2006-01-09

Sociedade virtual, parte 817524

Há três anos, eu escrevia este blog e também outro separado, com textos sobre tecnologia. Como eu trabalhava na revista Macmania, os textos se concentravam naturalmente nos computadores da Apple.
Então, mudei de posição. Reconheci os proselitistas de Mac, incluindo eu mesmo na época, como nerds chatos (exceto uns poucos heróis intelectuais que merecem um post à parte, mas mantenhamos as coisas simples). Me desiludi com algumas coisas e mudei para outro emprego melhor. Não deixei de usar produtos Apple, mas voltei a usar PCs junto com os Macs. E quase parei de comentar o mundo das maçãs no blog, em parte porque às vezes é chato mesmo, e em parte porque com o sucesso continuado da Apple, há um número muito maior de comentadores com coisas interessantes a dizer, e assim, não me sinto misteriosamente obrigado a falar de tudo o tempo todo.
Mesmo assim, passados dois anos, a quantidade de pessoas que acessa este meu site a partir de um Mac é de 22 por cento, muito mais elevada que na média dos sites brasileiros. A influência perdura.
Enquanto isso, no orkut (grafado corretamente com "o" minúsculo, gostemos ou não), quase todos os pedidos de pessoas desconhecidas para entrar na minha lista de amigos são de leitores dedicados das revistas de games nas quais trabalho. Muitos são gamers fanáticos que só participam de comunidades sobre games. Ficam me pedindo dicas de jogos, sendo que não escrevo uma única linha nessas revistas.
São exemplos simples de que a imagem social de uma pessoa na Internet não tem muito a ver com seus interesses principais na vida real. Por exemplo, ando de bicicleta constantemente e não escrevo nenhuma das minhas aventuras de bike no blog. E tanto como aqueles "amigos" do orkut obviamente não vivem em função de jogar videogames, eu não sou um fanático do Mac. Mas é assim que lhe parecerá se rastrear minhas pegadas deixadas na rede. O terceiro link mais relevante do Google para "Mario AV" é para uma dupla de skins de Kaleidoscope que desenvolvi para o Mac OS em 1998 - sendo que esses skins perderam toda a relevância em 2001.
O quinto link da lista é a frase "Ficou parecendo que - desculpe, Mario AV - só queria arranjar uma namorada", comentário desnecessariamente equivocado do Julio, do Digestivo Cultural - do qual não aceito as desculpas embutidas, pois é um erro que foi parar constrangedoramente próximo do topo da lista de relevância de uma busca do Google com meu nome.
Percebe?
Dessa forma, foi com sentimentos mistos que li mais uma matéria em revista contando que os departamentos de RH de empresas "antenadas" na Internet analisam as fichas de orkut dos candidatos, a fim de descobrir qualidades e defeitos não apresentados nos seus currículos.
Se mesmo com honestidade radical e poucas reservas quanto à privacidade já não se consegue criar uma representação fiel da personalidade de uma pessoa na Internet, qual é a verdadeira possibilidade de se avaliar o seu caráter pelo orkut, que para a maioria é só um passatempo? Seria realmente justo eliminar um candidato a emprego porque ele participa da comunidade "eu já bebi até cair" do orkut?
Até agora, nenhuma novidade aqui. Blogueiros discutem e analisam isso com o mesmo interesse com o qual faço viagens virtuais no Google Earth. Apenas me pareceu que é um interessante ponto de partida para reinaugurar a discussão.
Feliz ano novo.

10 comentários:

  1. Claro que não é justo! Alguém acha que é??

    Mas essas comunidades inuteis do orkut, eu odeio elas! Eu até tinha algumas mas exclui tudo, agora so tenho 4 e somente por causa do forum delas que as vezes visito.

    E aqueles recados, que treco chato ainda bem que quase não recebo. "Clique no peixinho para .... bla bla bla".

    orkut é muito palha, na minha opnião, só serve para encontrar alguem e olhe la.

    Ahh se alguem leu, eu concordo com que o Barbao escreveu na ultima PC Magazine na sua coluna mensal. Estamos e sempre fomos atrasados! Não que eu goste disso.

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  2. Concordo com o Barbão nas suas duas teses: na cultura novidadeira-fútil do internauta brasileiro e na falta total de noção estratégica dos provedores locais, que xerocaram o orkut em vez de criar uma alternativa que oferecesse algo a mais.

    O orkut decepciona porque os seus criadores o deixaram parado no estágio de "idéia promissora necessitando melhorias urgentes".
    Que tipo de melhorias?
    Por exemplo: maior possibilidade de personalização da página, estilo MySpace; coleta de dados mais específica a gosto do usuário; um mecanismo de cruzamento automático desses dados, capaz de apresentar novas pessoas com preferências semelhantes sem que os usuários precisem caçá-las nas comunidades; um álbum de fotos de verdade (estilo Fotolog); um blog completo para casa usuário (estilo LiveJournal); filtros contra spams nos scrapbooks (estilo filtros dos comentários do Blogger); servidores menos empacados; histórico opcional da home page de casa usuário; publicidade de banners no topo das páginas (estilo Blogger); e até mesmo (por que não?) uma maneira de apontar seus inimigos na rede, bem como os amigos, acompanhado de um sistema automatizado de moderação para mediar desentendimentos em discussões.
    Tudo isso são idéias que enxergo como conceitualmente óbvias e de implementação plausível. Algumas delas (mas não todas) não aumentariam o custo de operação do serviço. Não é difícil ter idéias. Difícil é a "vontade política" para implementar.

