2006-02-03

O monitor (Algo dá errado)

Na quarta-feira, Energumênides estava sentado diretamente de frente para mim na churrascaria, e entre nós, sob a mesa, a sempre útil mochila contendo o precioso aparelho, morno de funcionar por horas naquela bateria pesada. Marilônia entrara numa época do mês repleta de imagens desagradáveis que eu preferia não contemplar. Meu inimigo secreto entretia os outros quatro colegas com seu carisma e habilidade verbal. Descrevia uma viagem de carro até o litoral, e suas mentiras e exageros, sendo eu ali o único a saber exatamente de que forma, eram tão monumentais que eu até mastigava a comida com dificuldade. Andar a 120 quilômetros por hora de ré? Ele acreditava de verdade naquilo que dizia... mas só no instante em que dizia!
Finalmente, deu um estalo em mim e não pude me controlar quando ele se vangloriou de nunca ter pego vírus em seu PC. O aparelho me dizia uma coisa diferente e eu arrisquei repeti-la diante dos outros.
"Na verdade, o seu 386 pegou de um disquete velho um Michelangelo.B, que era um vírus vagabundo datado de antes da Internet. Você perdeu os arquivos de contabilidade do seu pai, que não tinham backup..."
Ele: "Como assim?"
Minhas palavras saíam da boca de forma automática, incontrolável: "Foi um vexame. Ele cortou sua mesada exatamente quando faltava o último pouco para financiar a sua primeira ida secreta ao bordel. Você cometeu a bobagem de contar a verdade aos colegas de colégio, e além de eles terem ido lá sem você, fizeram piada de você e de seu pai dominador durante o resto do colegial. Seu apelido dali em diante: Saquinho. Porque era o saquinho de pancada do papai e tinha um saquinho atrofiado pela falta de uso."
Ele desmentiu a história com uma risada fácil, mas seu olhar tinha já um ângulo assassino. E seus pensamentos eram de perplexidade e raiva. Como poderia eu saber? Como um típico mau-caráter de novela, ele portava sua dose pessoal de paranóia e já suspeitava, sem base nenhuma, que eu seria um dos três ou talvez quatro na empresa que estariam "armando" para cima dele.
Comecei a gostar, confesso desavergonhadamente, da pequena amostra de poder real que senti naquela tarde. Os colegas presentes acharam que eu tinha blefado - pude comprovar isso com segurança, sintonizando o aparelho neles ali mesmo, operando o controle disfarçadamente por baixo da mesa -, mas guardaram nas suas mentes o apelido "Saquinho". Cada um deles tinha, afinal, pelo menos um motivo para sacanear o colega falseta.
Eu estava impossível naquele dia, porque apenas duas horas após o almoço eu parti para cima dele novamente. Entrei no escritório com um saco de pirulitos comprados na padaria e anunciei: "A partir de hoje, Saquinho para todos!" E mais uma frase que prefiro não copiar aqui.
Pois nesse momento, o aparelho morreu. Travou. Desligou.
As impressões variadas e coloridas desapareceram instantaneamente, deixando apenas o vazio bege da pura e entediante realidade. A total incerteza. A perda do controle.
Quase dei um pulo.
Fui incapaz de ler a atitude de Energumênides. Percebendo minha confusão, ele prolongou a impassibilidade que precedia sua estudada e certamente marcante reação à minha provocação...
Saí correndo do escritório em silêncio com as mãos na cabeça. Acho que ninguém entendeu nada. Lamentavelmente, agora só posso supor e não mais saber com segurança.
Exatamente então, o meu celular tocou e ouvi a mensagem em código previamente combinada, um número que indicava o procedimento de emergência: descer até o canteiro central da avenida Meridional e aguardar a chegada da Kombi branca com o logo de um açougue inexistente e os vidros escurecidos.
O veículo, dando as caras sob plena luz do dia, era oculto da visão do prédio pelas árvores e ônibus no trânsito congestionado, e o logo era impossível de ler de longe, pois as letras eram deformadas e borradas de tal forma que se misturavam de uma maneira difícil de descrever. Mesmo os números da placa mudavam conforme o ângulo do qual se olhasse para eles. Claro que eu já tinha visto a Kombi e apenas estava relembrando tudo, checando memórias nas quais não confiava mais por inteiro. De habituado que ficara a viver dentro dos outros, não tinha mais certeza de quais pensamentos eram originalmente meus. Com a ansiedade, a confusão escalava a cada instante. Agora eu me sentia mais em perigo por não usar o aparelho do que ao usá-lo.
Um homem de terno e óculos escuros - que clichê! - desceu da Kombi parada no semáforo fechado e, sem dizer uma palavra, agarrou minha mochila para levá-la embora. O sinal abriu. A Kombi partiu com pressa e o carro de trás buzinou para eu sair do meio do caminho dele. Lembrei que tinha esquecido dinheiro na mochila, saco!, mas agora não havia mais o que fazer. Se eu me comportasse, jamais veria eles de novo. Se os visse, decerto não seria um encontro cordial.
Naquele momento, em que percebi que o aparelho se fora de vez, me senti perdido como nunca antes desde a infância. Como nunca desde aquela tarde de domingo em que escapou das minhas mãos de dez anos de idade a garrafa de litro de Coca-Cola, e como na época a garrafa era de vidro, ela se desintegrou ao longo dos degraus da escada e meus pais me olharam com um olhar que jamais esqueci, muito mais pelo refrigerante perdido do que pelo estilhaço de vidro que extraía lentamente uma gota de sangue do meu calcanhar. Mais perdido do que aquele dia em que a bicicleta ficou sem freio e literalmente passei por baixo de uma perua Veraneio sem me machucar (eu era pequeno). Mais indefeso do que o dia em que a injeção da vacina me causou choque alérgico. Como se eu tivesse acabado de esquecer como se lê.
Depois, nenhuma comunicação deles comigo e já passaram dias suficientes para eu me convencer de que eles não vão reaparecer com más notícias. Mas o medo agora mora aqui e não quer ir embora. Nem tanto medo deles, mas medo do futuro. Contudo, resolvi retomar a vida normal e visitar a minha prima. Transtornado, passei um dia inteiro sozinho sentado no parque, olhando as garças no lago e pensando o que vai acontecer quando todas as pessoas tiverem acesso... Porque eles não vão perder a oportunidade de fazer dinheiro com o aparelho assim que resolverem os problemas do tamanho e do consumo. E como boa corporação multinacional, quanto mais controvérsia moral com seu produto, melhor para os negócios!
Meu tempo se esgotou, sugiro que você destrua este texto e se arrependa de ter insistido em me fazer contar. Não se preocupe, daqui a alguns anos você vai poder reler palavra por palavra na minha mente através de uma caixinha que já vai estar do tamanho de um daqueles velhos telefones celulares que tinha que trocar a bateria a cada 10 minutos de conversa, lembra? Nosso pequeno grande segredo. Até amanhã.

