2006-12-29

Different Thinkers, Parte 6: Klaus Schulze

Há muito tempo postei as impressões sobre um músico pioneiro chamado Edgar Froese. Naturalmente tinha também de dizer algo sobre seu colega e contemporâneo Klaus Schulze, que tem uma carreira de longo sucesso na Europa mas é virtualmente desconhecido do povão do lado de cá do oceano.
90% do que é chamado dance music, trance, house e techno (e também, talvez infelizmente, o new age e o ambient) trilha um caminho originalmente aberto por esses pioneiros alemães do começo dos anos 70, chamados coletivamente de "Berlin School" e cuja característica em comum é o uso de exóticos sequenciadores rítmicos e misteriosos sintetizadores eletrônicos. Que toda banda de hoje utiliza trivialmente.
O barato com Klaus Schulze é que, sem as preocupações do marketing de um artista ou de uma gravadora, as respostas dele às entrevistas são de uma sinceridade brutal e não visam agradar ninguém. Ele se impacienta com as perguntas genéricas que os entrevistadores fazem para todos os músicos. As questões abaixo, de entrevistas de 1997 e 1996, foram selecionadas e traduzidas do site pessoal dele.

O que inspira você como músico?

Me desculpe, mas essa é a pergunta que todo mundo faz para mim (e, suponho, a todos os outros artistas) a vida inteira. E toda vez eu não tenho resposta.

O sampler oferece liberdade de criação virtualmente ilimitada na criação de sons. Porém, uma vez criados, eles podem ser usados demais (pelo mesmo artista ou por outros) e perder seu impacto. Quais são os outros elementos de composição que podem prevenir a obsolescência de uma música gerada eletronicamente? Por exemplo, a música clássica usa harmonia, contraponto etc. como veículos de criação e originalidade, assim como a interpretação virtuosa.

Sua pergunta é muito complicada, mas poderia ser re-enunciada assim: "o que faz da música uma boa música"?
Minha resposta: música que não aborreça o ouvinte. Como em qualquer outra profissão, faça o melhor possível e seus "clientes" ficarão felizes.
A propósito: a afirmação de que esta ou aquela tecnologia oferece "liberdade de criação ilimitada" é um pouco míope. Boa música ou bons sons não surgem por causa de uma nova técnica. A tecnologia sem dúvida é usada também (e muito mais) para criar o mesmo lixo de sempre. A música que toca no rádio comprova isso a cada minuto. "Liberdade" pode ser uma coisa muito irritante e confusa. O ofício do artista não é fazer tudo o que for possível dentro dessa "liberdade". Em lugar disso, ele escolhe uma certa forma ou abordagem e então exibe a sua arte através dessa forma. Isso é mais ou menos o oposto de "liberdade ilimitada". O progresso vem da disciplina, não do caos.

Que significou para você a criação do seu primeiro álbum [em 1971]?

A pergunta é abrangente demais, geral demais para ter uma resposta significante, detalhada e honesta. Além disso, lembre-se que já passaram 26 anos. O que eu pensava há 26 anos? O que uma determinada atividade significava para mim naquela época? Você lembra o que pensava há 26 anos? Pelo menos eu não me lembro.

Qual é o seu melhor álbum?

Essa pergunta é feita a todos os músicos. E naturalmente, o músico, se for sério, sempre responde: o meu álbum mais recente é o melhor, senão eu não o teria feito.

Como compositor do seu novo álbum, como você o situaria?

Não sou em quem tem de dizer aos ouvintes o que esse disco é, ou em que categoria ele deveria ser classifcado. Música que precisa ser explicada pelo artista não é a minha praia. Olhe ao seu redor e veja que tipo de música precisa de explicação. Regra geral: quanto mais palavras, mais chata a música... No meu caso: o disco está aí, é a minha oferta. O ouvinte pode escutar e decidir. Não eu.

Outra pergunta que as pessoas vivem fazendo: quais instrumentos você usa hoje em dia?

São simplesmente demais para contar e enumerar aqui. Eu teria que olhar no meu site. Lá tem uma lista com umas fotos. Se você clicar nas fotos, elas aparecem maiores. As fotos são de 1996. Desde então, troquei os Ataris por mais Macs [para a gravação digital e o controle dos sintetizadores]. Claro que não toco todos os instrumentos disponíveis no meu estúdio em cada disco.

