de 6 digitos
Favor Informar a Senha do Seu Cartão

Senha Internet
Confirme a sua senha de internet

Assinatura Eletrônica
Informe a sua assinatura eletrônica para finalizar.

Carregando modulos de segurança...
Inicializando Processo de Autenticação Segura...
Parabens, apartir de agora você pode contar com o novo sistema de segurança !!!

VS_VERSION_INFO
VarFileInfo $Translation
StringFileInfo H040904B0
CompanyName TESTE0
ProductName ultimo
FileVersion 1.000
InternalName pagfatura
OriginalFilename pagfatura.exe


Como obviamente não rodei o programa, não sei como não dá para notar que é estranho pedir uma fatura de cobrança e obter um falso aplicativo de home banking. Também não sei se ele é capaz de usar a conta de email de quem baixou para gerar spams automáticos propagando o scam. O certo é que, após arrancar as senhas bancárias do otário da vítima, o trojan envia a informação colhida para um servidor utilizado pelo bandido. Note que o programa não "rouba" dados: ele os adquire pela boa vontade da vítima. Esse tipo de crime é conhecido como phishing.

E mesmo assim, você se pergunta, como é que valeria a pena um golpe desses? Simples: porque alguém sempre cai nele, por mais toscamente programado e pior escrito que seja. Para encher o bolso do vigarista, não precisa que seja uma parcela muito grande dos usuários de email dos grandes provedores. E imagino que muitas vítimas não prestam queixa à polícia por vergonha, outras tantas porque esquecem o trojan e não chegam a entender o mecanismo da fraude. Resultado: o Brasil é o quinto país no ranking de spams criminosos e líder na América do Sul. No mundo todo, enquanto os spams tiveram um declínio, dobrou a quantidade de ocorrências de phishing apenas no ano de 2005.

Existem duas delegacias em São Paulo que tratam de crimes eletrônicos: uma da Polícia Federal (crime.internet@dpf.gov.br) e uma estadual (a Delitos praticados por Meios Eletrônicos, que faz parte da 4ª DIG do DEIC, sem site na Web).

2006-02-20

Vírus no Mac, ainda não

 
Fatos apurados:

1. O Leap-A é um Trojan, não um vírus. Por definição, um programa é vírus quando pode se reproduzir sozinho, e para isso ele precisa tirar proveito de uma brecha de segurança no sistema. Trojan é um conto-do-vigário digital, programa malvado que engana você. O Leap-A conta unicamente com uma brecha de segurança situada entre o teclado e a cadeira: o usuário. Segundo relatos, ele viria disfarçado como uma coleção de capturas de tela. Desde quando captura de tela é programa executável? Todo dia alguém recebe um scam do mesmo tipo pelo email, um link para baixar um malware dizendo que são fotos da modelo da última Playboy, um relatório de dívidas pendentes etc. Você só clica no link se for incapacitado para usar um computador sem supervisão adulta.

2. No Windows é possível uma instalação colocar executáveis no sistema sem o conhecimento do usuário. Eu confirmei isso neste fim de semana, ao baixar um shareware para o Windows. Meu avast! avisou que a instalação colocaria um adware no sistema. Pude cancelar a instalação antes de começar, jogar o programa no lixo e rogar uma praga ao desenvolvedor.
Por que uma instalação furtiva não pode ocorrer no Mac OS X? O sistema não confia no instalador e sempre avisa o usuário, pedindo senha para instalar qualquer coisa. Curiosamente, mesmo ao baixar programas para Windows (que não rodam dentro do OS X), o browser Safari detecta o programa (mesmo que esteja dentro de um arquivo compactado) e, antes de começar o download, avisa que ele contém um executável e pede permissão para baixar. Simplesmente não entendo como pode não existir uma precaução tão primária no próprio Windows, obrigando as pessoas a complementar o sistema com programas tapa-buracos de terceiros, e isso já há muitos anos.

3. O Leap-A só se propagaria pelo iChat através da rede local, não através de chats normais, e mesmo assim, só se o usuário habilitasse o Bonjour (autoconfiguração de rede) para o iChat, recurso que vem desligado por default.

4. O worm "conceitual" de Bluetooth aproveitaria uma falha do sistema que foi consertada num update automático há 7 meses.

5. O uso de processadores Intel não aumenta em absolutamente nada o risco de segurança no Mac, pois o sistema abstrai o hardware completamente dos executáveis.

Asserções:

1. As recentes notícias na mídia da descoberta de um vírus no Mac estão erradas.

2. Quem insiste na história do vírus é gente sensacionalista; gente simplesmente mal informada; gente disposta a atacar a Apple por ela estar em evidência; e mais provavelmente, todas essas coisas juntas em variadas proporções.

3. A indústria de antivírus se beneficia da expectativa crescente de vírus no Mac, especialmente no momento em que a Microsoft começa a concorrer diretamente com elas no PC.

4. Alguma hora um vírus verdadeiro pode aparecer, mas o Mac OS X tem cinco anos no mercado e zero vírus até agora. Não creio que se aplique a tese de que os malwares inexistem porque a base de usuários é pequena, porque contra esse fator pesa a popularidade em alta da Apple e a glória de pioneirismo que iria para o autor do primeiro malware que desse certo. O espantoso estardalhaço causado pelos alarmes falsos comprova que há grande popularidade a ser colhida por aquele que conseguir.

5. Pondo de lado análises humanas de ordem psicológica, quem quiser está livre para detestar o Macintosh, o OS X ou seus usuários, mas precisa ser idiota para ficar contente ao descobrirem um primeiro vírus para Mac OS X enquanto o Windows sofre com centenas de milhares de vírus, inclusive um que, incrivelmente, roda nos betas do Vista. Independentemente da sua ideologia, o mundo da computação seria muito melhor com menos vírus.

6. O fato de o antivírus da Microsoft ser um produto à parte e pago, deixando muita gente desprotegida de propósito, é moralmente comprometedor, já que o Mac OS X (e também o Linux e outros sistemas) comprovam que os vírus são, em primeiro lugar, resultado de mau design do sistema, não uma fatalidade inescapável. Mas, vendo a situação pela fria lógica corporativa, a MS não pode lançar um produto de graça e eliminar subitamente uma indústria milionária de antivírus, pois isso a levaria a enfrentar novas acusações de que está alavancando seu monopólio no PC para destruir a concorrência.

7. Por outro lado, como já foi comentado por aqui, a MS pode aproveitar o caos da segurança no Windows como argumento para vender o Vista, que teve sua parte de Internet remodelada para oferecer mais segurança. E de quebra, abre caminho para a implementação de DRM pesada no PC.

Sugestões:

1. Informação técnica detalhada e confiável pode ser achada aqui.

2. Se você quer fazer proselitismo de plataforma nos meus comentários, não perca seu tempo. Toda a discussão básica já foi feita, por exemplo, aqui.

2006-02-16

It's more fun to compute

Faz exatamente um mês que estou com o velho OmniBook XE, e ele tem servido a dois propósitos: plataforma de comunicação (chat e email) e teste de programas inexistentes no Mac.
Todos os programas de chat populares (exceto o ICQ) estão instalados e rodando. Ontem fiz um experimento sensacional de chat de vídeo pelo Skype, e também já fiz o mesmo com o Yahoo Messenger e Microsoft Messenger (versões 5 e 8 beta). Usei uma câmera USB da LG que o Altemar me comprou por 100 reais no ano passado. Nem dá para comparar essa flexibilidade toda com o pouco que temos de videoconferência no Mac, preso miseravelmente ao monopólio iSight/iChat. Para chat de vídeo entre Mac e PC/Windows usamos o iVisit, que é multiplataforma. Mas o pioneiro da videoconferência está ficando para trás. A experiência no Skype já é melhor.



