2006-04-23

Hybris

Em 24 de junho de 1994 o "Czar 52", um B-52, caiu na base aérea de Fairchild, nos EUA, no meio de uma manobra radical durante um vôo de ensaio para um show aéreo que ocorreria dali a dois dias. O avião era pilotado pelo Tenente-Coronel Bud Holland; estavam a bordo três outros oficiais graduados da Força Aérea. Os quatro morreram instantaneamente na explosão, assim como cerca de uma dezena de pessoas em terra.

Foi um dos acidentes aéreos mais divulgados da história e existem dele vídeos e um curto documentário na Internet, bem como esta fotografia, que dá uma boa idéia do horror do acidente sem precisar mostrar a explosão. Surpreendentemente, no fórum onde está essa foto também há uma discussão entre parentes dos aviadores mortos.

Bud Holland tinha 23 anos de experiência de pilotagem do B-52. Era considerado o melhor piloto de B-52 de toda a Força Aérea. O seu excesso de autoconfiança tornou-o irresponsável, e a partir dos anos 90 ele executou muitas manobras imprudentes, arriscando vidas. Em todas as missões que cumpriu naqueles últimos anos, ele fez curvas em ângulos de rolagem excessivos e efetuou rasantes extremos, um desses documentado em vídeo. Durante os shows aéreos, cometeu transgressões flagrantes como sobrevoar diretamente o público e fazer manobras muito além dos limites regulamentares, sem outra necessidade além de satisfazer a vaidade pessoal.

Desobedeceu ordens diretas para parar com as manobras perigosas. Não ouviu conselhos, recomendações e reprimendas de ninguém. Seus superiores não intervieram para evitar a escalada temerária por duas razões: complacência com o talento do piloto e má comunicação interna. Os sucessivos comandantes da base não trocaram informação adequada sobre os incidentes. As repreensões que Holland tomou por pilotagem arriscada nem sequer foram registradas por escrito, e as seguidas violações das normas de segurança nos shows aéreos eram toleradas como exibições de bravura.

Holland infringiu as normas tão repetidamente que alguns colegas de base começaram a se recusar a voar em sua companhia. Um deles disse que preferia ser exonerado a ocupar o mesmo avião que ele. Um outro chegou a fingir doença para não participar de um vôo. No dia da queda, o co-piloto era o Tenente-Coronel McGeehan, frontalmente contrário aos procedimentos de Holland, que participou do vôo fatal em substituição a dois comandados que ficaram com medo, dessa forma salvando suas vidas.

O desastre era tão completamente previsível que um dos oficiais chegou a dizer, durante uma reunião de planejamento do vôo, "tomara que ele caia no ensaio e não no show, assim não vou ter tantos cadáveres para recolher." Nos vôos de treino antecedentes, Holland repetiu todas as manobras proibidas e o comando da base não fez nada.

Finalmente, na segunda-feira da semana fatal, um atirador louco invadiu o hospital militar do nada e baleou várias pessoas. A moral estava no nível mais baixo possível e o show aéreo seria uma forma de resgatar alguma alegria na base.

No ensaio final, Holland sobrevoou a pista da base em rasante e, simulando uma abortagem de pouso, iniciou uma curva de 360 graus ao redor da torre, sem autorização desta. Com raio insuficiente, altitude insuficiente, velocidade insuficiente e rolagem excessiva, perdeu o controle quando atingiu um ângulo de quase 90 graus em relação à vertical; nesse momento, inevitavelmente o avião entrou em estol e desabou como uma pedra. Como a altitude era quase nula, nenhum dos tripulantes teve tempo de ejetar-se. A tampa da cabine do lado do co-piloto chegou a saltar do teto do avião, mas não deu para fazer mais nada. No espaço de alguns segundos, o Czar 52 arrancou uma linha de transmissão elétrica com a ponta da asa esquerda, desmanchou-se no chão, explodiu numa bola de fogo e dissipou-se num enorme cogumelo de fumaça preta.

O desastre não é famoso apenas pela forma como aconteceu, mas devido às circunstâncias que levaram a ele. Um outro militar americano elaborou um estudo do caso, que virou material de referência sobre os tópicos disciplina e liderança. As conclusões do estudo são diretas e claras. A falta de disciplina teve consequências trágicas porque a liderança foi deficiente. Quando um membro de uma organização comete infrações constantes e não sofre consequências, os colegas que testemunham os acontecimentos perdem a fé na missão e descuidam dos processos que eles mesmos dirigem, e em último caso se amotinam. Quando o comando não processa adequadamente a informação sobre o dia-a-dia da organização, torna-se incapaz de descobrir os problemas verdadeiros, aqueles que de fato precisam de solução, em vez de imaginá-los da própria cabeça. Os abusos acontecem na cara de todo mundo sem serem detectados por quem pode pará-los. Quando alguém detém poder ilimitado, sem observar as regras básicas para a convivência na organização, ele pode fazer qualquer loucura e sair impune, e a impunidade o estimula a continuar agindo dessa forma, até que a loucura seja grande o bastante para arrastar todos ao desastre.

2 comentários:

  1. Hum, onde mais se aplica isso? Quando a liderança é delegada, deveria existir formas mais rápidas de removê-la em casos extremos. Daí talvez um esquema presidencial aqui não seja muito interessante.

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  2. Caraca que história! Eu nunca tinha ouvido falar desse acidente.

    Vou linkar seu post la no blog pq ficou show.

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