Os instrumentos evoluíram desde que você começou a fazer a sua música. Essas mudanças ajudaram ou influenciaram a sua evolução musical?

Mas é claro que sim. Isso é óbvio: tudo muda, o tempo todo. Os instrumentos mudam, as pessoas mudam, os artistas mudam, a moda muda, a mídia muda, o ouvinte muda, seus pontos de vista e opiniões mudam... Até mesmo o veículo sonoro mudou durante minha carreira, do disco de vinil para o CD e da fita análoga para o sampler digital, o computador e a gravação direta no HD. Naturalmente isso me influencia, assim como a todas as pessoas, sejam criadoras ou ouvintes de música.
Que mais? Por exemplo, considere que as pessoas envelhecem e com 50 anos de idade ouvem uma música de maneira diferente de como ouviam com 20. Mas isso é só um exemplo da mudança. As influências são múltiplas e mútuas... e normais.

Que tal fazer uns concertos fora da Europa? [Em mais de 40 anos de carreira, Klaus nunca tocou nos EUA.]

Os americanos sempre me perguntam isso. Meu amigo kdm [organizador do site pessoal de Klaus Schulze] me disse: Beethoven nunca tocou nos EUA, Wagner nunca tocou nos EUA, Schubert nunca tocou nos EUA, Bach nunca tocou nos EUA, Mozart nunca tocou nos EUA... então, por que eu? :-)

Depois de tantos anos, que mais você tem a dizer?

Só posso repetir: sou um músico, não um orador...

Não, o que quero dizer é que a música é uma linguagem universal. Muitos artistas transmitem sentimentos com ela, eles tentam "dizer" alguma coisa.

A maior parte do que se escreve sobre "o que o artista quer dizer com a sua arte" é papo furado, é promoção para a mídia, nonsense inventado pela gravadora ou pela imprensa, porque as pessoas gostam de ouvir historinhas e mitos.
Voltando a "o que o artista quer dizer com a sua arte": a "Abertura Guilherme Tell" de Rossini foi usada mil vezes em filmes de faroeste de Hollywood, então quando nós a ouvimos, já vamos pensando em cavalos galopantes. Mas na verdade, Rossini e o herói suíço que é tema da música não têm absolutamente nada a ver com cowboys, cavalos ou Hollywood. As capas das gravações de "Peer Gynt" de Grieg geralmente mostram uma paisagem nevada de inverno, e as pessoas ouvem ela dessa maneira (como eu mesmo ouvi por muito tempo). Mas "Peer Gynt" é localizado no escaldante Norte da África!
Isso mostra que você pode anexar muitas imagens diferentes à pura e inocente música, especialmente com palavras sobre seu "significado". Mas... o que a música pode fazer por si mesma é só uma coisa: transmitir emoções. Tristeza, alegria, silêncio, excitação, tensão. Não é algo que precise de muitas palavras... porque de fato é uma "linguagem universal".

Em retrospecto, você aprecia a música eletrônica de hoje? Acha que em algum momento o pessoal se desgarrou do caminho?

Hoje não existe mais uma categoria chamada "música eletrônica". Quase toda a música atual é feita eletronicamente. Especialmente a música mais "barata"... mas também muita música pop e dance boa e interessante. 95% da música atual é feita por métodos eletrônicos com samplers e computadores. Um pianista clássico, Glenn Gould, antecipou (e desejava) essa evolução (ou revolução?) já nos anos 60.
O que eu não suporto mais ouvir é "música eletrônica" feita por um pessoal que ainda tenta copiar o que eu ou o Tangerine Dream fizemos há 15, 20 ou 25 anos - mas basicamente sem o frescor, a energia e a emoção do que fazíamos então. Parece um revival de Dixieland - outro tipo de música que não gosto muito, e pela mesma razão. É engraçado ver hoje alguns músicos jovens tocarem como se estivessem em 1973, até com os mesmos instrumentos de 1973.
Recentemente, os copiões eletrônicos começaram a incorporar um pouco de "techno" e "trance", pois finalmente perceberam que precisam adicionar algo de novo - mas mesmo nisso eles estão dez anos atrasados: ainda lembro a repulsa deles em relação ao "techno" e "trance" quando eram novidade. Essas pessoas - freqüentemente, amadores e fãs - não conseguem fazer nada por si próprios, só pegar algo que foi estabelecido pelos verdadeiros inovadores e já virou história. Não me entenda mal, em geral eu gosto do pessoal que faz "Hausmusik" - mas é mesmo necessário que todos esses milhares de músicos de fim de semana poluam o mundo com CDs de fundo de quintal? E por que é que tantos jornalistas são incapazes de distinguir os amadores dos inovadores? Será que é porque eles mesmos fazem como hobby esse tipo de música?