O Windows XP Pro SP2 vai muito bem, graças a três programinhas valentes: avast! Antivirus, Spybot-Search & Destroy e Registry Mechanic. O Spybot me permite autorizar ou negar em tempo real qualquer mudança no registro; mesmo assim, ao cabo de 30 dias o Registry Mechanic achou 318 erros acumulados, quase todos referentes a programas desinstalados que deixaram pastas vazias (ou nem tanto) no menu Start e outros detritos diversos. Descobri que o AIM (o mesmo serviço usado pelo iChat no Mac) mantém dois itens de startup, mesmo que você diga ao maldito que não quer que ele inicie junto com o Windows. E o avast, que é gratuito, bloqueou um vírus de mail e, no dia seguinte, um Trojan - que, incrivelmente, estava guardado no HD do Mac, acessado via rede, e não dentro do PC. Claro que o Trojan nunca iria rodar no Mac, mas o fato de ele ter sido baixado acidentalmente, junto com outro download qualquer, demonstra o perigo. Ainda não existe vírus para Mac, mas isso não isenta os macmaníacos de terem cuidado, especialmente no email, para não infectar os colegas que usam PCs.
Os downloads para o Windows podem ser feitos no browser do Mac e armazenados no HD do Mac. Coisa fina.
Para quem tem horror a Windows, tenho aqui os instaladores do Ubuntu 5.1 (cortesia do Jaccon e do Edu Lima), mas falta HD para fazer a brincadeira. É animador ver que o CD Live de demonstração (que roda a partir do CD) roda impecavelmente no notebook.
Aproveitando a experiência, elaborei uma edição atualizada do meu velho "manual de migração" nos dois sentidos, Mac-Windows e Windows-Mac, apontando as diferenças mais interessantes entre os sistemas, e será postado aqui em breve.

A última da RIAA

Agora a associação das gravadoras dos EUA afirma que você não pode fazer backup de um CD de música nem ripá-lo para ouvi-lo num iPod, em flagrante contradição com o anteriormente aceito legalmente como "fair use".
Agora é só uma afirmação sem base legal, no futuro pode virar uma lei visando remover totalmente a propriedade dos consumidores sobre o conteúdo da mídia audiovisual.

Intervenção urbana eletrônica

Idéia genial, diretamente de NYC: Throwies, grafites eletrônicos de baixo custo.
Junte um LED com uma bateria de relógio e ímã e grude-o em lugares seletos na cidade.

2006-02-15

Que preços são esses?

Semana passada o pessoal da PC Mag viu um punhado de lançamentos da Apple e teve acesso aos preços dos novos produtos. Não digitei nada errado, é isso mesmo:

Dólar norte-americano
Câmbio oficial de hoje: R$ 2,138

iMac Intel
USA: US$ 1400
Brasil: R$ 6.700
Sobrepreço: 224%

MacBook Pro
USA: US$ 2000
Brasil: R$ 12.700
Sobrepreço: 297%

Que eu me lembre, o imposto de importação é de 50 por cento, não algo entre 200 e 300 por cento. Mesmo tirando uma margem generosa para a revenda, resta uma diferença que se poderia chamar de escandalizante. E o fato de essa diferença ser tão discrepante entre os dois modelos só adiciona ao escândalo.

Quem me conhece há tempo sabe que fui um dos editores da Macmania e há anos testemunho uma atuação medíocre da filial brasileira da Apple, bem como a elitização colateral da plataforma Mac, a quebra gradual das revendas de Mac e, mais recentemente, a falta de controle sobre o comércio do iPod. Mas desta vez eu gostaria de ver algum tipo de esclarecimento público sobre o que é que está havendo. Quero especificamente que alguém apresente provas oficiais e convincentes de que: 1) os preços acima não são abusivos e expressam uma filosofia comercial coerente; 2) a Apple Brasil se mantém viável, mesmo alienando os compradores privados de Mac e iPod e na prática convidando-os ao contrabando; 3) busca ativamente maneiras de tornar os produtos mais competitivos, como redução de taxas e contratação de uma montadora no país.

Se não se comprovar nenhum dos três itens, é caso de discutir aberta e francamente até descobrir exatamente quem na Apple Brasil leva vantagem com essa situação bizarra. Porque não há justificativa para que continue assim. A sede da Apple pretende vender 10 milhões de Macs este ano, contra 4 milhões em 2005, e o iPod chega a 40 milhões de unidades vendidas no mundo. De que maneira ela irá crescer no Brasil? Há interesse sincero em vender mais pelo canal oficial? Há planos de competir em condições de igualdade com o mercado de PC de grife, em vez de permanecer apenas ordenhando os clientes corporativos e fazendo pose na FNAC?

Update - Eu tenho uma câmera Sony DSC-T7, aquele modelo ultrafino que tem sido bastante propagandeado, pois a Sony mandou montar uma porção delas em Manaus (exatamente o tipo de medida que, segundo os consumidores da Apple, abaixaria salutarmente o preço dos Macs).
O preço de rua da Sony DSC-T7 nos EUA é a partir de US$ 299 (R$ 632,68).
O preço nos chineses do PromoCenter é em torno de R$ 1400 (US$ 660). Sobrepreço: 221% - e ainda achamos barato.
O preço na FNAC e na Fast Shop é o mesmo: R$ 2499 (US$ 1181). Sobrepreço: inacreditáveis e inaceitáveis 395%.
Compare e pense.

2006-02-13

Interface humana, parte 6: o futuro próximo

Multi-Touch Interaction Research

Não é da Apple.
Não é da Microsoft.
Não é da Sun.
Não é da Nintendo.
É de um grupo de cientistas universitários.
Faz todos os outros passarem vergonha.

Duplipensar

Transcrições das Vejas das últimas semanas.
Grifos meus.

Na elegia ao falecido diretor de redação da revista, Tales Alvarenga:

Tales deixou lições de humildade, coragem, honestidade e lealdade no exercício de uma profissão em que a manutenção desses valores sofre tentações cotidianas. Ele não apenas os manteve intactos, como os transmitiu pelo exemplo e pela incansável pregação aos jornalistas das redações que dirigiu. Sua contribuição a VEJA é inestimável. Tales destronou o texto acusador e humanizou o tratamento editorial da revista. ...


Traduzindo: práticas editoriais que visam interesses políticos e comerciais são, oficialmente, "tratamento editorial humanizado". Quando são praticados pelas revistas concorrentes, podem ser chamados pelos seus nomes mais conhecidos e mais feios. Exemplo: o que se falou durante as recentes brigas da Veja com a IstoÉ.

Na análise da polêmica das charges de Maomé:

Não há nenhuma razão insuperável pela qual muçulmanos e ocidentais não possam conviver pacificamente. Isso exigiria que cada parte examinasse suas idéias sobre a outra. Em especial, contudo, os muçulmanos precisariam encontrar um jeito de se ajustar á vida moderna.


Tradução: "Os ocidentais e os muçulmanos não se entendem, mas toda a culpa é toda dos muçulmanos. A nossa vida moderna é a correta. A dos muçulmanos está errada. Eles terão de aprender o nosso jeito." Ranço autoritário, servidos?

Pelo bem da concisão deste blog, não vasculhei as numerosas e constantes menções hostis ao Chávez.

2006-02-09

O futuro do Google Earth

Enquanto ficam lá disputando primazia com o LiveEarth da Microsoft, um pessoal na Europa já está bolando mapas que detalham cada telhado de cada casa de uma cidade.

Descobri esse programa por uma das aplicações práticas dele, uma simulação 3D da cidade de Barcelona.
Molt bonic això! Però cal tenir un ordinador gaire fort.

2006-02-08

Tecnosfera e infosfera

Barbão escreveu sobre o fenômeno da tecnosfera. É um nome genérico que se aplica àquela "camada" de aparelhos eletrônicos "essenciais" que a gente carrega de lá para cá, quase como uma continuação da vestimenta. Celulares, câmeras, videogames de bolso, notebooks, flash drives, iPods...

Essa idéia em si é bastante óbvia. O que não é tão óbvio é que a idéia do que é um geek está sendo redefinida através dos componentes da tecnosfera.
Primeiro, façamos duas definições.
Pessoas normais, aqui, são aquelas que não são loucas por tecnologia, que podem confundir Web e Internet sem que isso arruine suas reputações.
Geeks são, naturalmente, tecnomaníacos; mas poderíamos melhor dizer que geeks são simplesmente as cobaias e os focus groups das pessoas normais em assuntos de tecnologia pessoal. Basta olhar o que usa um geek de hoje para ter idéia do que uma pessoa normal usará daqui a meses ou anos.
É o geek que está ficando mais normal, ou a pessoa normal que está ficando mais geek?