    E por que o orkut está estagnado? Só posso imaginar uma resposta: para o Google não vale a pena investir em um projeto que não traz receita comercial e cujos usuários são um bando de brasileiros com tempo sobrando, mas que nunca vão querer pagar um centavo para usá-lo, e se confrontados com a necessidade de pagar qualquer quantia que fosse, simplesmente sairiam e migrariam para o próximo hype do momento.

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  3. Essas ideia são boas mesmo. Mas acho q o orkut não voltaria - isso falando fora do Brasil - a "ideia" original dele mesmo se implatasse essas mudanças ele ja acabou.

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  4. Mario, como vc, gosto de bicicleta, ando desde criança. às vezes, até ficar com as partes baixas dormentes. Como já tinha lido em algum lugar, quem faz isso corre risco de ficar impotente. Outro dia, uma entrevista com um médico (trecho abaixo) falava sobre o assunto:

    Todo homem que anda de bicicleta corre risco?

    Não. Quanto mais se anda de bicicleta, maior a possibilidade de disfunção erétil. Logo, quem pedala muitas horas por semana tem risco. Já quem o faz ocasionalmente ou por curtos períodos, tudo indica que não. Por via das dúvidas, acabei de trocar o selim da bicicleta do meu filho de 15 anos. Por outro lado, andar de bicicleta é um exercício aeróbico muito eficaz para manter as condições cardiovasculares. Logo, é importante ter um selim adequado e fazer exercícios.

    Tá no NoMínimo:

    http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=31&textCode=20370&date=currentDate&contentType=html

    Quanto ao Orkut, saí fora em outubro de 2003. Tirando uma comunidade ou outra, achava perda de tempo.
    [ ]ão

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  5. E esse egosurf aí?

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  6. 1.000ton, o risco da impotência só atinge realmente atletas profissionais. Eu pedalo duas sessões de 40 minutos nos dias de semana, quando as condições atmosféricas permitem, o que no clima horrível de São Paulo significa uma média de apenas três dias pedalando por semana. É muito pouco. Uso os selins estilo competição estreitos sem problemas. Quem quer mais conforto ou evitar ficar encanado pode usar um modelo com o furo no meio, que distribui melhor a pressão. Para mim, um problema muito mais sério é que ciclistas casuais sentam baixo demais, perdendo eficiência e estragando os joelhos.

    tyler, se você quer garantir uma aparência aceitável para outras pessoas, é recomendável olhar no espelho antes de sair de casa. Da mesma forma, se você pretende passar uma mensagem na internet e quer descobrir qual é a melhor maneira, é recomendável observar seus links e visitantes. OK?

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  7. Ah tá... Então não é egosurf, é mais tipo aquelas pesquisas qualitativas que tem pra TV ou pro horário político. Ok.

    PS: Poderia ligar pro blogger e pedir pra encurtar estas letras aí embaixo, tão ficando muito difíceis.

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  8. O blog é livre para o autor escrever o que quiser e para qualquer pessoa ler ou não. Assim sendo, e ainda dentro do tema do post (a identidade distorcida das pessoas na Internet), fico aqui tentando imaginar, e não conseguindo, que tipo de pessoa tem o trabalho de ler o blog de um desconhecido e então escrever provocações bobas nos comentários. Também não imagino que tipo de benefício você acha que vai obter com isso para quem quer que seja.
    Não imagino as motivações, mas imagino o efeito: absolutamente nenhum, pois a partir daqui, se quiser ser mala comigo, os comentários serão apagados e ninguém vai nem saber que foram postados.
    Tenha um bom dia.

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  9. Numa postagem sobre a personalidade virtual das pessoas, não poderia faltar o senso se impunidade que paira na Internet, nem a má educação que infelizmente é tão comum entre os brasileiros conectados à Rede.

    O orkut é como se fosse um tamagochi pessoal, e isso é frustrante. Sim, porque, como já dito aqui nos comentários, se seus criadores tivessem mais boa vontade este sistema poderia ser, sim, uma verdadeira comunidade virtual, mas vejo que, hoje, ele se resume a um espelho distorcido da parte mais pútrida do ego das pessoas. Há exceções, é claro, e o orkut, apesar de tudo, tem lá suas vantagens, que embora poucas, são valorosas, e o motivo para eu ainda não ter apagado meu perfil lá.

    Ótimo texto, Mario!

    []'s

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  10. Ola!

    Num caminho paralelo ao tema do post, seria interessante discutir por que as pessoas tem a tendencia de mostrar seu pior lado quando comentam num blog.

    Já deixei de visitar alguns blogs por que não suportava o clima de agressividade nos comentários que chegava a influenciar o próprio dono do blog.

    Abraços ciclisticos!

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