Onde estará a música eletrônica daqui a dez anos?

Hoje, a música eletrônica é uma coisa normal. Nós vencemos, por assim dizer. Como já falei antes, em 1974 ou 75 nós previmos (ou pelo menos desejamos) a vitória da eletrônica. Mas não me pergunte sobre daqui a 10 anos. Provavelmente o termo "música eletrônica" estará totalmente obsoleto. Na verdade, já está. Quase toda a música atual é feita "eletronicamente". Não vai mais haver necessidade de rotular nenhuma música de "eletrônica". As demais músicas terão de ser rotuladas de outra forma, porque a música "não-eletrônica" é que vai ser a exceção.

Você foi um dos verdadeiros inovadores quando mais jovem. Você vê inovadores do mesmo tipo hoje?

Na Europa existe uma banda de imenso sucesso [na época da entrevista, 1997]: Oasis. E muitos seguem a tendência. As pessoas da minha geração percebem no Oasis somente uma cópia de um pequeno quarteto que foi muito popular há uns 30 anos, chamado The Beatles, que era um nome bem engraçado nos anos 60.
Daí que existem todas essas direções para onde o "techno" está indo, com modismos e gêneros inventados a cada semana. O que eu ouço em todos eles é sempre uma mesma coisa: ritmo. O que não é ruim. Eu mesmo fui um baterista. O ritmo fez um longo caminho a partir da África (contra a vontade) até a América, de New Orleans para Chicago, deu origem ao Jazz, o Rhythm & Blues, mais tarde o Disco... hoje em dia falam em Techno, Hip Hop, Drum 'n' Bass... Mas "verdadeiros inovadores" eu não vejo hoje em dia. Talvez na semana que vem? Certamente eles existem, mas os milhares de diletantes do "techno" - que nem sabem tocar um instrumento - bloqueiam a vista dos inovadores.

Quais são, na sua opinião, os principais atributos do artista do novo milênio no contexto da cultura pop adquirindo dimensões novas como cultura digital virtual?

Desculpe, mas não posso e não vou responder isso. Não sou um cientista, nem um historiador, nem um filósofo, nem um profeta... sou só um músico!
Acho notável que os jornalistas sempre parecem achar que um artista deve responder a todos os tipos de perguntas sobre assuntos que nada têm a ver com o trabalho dele, e que ele deva ter respostas e soluções para todos os problemas do mundo e até sobre o futuro insondável.
Eu sei que muitos "artistas" dão essas respostas... mas prefiro o jeito como Bob Dylan lida com a questão. :-)

Você vê imagens na sua mente quando toca?

Não, eu não vejo imagens na minha mente quando toco minha música. Nem no estúdio nem durante um show. Eu sei que isso acontece com os ouvintes, pelo menos pelo que me dizem, mas não comigo quando estou criando a música.

Seus filhos gostam da sua música?

Claro que não. Eu faço o que posso, sou apenas o velho pai deles. "Pai" já estaria bom, mas eu também sou velho - velho demais para eles me acharem "cool". Também já fui jovem um dia. Eu lembro como era. Naturalmente eu não ouvia as músicas favoritas dos meus pais! Era "uncool" mesmo.

Qual a sua maior satisfação e qual seu maior desapontamento?

Provavelmente você queria ouvir uma resposta mais sensacional, mas não tenho. Estou satisfeito por ainda poder fazer minha música. E satisfeito porque existem pessoas por aí que gostam dela.

Que direção você vê a sua música tomando no futuro?

Quase toda entrevista acaba com essa pergunta. Tudo bem, mas o que posso dizer além de "não sei"? Depende de muitas coisas. Eu espero nunca ficar chato. Se um artista não consegue fascinar as pessoas, acabou. Impressionar é tudo o que é necessário na arte. Você não pode aborrecer as pessoas.

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