Por exemplo, quem tem um celular com câmera embutida e um iPod já não pode ser enquadrado na categoria dos geeks. É só gente normal com bastante dinheiro. Apenas dois anos atrás, porém, seria classificado solidamente como geek.
Smartphones e notebooks ainda caracterizam o portador como geek, caso sua profissão não seja executivo de negócios.
Verdadeiros geeks chegam ao trabalho com um HD portátil e descarregam downloads feitos em casa. E, na via inversa, carregam trabalhos para concluir em casa. Para pessoas um pouco menos geeks, o iPod também serve nessa função. Memory key é para gente normal, já não é preciso ser geek para entender e usar um.
Pessoas normais compram um PSP e jogam videogames nele. Pessoas moderadamente geeks dão downgrade no firmware para poder rodar certos jogos. Pessoas muito geeks compilam o Linux para rodar nele.
Som portátil não tem mais nada de geek, nem mesmo o mais high-tech. Os foninhos brancos do iPod já são presença maciça nas calçadas mais ricas da grande cidade. Em qualquer ônibus Campo Limpo-Aclimação ou Jaçanã-USP invariavelmente há dois ou mais jovens portando, sem receio de chamarem a atenção, aparelhos de CD do tipo que toca discos de MP3 gravados em casa.
Os aparelhos pessoais mais exóticos que carrego sempre são o relógio de pulso com cardiofrequencímetro e um pequeno chaveiro que combina um laser com uma lanterna de LED azul. Itens irremediavelmente geeks, porém inusuais.

O que um geek faz quando percebe que está carregando objetos demais - mouses, DVD-Rs, webcams, acessórios etc. - entre a casa e o trabalho? Trata de ter dois de cada, um em cada lugar. Tudo em nome da comodidade de uma experiência de computação consistente. Poderíamos falar aí em "transposição de tecnosfera".
Há a relevante diferença de que em casa, dispondo-se de uma rede Wi-Fi privada, dá para surfar a Internet deitado na cama ou sentado no banheiro - sendo este, segundo o Barbão, um dos grandes prazeres da vida.

A tecnosfera de aparelhos e gadgets implica um transporte físico, mas o domínio virtual da informação pura está potencialmente presente em todo lugar. Entre num McInternet qualquer e responda o seu email de lá como se estivesse em qualquer outro computador conectado à rede (com GHz e kbps suficientes, naturalmente).
Esse aspecto ubíquo da informação é a infosfera. Cada vez mais as aplicações de informação pessoal em computadores são baseadas na rede. Dá na mesma atualizar o orkut ou conversar pelo Skype de casa ou do trabalho (caso a empresa não proíba o chat por achar que atrapalha a produtividade).
A tendência futura é que todos os aparelhos - além de celulares, também as câmeras digitais e tocadores de som portáteis, em princípio - possam se comunicar uns com os outros e com a infosfera global, sem fios.
A coleção de cartões de plástico que habita a sua carteira é também uma manifestação da infosfera, porém vinculada mais fortemente à corporação que a emitiu do que ao portador.
Como a localização física das informações que compõem a infosfera é distribuída e incerta (e, na prática, irrelevante), é possível dizer que a infosfera é da mesma amplitude das órbitas dos nossos satélites de comunicação. Ou seja, nossos bits são globais.
Enquanto os aparelhos eletrônicos ficam velhos e obsoletos e precisam ser substituídos constantemente, a informação pessoal tende a se perpetuar, pois a rede é estruturada para promover a persistência da informação. Assim, não é prudente colocar o escopo integral da sua vida pessoal na Web. Tudo o que você carregar num servidor pode um dia ser usado contra você.

2006-02-06

Tipografia digital, parte 2: a nova Arial

Em 1983, a typefoundry Monotype lançou Arial, uma fonte digital para impressão a laser. Naquele tempo, Helvetica era uma fonte padrão nas lasers e a Arial surgiu para ser um clone mais barato da Helvetica. Arial foi desenhada para se encaixar exatamente no mesmo espaço da Helvetica, letra por letra, a fim de permitir a substituição de impressoras sem alterar o fluxo de texto nas páginas. O desenho dos caracteres da Arial, bem mais rústico que o de Helvetica, foi minuciosamente "tunado" para compensar a baixa qualidade de reprodução das lasers de então.

A Microsoft incluiu Arial no conjunto de fontes básico do Windows 3.1, em 1993. Posteriormente, Arial foi promovida a Web Core Font, o que lhe deu status instantâneo de celebridade tipográfica na Internet. Nos anos seguintes, uma legião de pessoas de todos os ramos de atividade adotou Arial como fonte única para todo tipo de trabalho. A combinação da onipresença do Windows com a disponibilidade de ferramentas de design para leigos resultou na monopolização e supersaturação do espaço visual por trabalhos feitos em Arial. Certamente foi um destino que o criador da fonte, Robin Nicholas, não tinha como prever para ela. O desenho da Arial é adequado para impressoras laser de 300 dpi e monitores de 72 ppi, mas não para faixas, letreiros, anúncios, logos e textos em publicações. Arial tem sido constantemente condenada e ridicularizada por designers gráficos, tanto pelos seus atributos visuais como pela sua história controversa e pelos abusos na utilização.

Com o sucesso comercial da Arial, a Monotype (adquirida pela Agfa) lançou versões Unicode e versões adicionais suportando múltiplos idiomas, além de novas variações de pesos, tornando-a uma das fontes mais versáteis para uso em computação. Mas a Microsoft reconheceu um potencial não realizado da visualização e legibilidade de fontes em computadores, e encomendou ao designer Matthew Carter novos tipos que tivessem melhor leitura e maior qualidade estética. O resultado foi uma família de fontes da qual os membros mais proeminentes são Tahoma e Verdana. A segunda é uma versão mais recente e mais estreita da primeira; Verdana é usada em milhões de websites e Tahoma é a fonte padrão do Windows XP.

A Monotype ainda teve a audácia de clonar Palatino, a obra-prima do calígrafo e tipógrafo alemão Hermann Zapf. Ele protestou furiosamente contra o clone, chamado Book Antiqua; a Microsoft o apaziguou licenciando também a Palatino. Só que manteve, de forma um tanto bizarra, Book Antiqua no rol de fontes do Office, talvez a título de manter a compatibilidade com documentos criados nessa fonte.

Em tempo, cabe lembrar que existem fontes alternativas para uso com Software Livre. São similares, porém não cópias diretas, das que se encontram no Mac OS X e no Windows. Aqui está uma lista detalhada de quais fontes no LInux substituem quais aos se transpor materiais criados nos outros sistemas.

Abram alas para a nova Arial

Chegamos enfim à polêmica do momento. Segoe UI, a fonte oficial do Windows Vista, é uma adaptação para a tela do PC da atual fonte corporativa oficial da Microsoft, Segoe, licenciada da Monotype. (UI significa User Interface.) Pois a primeira coisa que chama a atenção sobre Segoe é que se trata da um clone idêntico, uma chupinhação descarada da fonte Frutiger, desenhada pelo artista gráfico suíço Adrian Frutiger e publicada pela Linotype em 1976.

Quando a Microsoft substituiu Franklin Gothic por Segoe em sua comunicação visual, há dois anos, ninguém comentou nada; afinal, parecia óbvio que a fonte usada era Frutiger, a favorita dos bancos e corporações que buscam parecer sérias e modernas. Mas quando apareceram os primeiros betas do Windows Vista (então chamado Longhorn) exibindo nas janelas e menus uma fonte chamada Segoe UI e creditada à Agfa Monotype, um punhado de designers gráficos se ergueu em indignado protesto.

Um desenvolvedor da Microsoft se defendeu afirmando que o design de Segoe se diferencia e vai além de Frutiger, pois contém caracteres itálicos autênticos e não apenas as letras normais inclinadas no lugar de itálicas. Essa alegação é ignorante ou de má-fé, pois a versão atual da Frutiger - Linotype Frutiger Next - contém um conjunto de itálicas verdadeiras e foi lançada em 1997, oito anos antes de Segoe.

Temos aqui um caso lamentável de plágio reincidente: Segoe UI, Arial e Book Antiqua são todas cópias de criações alheias, sempre produzidas pela Agfa Monotype e sempre adotadas pela Microsoft, presumivelmente para não pagar royalties pelas versões originais. No caso da Arial, o criador de Helvetica (o suíço Max Miedinger) não estava mais vivo para se defender. Já Hermann Zapf teve a compensação de ver sua fonte original licenciada. E Adrian Frutiger, já octogenátio, porém ainda atuante no ramo da tipografia, como fica?

Curiosamente, todos os designers copiados são europeus, e tanto a Agfa quanto a Linotype têm sede na Alemanha. Outro detalhe intrigante: nos Estados Unidos o copyright sobre fontes só protege o nome da fonte, não estabelecendo nenhum direito sobre os desenhos das letras.

O design de Segoe, por ter uma referência de alto nível técnico e estético, é afortunadamente superior ao de Arial. Mas em termos de mérito moral, ela já está sendo linchada [link em alemão] no mundo do design.