2 comentários:

  1. Gostei da idéia do conto.

    Quanto ao texto achei a terceira parte a melhor escrita, talvez por ter chegado à parte que vc queria. O texto completo é muito curto. Acredito que vc deveria ter escrito mais ou jogado menos personagens com maior desenvolvimento - difícil pq não tem tantos personagens assim. Parece que vc tinha um pouco de pressa em colocar as idéias no papel então ficou com um ritmo rápido porém esburacado.

    Eu sei que parece um contrasenso para uma história de ficção, mas os nomes esdrúxulos tiram a "veracidade". Assim eu lembro que estou lendo uma história e me sinto trapaceado - não sei se isso é muito claro. Mesmo na ficção mais estapafúrdia, é necessária a sensação de realidade.

    Vc escreve muito bem no blog, suas idéias são claras, mas seu texto de ficção foge muito do resto. Acredito que falta só calma, entrar mais na história sem se preocupar com o formato (esta preocupação aparece na escrita), e escrever e mostrar outros cem contos.

    Acho que contos tem sido subestimados nos últimos anos. Acho que vale a pena insistir pq um bom conto é um pedaço do paraíso.

    Parabéns.

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  2. Você está me tomando por principiante ;-) mas as únicas coisas relevantes sobre esse conto são duas: que ele é o único atualmente no ar (houve outros, afortunadamente ignorados) e é longo demais, correndo sério risco de ficar ilegível no formato blog.

    Tudo no texto tem uma razão. O formato reflete exatamente alguém que tenta se equilibrar entre uma descrição detalhada, enquanto a memória está fresca, e a pressa de se livrar da mensagem. Muitas coisas ficam subentendidas ou fragmentadas. Se tivesse omitido mais informações efragmentado mais as subsistentes, o resultado seria melhor.

    O uso de nomes inventados chama a atenção propositalmente para o fato de que é ficção. Não quero ser confundido com o personagem. Na internet, a qualquer parágrafo que você escreve aparece um monte de amigos e desconhecidos achando que você é aquilo que põe no papel (ou nos pixels), e não adianta desmentir e provar nada. Não me interessa que pensem que isso tudo é bobagem. Para mim pessoalmente faz diferença.

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