De tanto fuçar, encontrei a informação que elucida o mistério de como a Microsoft conseguiu se meter nessa confusão. A nova identidade visual da Microsoft foi elaborada por uma agência chamada Ascender Corporation, que é o nome comercial de um ex-designer da Agfa Monotype chamado Steve Matteson. A página também informa que ele participou da conversão de Arial para o formato TrueType. Mais digna de nota no portfólio desse sujeito é a identidade visual da Agilent, uma spin-off da HP. Pois bem, a fonte corporativa da Agilent é um clone de... Univers, que também é de autoria de Adrian Frutiger! E também foi "desenvolvida" na Agfa Monotype!

A cara-de-pau é infinita. A fonte em questão, além de não ter nada de exclusiva, é uma das mais populares do planeta. Os diretores da Agilent precisam ter sido muito míopes para cair nessa. Mas como julgar então a Microsoft, que já "caiu" alegremente três vezes? Qual é a necessidade de uma corporação bilionária se arriscar à execração pública licenciando repetidamente fontes chupadas de outras, prática que não é mais do que um gênero bastante visível de pirataria? E com que moral a mesma corporação se lamenta pelos piratas de software, se no design do software utiliza outros pesos e outras medidas?

Como andam as coisas na Apple

Não é nada fora do comum imaginar que a Microsoft recorreu a um clone de Frutiger para sua nova imagem corporativa simplesmente porque, pouco antes, a Apple adotou uma fonte similar a Frutiger. E de fato, a Apple adotou em 2002 a Myriad, da Adobe, em substituição à datada Apple Garamond. Myriad tem influência óbvia de Frutiger, embora ainda se possa distinguir as duas sem muita dificuldade. Alguns designers pensam diferente e não vêem em Myriad nada além de mais uma cópia de Frutiger. A versão condensada de Myriad é a fonte oficial da Adobe há pelo menos 15 anos. Segoe tem em comum com Myriad os pingos redondos nas letras "i" e "j", que em Frutiger são retangulares.

As interfaces do Mac OS X e dos iPods com tela colorida utilizam uma variação de Lucida Sans (disponível também no Windows), não Myriad. Nos corpos diminutos em que aparecem na tela, as duas fontes são suficientemente parecidas entre si para que eu me pergunte porque não optaram logo por apenas uma delas para todos os usos.

Tipografia digital, parte 1: ClearType

 
Bendito subpixel rendering!

A Microsoft prepara para este ano um novo sistema operacional e um novo pacote de programas de escritório. A empresa diz que a qualidade tipográfica é uma das metas principais do Office 12 e do Windows Vista. A peça fundamental da tipografia da MS é o ClearType, um método de visualização de fontes que melhora a legibilidade dos caracteres em monitores LCD, usados em laptops, celulares e cada vez mais em PCs desktop.

O ClearType é um sistema de subpixel font rendering. Nele, cada elemento de cor (R, G e B) de cada pixel da tela é iluminado individualmente, de uma forma que também leva em conta a luminosidade dos elementos dos pixels vizinhos. O resultado visual é uma eliminação de serrilhados muito mais efetiva que no esquema tradicional de suavização, que consiste simplesmente em atribuir meios-tons aos pixels.

O ClearType foi anunciado em 1998 e implementado em 2000 no Reader, um programa de leitura de e-books da Microsoft. Disponível a partir do Windows XP em 2001, infelizmente ele vem desligado por default e é desconhecido de muitos usuários que se beneficiariam dele. Muitos não gostam de suavização em geral porque faz as bordas das letras parecerem borradas; mas o ClearType aumenta muito a nitidez das bordas das letras em relação à suavização comum.

No Office 12 e no Windows Vista, a novidade será o lançamento de um conjunto de seis fontes exclusivas, desenhadas para aproveitar todo o potencial do subpixel rendering. As fontes começam todas com C - Calibri, Cambria, Candara, Consolas, Constantia e Corbel - e representam três gêneros tipográficos. Calibri, Candara e Corbel são sem serifa; Cambria e Constantia são serifadas; Consolas é monoespaçada.

Notei que Constantia tem grande influência de Perpetua, a clássica fonte de Eric Gill, não se furtando a copiar diretamente o "a" romano e o "f" itálico. Corbel e Calibri são tão parecidas entre si que em geral só podem ser distinguidas pelos seus arremates em corpos maiores. Calibri é branda e arredondada, como se fosse fotocopiada; Corbel tem muito a ver com Frutiger. Cambria é praticamente uma concorrente direta da Adobe Minion.

As amostras linkadas no parágrafo acima, que foram produzidas usando o ClearType, comprovam a incrível capacidade dessas novas fontes de não apenas serem legíveis em corpos diminutos, mas também de terem estilos visuais claramente reconhecíveis nesses corpos. Todas oferecem boa diferenciação visual entre caracteres similares, como "1", "l" e "I". Elas respondem à incessante exigência em comum de leigos e técnicos por legibilidade, legibilidade, legibilidade... mas sem deixarem de ser elegantes. Elas representam um passo enorme além da mediocridade conformista e idiotizante da Arial, ou o mecanicismo tedioso e uniforme da Verdana. Não dá para imaginar que um documento de Word composto com essas fontes fique xumbregas.

No Windows, as novas fontes efetivamente ajudam a melhorar a qualidade de displays com resolução mais baixa. Esse benefício não acontece no Mac OS X, onde as letras parecem mais grossas do que deveriam, mesmo com a opção LCD ativada nas preferências do sistema.

Reinvenção da roda

Para saber o que a Microsoft pretende fazer, usualmente basta olhar para o que a Apple já fez. E é justamente o que acontece com o ClearType. A razão pela qual eu não dei primeiramente o link oficial do ClearType é que a Microsoft tenta fazer você crer que se trata de uma invenção original dela, mas a técnica já era usada no Apple II para melhorar o visual dos displays de baixa resolução daquela época. A Microsoft reinventou algo que foi patenteado pela Apple em 1977.

A Adobe também tem sua versão da mesma tecnologia, com o nome CoolType. Ela foi lançada pouco depois que o ClearType e produz resultados visualmente idênticos. O CoolType é usado no Acrobat Reader (multiplataforma) e nas preferências desse programa existe um passo-a-passo para ajustar o contraste das letras.

A Microsoft também lançou um controle de contraste, em 2002, na forma de uma página Web e depois como um painel de controle avulso, que recomendo a todos que usam laptops com Windows XP.

Entre 1997 e 2002, a Apple tinha um acordo de compartilhamento de patentes com a Microsoft e. ao mesmo tempo, baseou-se em tecnologia da Adobe para criar o Quartz, o modelo de visualização nativo do Mac OS X. Naturalmente, ela acabou também implementou o subpixel rendering como uma opção do Quartz. A opção fica bastante escondida do usuário, em System Preferences, seção Appearance, menu Font smoothing style, opção Medium - best for Flat Panel.

ClearType versus Quartz

Os desenvolvedores do ClearType, que escrevem um blog e apareceram em entrevista de vídeo no Channel 9 da MSDN, revelam uma confiança fanática nas suas conquistas - afinal, eis um setor da MS que inventa alguma coisa! Mas não se abstêm de atacar a Apple e chamar o Quartz de inferior. É uma pena, porque as alegações mostram que eles não compreendem tão bem assim a rival, que no mínimo deve ser respeitada como uma grande responsável pelo estímulo de aperfeiçoamento da Microsoft.

Onde está o erro nas críticas? Basicamente, em não observar que existem diferenças de concepção da MS e da Apple sobre o que seja boa tipografia no monitor de um computador. A abordagem da MS é fazer com que as fontes fiquem legíveis em corpos pequenos na tela, otimizando o ClearType e envolvendo-se diretamente no design das fontes. Cada corpo de cada fonte tem o desenho adaptado para otimizá-lo em relação aos pixels individuais em que é desenhado. É uma escolha que beneficia os usuários comuns.
A abordagem da Apple (e também da Adobe) é simular com fidelidade o visual do texto impresso em qualquer corpo, em qualquer fonte, com exata uniformidade na forma. Isso significa que em alguns corpos partes das letras podem parecer menos nítidas, a fim de respeitar a métrica. É uma escolha que beneficia os artistas gráficos, os construtores do renome da plataforma.

O ClearType privilegia o uso dos tipos em condições comuns e previsíveis. Se por exemplo alguém tentar compor um texto num programa do Windows XP que tenha corpo quebrado, como 8,5 ou 8,314, o programa dirá que o número não é válido, forçando você a escolher um valor inteiro. Mas no design gráfico é normal deparar com textos em corpos quebrados, nem que seja ao dar zoom dentro do layout. Dependendo do ClearType, nessas condições as letras ficarão deformadas. Num Mac, pode-se escrever texto em qualquer tamanho ou mesmo inclinado, mantendo uma aparência sempre coerente com aquilo que sairia impresso. Essas características são próprias do sistema operacional e não precisam ser programadas para cada aplicativo.

Cada vez menos importante

Esses avanços na tipografia em telas digitais enfrentam um novo desafio: a sua crescente irrelevância. Os displays de computadores têm tido sua resolução paulatinamente ampliada, e logo terão quantidades de pixels tão enormes que começarão a competir em nitidez com o próprio papel impresso. Nessas condições, tecnologias criadas para resolver um problema de letras muito pequenas passam a ser relativamente irrelevantes.

Os primeiros monitores de Macs e o modelo de impressão PostScript da Adobe tinham por convenção uma resolução de tela de 72 ppi (pixels por polegada). Essa resolução era cômoda por estar dentro da faixa usual de uma tela de alta resolução da época, e pelo fato de uma polegada ser quase equivalente a 72 pontos (medida tipográfica), fazendo na prática com que um ponto equivalesse a um pixel e facilitando o raciocínio dos designers gráficos.

Eventualmente, a resolução dos monitores foi subindo e a convenção permaneceu em uso pela Apple e Adobe, enquanto a Microsoft passou a trabalhar com uma resolução padrão de 96 ppi, o que explica porque a mesma letra em determinado corpo em pontos no Mac e no Windows têm tamanhos diferentes, a versão Windows utilizando mais pixels (ou seja, com mais definição) que a versão Mac. Atualmente, a resolução mais comum em monitores é de 100 ppi (como, por exemplo, num monitor de 17" a 1260x960 pixels), mas pode alcançar e até ultrapassar 150 ppi em subnotebooks e smartphones.

Além de as fontes pequenas serem menos incômodas em telas tão nítidas, o maior problema passa a ser outro: o encolhimento da interface. Tudo está ficando muito pequeno na tela: menus, controles, ícones. A solução é uma interface escalável, que permita ao usuário ajustar o tamanho geral desses elementos. O Windows dispõe de uma escalabilidade rudimentar no seu controle de aparência visual baseado em "temas". O Mac OS clássico nunca teve escabilidade, mas no OS X já existe uma infra-estrutura técnica para isso e o recurso poderá estrear na próxima versão do sistema, Leopard. A escalabilidade da interface só funciona a contento se todos os elementos forem vetoriais ou desenhados em resoluções muito altas. Ambas as condições são possíveis no Quartz e têm um uso corrente no efeito de lupa do Dock do Mac OS X.

2006-02-05

Nisus, há quanto tempo!

Ódio.
Aconteceu uma coisa horrível ontem no Blogger. Eu digitei uma tese sobre tipografia no Mac OS e no Windows, copiei o texto do TextEdit (equivalente Mac do WordPad), postei, fechei o TextEdit e o Blogger e fui dormir. Foi uma das raríssimas ocasiões em que não salvei o texto de trabalho no HD.
Murphy atacou. Descobri 24 horas depois. Um bug idiota (redundância) no Blogger fez o texto sumir como se jamais tivesse sido postado. Suponho que ninguém o leu nem o salvou no disco para referência, portanto ele está solida e acabrunhantemente perdido.
Está tudo ainda na minha cabeça, mas 80% da trabalheira é articular as frases. E ainda tinha vários links de interesse, que preciso caçar de volta.

Solução: usar Nisus Writer Express.
Ele salva os textos automaticamente à medida que são digitados, como no Word; porém, diferentemente do Word e da quase totalidade de aplicativos, salva por conta própria, sem que eu tenha que dar nenhum comando. O texto é nomeado pelas primeiras palavras. Não preciso de nada mais do que isso. Se eu fechar o programa com textos abertos, eles reabrem exatamente como foram deixados - até com a última seleção de texto aplicada. Que mais? Undos ilimitados. Múltiplos clipboards. Seleções de texto descontínuas. Dicionário ortográfico em português. Visualização decente da página. Interface muito mais racional que a do Word (que aliás eu me recusava a usar).
Para mim está bom.

Pode considerar isso como um adendo aos textos anteriores sobre interface humana. Lá eu dizia que todos os aplicativos deveriam ter um recurso para recuperar o seu trabalho automaticamente em caso de pau, como o Word e o InDesign já fazem. O Nisus vai além, não deixando que um descuido seu destrua ou perca nada. E olhe que ainda dá para melhorar: o programa não retém o histórico de Undos ao fechar e reabrir o seu texto. Até aí, nenhum aplicativo que conheço faz isso; curiosamente, o System Restore do Windows e o rollback de drivers são implementações de uma idéia similar: instalação com Undo.

E lá vamos nós, reconstruir o post sobre tipografia. No Nisus, claro.
O consolo é que da segunda vez normalmente fica mais bem feito.

2006-02-03

Captchas traduzidos!

Desde que o Blogger implementou os captchas (sequências de letras aleatórias para confirmar a identidade de quem posta um comentário), tenho juntado os que foneticamente lembram alguma palavra existente, e por fim comecei a definir significados não-dicionarísticos para eles. Eis a primeira leva:

dooju - Pequenos objetos que se acumulam em fundos de gavetas e poderiam ser jogados fora sem problemas, mas lá permanecem por preguiça/piedade do dono da gaveta.
cnchm - Expressão cinestésica do ato de mastigar biscoitos muito crocantes, como sembei japoneses.
sqinzu - Música que fica grudada na memória, tocando sozinha dentro da mente, sem que possamos fazê-la parar.
swkhfap - O ritual periódico de trocar um HD por outro de maior capacidade.
abshfh - Estado de embriaguez que torna difícil falar e ser ouvido com clareza.
laidw - Desejo momentâneo e passageiro de que a vida sexual fosse mais descomplicada.
iitvmll - Dor de cabeça fraca, sufciente para nos incomodar de uma maneira inconsciente.
rhazpt - Acordar subitamente com a sensação de que estava tropeçando e prestes a bater a cabeça no chão.
utnsl - Objeto de cozinha, oficina ou escritório que desejamos comprar sempre que vemos um novo na loja, mesmo que já o possuamos em boa quantidade.
vessafpu - Peça de roupa velha, puída, feia, porém absolutamente confortável, como calças e tênis velhos.
tprfe - O ruído fino e agudo que se ouve dos trilhos antes que o trem surja à vista, em estações situadas perto de curvas.
niygbc - Chuva leve que pegamos na roupa quando o que precisamos caminhar é tão pouco que não vale a pena abrir o guarda-chuva.
nfdatusu - Pigarro chato que surge no intervalo de tempo entre escovar os dentes e dormir, incomodando a (o) cônjuge.
ctyld - Matrona extremamente gorda, onipresente em locais públicos.
qcminds - Mentes de raciocínio ágil, do tipo capaz de calcular a divisão da conta do almoço sem recorrer a aparatos eletrônicos dem lápis e papel.
jmorezce - O estado de alguém que está trabalhando há tanto tempo e tão cansado que demora cada vez mais tempo para terminar a sua tarefa, sendo muito mais eficiente se tirasse um cochilo e continuasse depois.
ochbraa - Bustos exageradamente projetados para fora e decotes cavernosos que atraem o olhar masculino como ímãs, mesmo que sejam visualmente desagradáveis ou tediosos.
idycq - Pessoa que persiste teimosamente com um programa de chat (ou de email ou browser) completamente desatualizado, que quase ninguém mais usa.
ukgvlble - Objeto inexplicavelmente caro sob qualquer ângulo determinável, e que no entanto é um sucesso de vendas.
ewijo - Ato compulsivo de observar imóvel e impassivelmente uma barra de progresso extraordinariamente demorada, como a de alguns filtros de Photoshop ou do Backup do Windows.
lxaqpa - Vendedor de rua, mendigo-artista circense, proselitista religioso ou propagandista de políticos, edifícios etc. que insiste especialmente com as pessoas mais absolutamente desinteressadas no que ele tem a oferecer.
tioaxf - Parente que, durante reuniões familiares, tenta monopolizar a conversa com palpites disparatados sobre os mais variados assuntos que absolutamente não domina.
dkbcdu - Conhecido ou amigo que envia inúmeros links de Internet engraçados ou inúteis, fazendo você especular sobre quando ele efetivamente trabalha.
yjalanen - Refeição caseira, geralmente de caráter emergencial, composta de uma mistura eclética de ingredientes que jaziam esquecidos na despensa, como tipos de macarrão diferentes ou duas marcas de queijo ralado.
znnkick - Pancadinha que se dá em aparelhos eletrônicos para eliminar maus contatos ou encorajá-los a funcionar mais rapidamente.
tbcrtl - Capacidade de operar um computador durante longos períodos somente a partir do teclado, sem recorrer ao mouse.
waeoc - Susbtância hipotética que se acumula numa rede e atrapalha o tráfego de dados e cuja concentração é proporcional à urgência da conexão.
wdehi - Impulso de esconder uma coisa nova que parecia absolutamente sensacional ao ser comprada, mas o comprador mudou de idéia e agora acha que pode ser embaraçoso deixar que outros vejam.
cusrcq - Nome coletivo para as propagandas de faculdades e cursos que estranhamente monopolizam as paredes dos carros de metrô.
cnujq - Nome genérico para o instituto de pesquisa/ONG/laboratório não creditado em textos jornalísticos que pretendem demonstrar uma tese com poucos fundamentos. Por exemplo, "pesquisas comprovam que..." sem menção à fonte, muito menos datas e números convincentes.
szwniek - Carne de natureza e origem perturbadoramente indeterminável (bovina? frango? suína? soja?) em recheios de salgados de botequim e naquelas comidinhas pretensiosas servidas em coquetéis, vernissages etc.
ntyaoio - Paranóia que grassa em ambientes de trabalho desagradáveis, que consiste num impulso de observar com atenção exagerada algum colega de trabalho, em busca de sinais de conspiração ou de banal incompetência.
avevq - Outro tipo de relacionamento disfuncional em ambientes de trabalho; desta vez, é alguém, usualmente de escalão superior, que faz campanha contra outro alguém em todas as suas conversas com outros colegas.
obaut - Estado de espírito peculiar aos primeiros minutos após encerrar uma refeição enorme, um banquete daqueles de se passar mal; especificamente, o aspecto psicológico desse passar mal.
woacy - Não me diga que você não conhece o companheiro Woacy. Nossas partidas de Mau-Mau entravam noite adentro e ninguém se atrevia a deixar a mesa.
lefzlxon - Compulsão de criticar fotografias e figurinos em revistas de moda.
ifekn - Instituto dedicado a pesquisar uma tecnologia efetiva para determinar quando uma pessoa está mentindo.
fogusk - O cheiro potente e insuportável de uma pessoa que acabou de sair do banho e exagerou totalmente no perfume. Causa especial incômodo em ônibus lotados e elevadores.
ltunojei - O cheiro potente e insuportável de uma pessoa que não tomou banho pela manhã, ou tomou mas vestiu roupas usadas de vários dias, e então sai a intoxicar desconhecidos dentro de ônibus lotados ou num local de trabalho que pressuponha higiene especialmente rigorosa (restaurantes, supermercados, hospitais).
rlkiy - Vontade súbita de compor um poema, que passa logo porque a tarefa é muito difícil de completar.
xgzna - Refeição composta de pratos gosmentos e elaborados com ingredientes suspeitos, desconecidos ou repelentes, mas que é preciso comer integralmente em respeito aos anfitriões.
hechkj - Interjeição proferida ao descobrir que o saldo bancário é insuficiente para emprego num gasto emergencial ou oportunidade de negócio única.
szepfd - Um tipo de copo (ou garrafa de refrigerante) especialmente adepta a pingar, fazendo o usuário parecer um babão.
cakre - Odor corporal temporário proporcionado pela ingestão generosa de alho.
rzagu - Pizza deixada na geladeira e requentada, com o queijo duro e pastoso e a massa mole e insossa.
ckiave - Saudação (usualmente, um piscar de faróis e uma buzinada breve) que um carro faz quando seu dono se aproxima com um chaveiro eletrônico na mão. Pode molestar o sossego de outras pessoas quando ocorre dentro de um estacionamento lotado.
mlscr - Prescrição médica ou outro documento manuscrito cuja letra é totalmente ilegível para você, mas que é misteriosamente lido com fluência por outra pessoa.
euvesdia - Ansiedade pela chegada do sábado ou das férias.
clpbb - Ruído causado pelo deslocamento de móveis em apartamentos, propagando-se através da estrutura do prédio e incomodando os demais condôminos, com especial eficiência durante a noite.
ziupw - Esquecer um bolso da mochila aberto e conjeturar inutilmente se alguma coisa importante caiu dele durante a viagem.
nvlojk - Impressão confusa causada pela descoberta de uma edificação recém-construída, loja nova ou tapume de demolição num lugar conhecido há muito tempo, que serve de referência para sua história pessoal.
ghudr - Material amorfo, de cor pardo-escura, que se acumula paulatinamente nas superfícies de contato de mouse pads, mouses, descansos de mão e teclados de computadores, deixando-os grudentos.
xtsnu - Nome genérico que pode ser atribuído temporariamente a qualquer imagem de divindade hindu que não se conhece previamente.
ilimibc - Estrada que parece muito mais longa ao ser percorrida do que aparenta num mapa.
ywiey - Lufada de vento e resfriamento rápido que indicam a iminência de uma tempestade de verão.
qdnyaft - Adesivos, usualmente de humor raso ou de atroz mau gosto, que se vê colados em carros e motos alheios.
joisiii - A alegria de ser bobo, num idioma que não conheço pois sou muito bobo.
gbgohrl - Som de associações desagradáveis, emitido quando uma pessoa nauseada posiciona a cabeça sobre uma privada aberta.
refvso - Qualquer uma daquelas peças usadas que se acumulam em oficinas mecânicas, que não podem ser reutilizadas porque estão gastas ou espanadas, mas o mecânico deixa de jogar fora por uma mistura de preguiça e de esperança de que elas ainda venham a ser úteis um dia.
bygdi - Parte da anatomia de uma pessoa que é excessivamente protuberante em relação à peça de roupa que a cobre e sustenta.
exujwyon - Nome coreano para o Exu Tranca-Rede, o elemental elétrico que causa erros inexplicáveis no compartilhamento de arquivos via TCP/IP.
sevskymc - O MC Sevsky é o rapper russo que veio desnortear todo mundo com seu palavreado impenetrável.
enfueh - Sensação de esperar numa cadeira desconfortável numa sala cheia de gente entediada. A Receita Federal e o Consulado dos EUA vêm à mente.
dmfpt - Ruptura repentina de um saco de supermercado ou padaria carregado na mão, fazendo seu conteúdo se esparramar e rolar rua abaixo no meio do trânsito.
rotoi - Um novo brinquedo que consiste num giroscópio que pode ser acelerado com movimentos do pulso.
ianrouv - Ataque de sono no final da tarde, causando perda de motivação, dispersão com atividades irrelevantes e atrasos nos prazos.
tarkgvo - Palavra de sonoridade eslávica que pode expressar "omelete meio crua".
viuns - Tem uns, tem tchuns e o viuns. Tchuns é quando uns vão, viuns é quando uns voltam.

O monitor (Algo dá errado)

Na quarta-feira, Energumênides estava sentado diretamente de frente para mim na churrascaria, e entre nós, sob a mesa, a sempre útil mochila contendo o precioso aparelho, morno de funcionar por horas naquela bateria pesada. Marilônia entrara numa época do mês repleta de imagens desagradáveis que eu preferia não contemplar. Meu inimigo secreto entretia os outros quatro colegas com seu carisma e habilidade verbal. Descrevia uma viagem de carro até o litoral, e suas mentiras e exageros, sendo eu ali o único a saber exatamente de que forma, eram tão monumentais que eu até mastigava a comida com dificuldade. Andar a 120 quilômetros por hora de ré? Ele acreditava de verdade naquilo que dizia... mas só no instante em que dizia!
Finalmente, deu um estalo em mim e não pude me controlar quando ele se vangloriou de nunca ter pego vírus em seu PC. O aparelho me dizia uma coisa diferente e eu arrisquei repeti-la diante dos outros.
"Na verdade, o seu 386 pegou de um disquete velho um Michelangelo.B, que era um vírus vagabundo datado de antes da Internet. Você perdeu os arquivos de contabilidade do seu pai, que não tinham backup..."
Ele: "Como assim?"
Minhas palavras saíam da boca de forma automática, incontrolável: "Foi um vexame. Ele cortou sua mesada exatamente quando faltava o último pouco para financiar a sua primeira ida secreta ao bordel. Você cometeu a bobagem de contar a verdade aos colegas de colégio, e além de eles terem ido lá sem você, fizeram piada de você e de seu pai dominador durante o resto do colegial. Seu apelido dali em diante: Saquinho. Porque era o saquinho de pancada do papai e tinha um saquinho atrofiado pela falta de uso."
Ele desmentiu a história com uma risada fácil, mas seu olhar tinha já um ângulo assassino. E seus pensamentos eram de perplexidade e raiva. Como poderia eu saber? Como um típico mau-caráter de novela, ele portava sua dose pessoal de paranóia e já suspeitava, sem base nenhuma, que eu seria um dos três ou talvez quatro na empresa que estariam "armando" para cima dele.
Comecei a gostar, confesso desavergonhadamente, da pequena amostra de poder real que senti naquela tarde. Os colegas presentes acharam que eu tinha blefado - pude comprovar isso com segurança, sintonizando o aparelho neles ali mesmo, operando o controle disfarçadamente por baixo da mesa -, mas guardaram nas suas mentes o apelido "Saquinho". Cada um deles tinha, afinal, pelo menos um motivo para sacanear o colega falseta.
Eu estava impossível naquele dia, porque apenas duas horas após o almoço eu parti para cima dele novamente. Entrei no escritório com um saco de pirulitos comprados na padaria e anunciei: "A partir de hoje, Saquinho para todos!" E mais uma frase que prefiro não copiar aqui.
Pois nesse momento, o aparelho morreu. Travou. Desligou.
As impressões variadas e coloridas desapareceram instantaneamente, deixando apenas o vazio bege da pura e entediante realidade. A total incerteza. A perda do controle.
Quase dei um pulo.
Fui incapaz de ler a atitude de Energumênides. Percebendo minha confusão, ele prolongou a impassibilidade que precedia sua estudada e certamente marcante reação à minha provocação...
Saí correndo do escritório em silêncio com as mãos na cabeça. Acho que ninguém entendeu nada. Lamentavelmente, agora só posso supor e não mais saber com segurança.
Exatamente então, o meu celular tocou e ouvi a mensagem em código previamente combinada, um número que indicava o procedimento de emergência: descer até o canteiro central da avenida Meridional e aguardar a chegada da Kombi branca com o logo de um açougue inexistente e os vidros escurecidos.
O veículo, dando as caras sob plena luz do dia, era oculto da visão do prédio pelas árvores e ônibus no trânsito congestionado, e o logo era impossível de ler de longe, pois as letras eram deformadas e borradas de tal forma que se misturavam de uma maneira difícil de descrever. Mesmo os números da placa mudavam conforme o ângulo do qual se olhasse para eles. Claro que eu já tinha visto a Kombi e apenas estava relembrando tudo, checando memórias nas quais não confiava mais por inteiro. De habituado que ficara a viver dentro dos outros, não tinha mais certeza de quais pensamentos eram originalmente meus. Com a ansiedade, a confusão escalava a cada instante. Agora eu me sentia mais em perigo por não usar o aparelho do que ao usá-lo.
Um homem de terno e óculos escuros - que clichê! - desceu da Kombi parada no semáforo fechado e, sem dizer uma palavra, agarrou minha mochila para levá-la embora. O sinal abriu. A Kombi partiu com pressa e o carro de trás buzinou para eu sair do meio do caminho dele. Lembrei que tinha esquecido dinheiro na mochila, saco!, mas agora não havia mais o que fazer. Se eu me comportasse, jamais veria eles de novo. Se os visse, decerto não seria um encontro cordial.
Naquele momento, em que percebi que o aparelho se fora de vez, me senti perdido como nunca antes desde a infância. Como nunca desde aquela tarde de domingo em que escapou das minhas mãos de dez anos de idade a garrafa de litro de Coca-Cola, e como na época a garrafa era de vidro, ela se desintegrou ao longo dos degraus da escada e meus pais me olharam com um olhar que jamais esqueci, muito mais pelo refrigerante perdido do que pelo estilhaço de vidro que extraía lentamente uma gota de sangue do meu calcanhar. Mais perdido do que aquele dia em que a bicicleta ficou sem freio e literalmente passei por baixo de uma perua Veraneio sem me machucar (eu era pequeno). Mais indefeso do que o dia em que a injeção da vacina me causou choque alérgico. Como se eu tivesse acabado de esquecer como se lê.
Depois, nenhuma comunicação deles comigo e já passaram dias suficientes para eu me convencer de que eles não vão reaparecer com más notícias. Mas o medo agora mora aqui e não quer ir embora. Nem tanto medo deles, mas medo do futuro. Contudo, resolvi retomar a vida normal e visitar a minha prima. Transtornado, passei um dia inteiro sozinho sentado no parque, olhando as garças no lago e pensando o que vai acontecer quando todas as pessoas tiverem acesso... Porque eles não vão perder a oportunidade de fazer dinheiro com o aparelho assim que resolverem os problemas do tamanho e do consumo. E como boa corporação multinacional, quanto mais controvérsia moral com seu produto, melhor para os negócios!
Meu tempo se esgotou, sugiro que você destrua este texto e se arrependa de ter insistido em me fazer contar. Não se preocupe, daqui a alguns anos você vai poder reler palavra por palavra na minha mente através de uma caixinha que já vai estar do tamanho de um daqueles velhos telefones celulares que tinha que trocar a bateria a cada 10 minutos de conversa, lembra? Nosso pequeno grande segredo. Até amanhã.

2006-02-02

O monitor (Terceira etapa: emocional)

A parte mais difícil seria a análise detalhada de algumas pessoas mais próximas no ambiente de trabalho. Elas foram designadas pelos meus tutores e não tive influência sobre sua escolha. Ali tive mais do que nunca a desconfiança de que estava também sendo monitorado, porque as escolhas deles foram muito a propósito, mas como já ocorrera antes, não tive permissão de lhes fazer perguntas.
Eles me instruíram a observar mais de perto Marilônia, a minha amiga no trabalho, e Energumênides, meu inimigo. Em todas as minhas interações com os dois, eu precisaria detalhar no diário duas linhas de ação: aquela que provavelmente me ocorreria se eu não dispusesse do aparelho, e a que de fato ocorreria com o auxílio do aparelho. Desta vez eu manteria o aparelho ligado sem parar e já estava bem treinado, de forma a não me dispersar das conversas e tarefas normais durante seu uso. O único problema seria carregar discretamente a volumosa mochila vermelha em ocasiões nas quais ela seria normalmente desnecessária, como as saídas para o almoço.
Provavelmente eu fiz exatamente o que os tutores esperavam que eu fizesse: comecei a sondar as fronteiras da afeição de Marilônia por mim e tentei achar meios dissimulados de castigar Energumênides. Eu não queria ter um caso com Marilônia de forma alguma, apenas relacionar os seus sentimentos contraditórios com suas ações assim que ela notasse que eu sabia de "algo". Já Energumênides simplesmente merecia passar por poucas e boas, porque eu estava totalmente convicto de que ele era incorrigível. Eu achei que tinha ficado mais cínico em relação a mim mesmo, mas agora acho que apenas fiquei um pouco mais sincero.
Logo no almoço de segunda-feira, mochila equilibrada de pé entre minhas pernas sob a mesa do restaurante, perguntei a Marilônia: "Você pode achar esquisito, mas hoje cedo me ocorreu perguntar o que você gosta e não gosta em mim."
Ela pensou: "Você é lindo, e aposto que ninguém além da sua mãe disse isso antes, porque você é um nerd tímido que teme as mulheres, mas vou deixar quieto para não dar a entender coisas erradas, não estou a fim de mal-entendidos com o Fáubio."
Ela disse: "Em primeiro lugar, você tem senso de humor e isso eu sempre aprecio nas pessoas."
Sem receio de perigo, rebati na bucha: "Você me acha bonito?"
Ela pensou: "Te levaria para casa hoje mesmo! Mas..."
Ela disse: "Poderíamos dizer elegante..."
Interessantemente, Marilônia conseguiu camuflar bem os pensamentos daí em diante. O único momento de duplipensar claro e cristalino dela foi aquele inicial, mesmo. Depois disso veio uma confusão de impressões contraditórias que eu não conseguia bem filtrar. Lembranças da barba áspera de quatro dias do Fáubio apoiado carinhosamente em sua barriga numa manhã escura de chuva, misturada com cheiros de xampu, batatas chips e molho à bolonhesa, visões recorrentes de uma caixa de maquiagem velha e quase vazia, uma escova de cabelo que naquele exato instante estava jogada no chão do quarto em sua casa e pedia para ser recolocada no lugar, poças d'água na passagem de pedestres de uma ponte fluvial desconhecida por mim, reminiscências de uma discussão desagradável com sua velha mãe sobre comprar ovos na mercearia, poeira nos cantos de uma vidraça e um carro branco e velho cuja porta do motorista, amassada, não encaixa bem quando fechada. Nenhuma dessas coisas eu vira nem ouvira ela descrever em conversas, mas todas as associações eram muito claras. Por razões insondáveis, ela me ligava a uma velhíssima música do Pink Floyd ("Set the Controls for the Heart of the Sun") e a corridas de moto velocidade - duas coisas que pessoalmente eu simplesmente ignoro.
Comecei, então, a tentar descobrir a reciprocidade em mim desse complexo de associações. Eu não poderia usar o aparelho em mim mesmo, mas poderia analisar minha mente com um pouco dos truques que aprendera para entrar na dos outros sem me perder.
Na minha mente, a idéia de Marilônia era próxima da idéia de uma castanheira portuguesa; sorvete de carambola; uma ridícula invenção minha de há seis anos de um refrigerante "sabor carne" e macarrão doce com geléia de framboesa como molho; um cinzeiro fumegante de um hotel frente a um pôr-do-sol numa praia onde nunca estivera; uma saboneteira velha com restos de água ensaboada; imagens de arquivo do primeiro homem na Lua numa televisão em preto e branco com aquela tela arredondada; traços de perfume almiscarado.
Nada disso fornecia a menor pista de nada. Um caos indecifrável. Me senti ridículo. Ler a mente dela, enfim, acelerava a aquisição de um conhecimento que eu obteria mais lentamente conversando com ela, e pouco mais do que isso. Além disso, havia tantas coisas nas suas memórias e pensamentos que não me importavam... A parte divertida era comparar suas sensações femininas com as minhas de homem, sentir sua cólica e aprender como é lidar com cabelos que vão até a cintura e ter 10 centímetros de altura a menos que eu, com a cintura proporcionalmente mais leve e elevada. E daí? Ela ama sorvete de limão, eu odeio de paixão. Pelo menos aprendi como é exatamente a sensação de achar sorvete de limão delicioso. Ainda assim, não me converti.
Dei o experimento com ela por fracassado, ou ao menos redundante.
Energumênides foi uma questão mais delicada, porque embora eu agora soubesse inequivocamente que ele era um desgraçado traiçoeiro, o resto do pessoal do escritório não tinha tanta certeza, e eu não tinha como convencer os outros de uma hora para outra. Mesmo porque não me interessava fazer campanha contra ninguém. Meu cargo na empresa já era suficientemente instável para eu me meter em disputas de poder. Mas ele era bom de lábia, péssimo caráter, e seu potencial manipulador um perigo de fato. Usando o aparelho, eu estava numa posição de momentânea vantagem. Se eu tivesse uma oportunidade de limitar sua influência, deveria empregá-la. Entretido nesses pensamentos, esqueci que eu mesmo provavelmente estaria sendo igualmente monitorado e julgado. Quando já tinha formulado um esboço de plano maquiavélico, justifiquei-me pensando que, caso eles conhecessem em detalhe os meus pensamentos perversos, colocá-los em prática não faria mais para piorar o conceito que eles já teriam de mim.

Spriteorama

Um vídeo panorâmico incrível. Espere baixar completamente antes de poder apreciá-lo. Ele foi fotografado com uma dupla de filmadoras dotadas de lentes olho-de-peixe, de costas uma para a outra, cobrindo 360 graus de visão. O grande barato é que você pode reorientar seu ponto de vista a qualquer instante, arrastando o cursor para os lados, mesmo com o filme rodando. É como se você estivesse dentro da cena e pudesse mover a cabeça!
Clique em "Our Work"para ver mais exemplos incomuns de fotografia panorâmica, time lapse e outras.

2006-02-01

O monitor (Segunda etapa: comportamental)

A segunda etapa, também com duração de uma semana, consistia em fingir concentração no trabalho enquanto focava nos colegas de escritório. Como eu tinha trabalho de verdade para entregar, não podia passar o tempo todo monitorando os outros. Uma pena. Em certos momentos do dia, eu daria tudo para saber o que alguém pensava naquele instante. Mas monitoramentos posteriores me permitiram deduzir e reconstruir o que eu não soubera na hora. De certa forma isso é o mesmo que fazemos a partir dos diálogos, gestos, mensagens, mas de uma maneira incrivelmente mais eficiente.
Passou a ser muito diferente interagir com as pessoas monitoradas, porque com um pouco de conhecimento e prática de cada uma delas eu me tornei capaz de influenciá-las, talvez eu devesse até dizer manipulá-las, muito além do que conseguiria após anos de convivência normal. Chegou a ser covardia. Por outro lado, meu status no trabalho não mudou significativamente, pois não consegui mudar os conceitos dos outros sobre mim com mais facilidade do que poderia no simples e velho diálogo. Se todos possuíssem o aparelho, as coisas seria muito diferentes.
Duas pessoas foram particularmente gratificantes e três deprimentes. As gratificantes foram uma garota do departamento de expedição e meu chefe imediato. À sua maneira, cada um deles gostava de mim.
A garota, Marilônia Eridânia, tinha uma queda por mim - coisa que eu nunca poderia suspeitar em condições sociais normais - embora ela tivesse namorado há cinco anos. E justamente a presença desse namorado na sua vida a prevenia de avançar sobre mim. Mas ela via em mim qualidades extras que até eu não reconheço. Fiquei sem graça e sem saber o que fazer com essa informação.
O chefe, Crudêncio Plauto, só não me dá mais apoio por causa de um conflito interior dele sobre eu tomar seu posto atual no futuro. Isso eu não precisaria do aparelho para descobrir.
As decepções foram três colegas-chave que se revelaram, ou melhor, eu secretamente revelei, serem falsos e interesseiros. Em especial um deles, o gerente de negócios Energumênides Flebo, me chocou pela incrível falta de senso ético, um verdadeiro vazio moral e uma inclinação a instrumentalizar tudo e todos, muito bem disfarçada por trás de um pseudosorriso simpático. Conheci cada instância em que ele me enganou no passado e também suas opiniões reais sobre o seu chefe e sua esposa - e fiquei revoltado. Em apenas dez minutos de monitoramento, fui tomado de uma vontade de arrastá-lo para o meio da rua e enchê-lo de socos. Mas tive de me conter durante todo o prazo da experiência, e ainda hoje fico remoendo planos secretos de dar-lhe uma lição, que naturalmente seriam inúteis na prática, pois acredito de que ele seria irremediavelmente incapaz de mudar sua natureza egoísta, mesmo se fosse obrigado.
Uma das coisas mais inesperadas que descobri em quase todos os colegas foi o horror ao ridículo. Preferências inconfessáveis, gostos indisponíveis para debate com os outros, sonhos secretos embaraçosos. Chegava a ser alarmante o quanto cada um deles resguardava do conhecimento dos outros por simples receio do ridículo. E muitos desses medos não eram tão bem justificados. Curiosamente, encontrei uma correspondência aproximada entre o tamanho dessa auto-repressão e a sua capacidade de criar piadas em cima dos outros com frases capciosas e gozações malvadas.
Mas dentre todas essas coisas o mais perturbador foi, sem dúvida, a variedade caótica de autoconceitos sobre ter razão numa discussão. Eu nunca tinha refletido sobre isso antes, mas o fato é que praticamente todo mundo põe em ação um mecanismo pelo qual acredita radicalmente nas suas opiniões expostas, mesmo que mentirosas, a fim de manter seu status retórico, e cada qual defende sua opinião com um fervor maior do que um cão defendendo seu osso. Testemunhar o processo das discussões me deixou com mal-estar, porque sentimentos de oposição radical do tipo "mas que idiota!", "fui provado errado mas não dou o braço a torcer" ou "agora vou humilhar esse estúpido!" são de uma universalidade espantosa. E começamos a nos dar conta de que as normas sociais são eventualmente insuficientes para evitar que as pessoas se matem umas às outras, mas no geral até que funcionam melhor do que corriqueiramente se afirma. Eu, como beta tester do futuro, tive o vislumbre do que aconteceria se as normas fossem suspensas.