2006-01-31

O monitor (Primeira etapa: cognitivo-sensorial)

A experiência começou numa segunda-feira de sol. Como o monitoramento roubaria a concentração de meus próprios afazeres, segui a instrução expressa de usar o aparelho somente no metrô, indo e voltando do serviço, sentado num banco no fim do trem, fingindo cochilar. Eu repetiria esse procedimento durante uma semana. Meus alvos iniciais eram pessoas estranhas, que certamente eu nunca veria novamente, o que me deixou mais desinibido para explorar. Aos poucos a curiosidade e a impunidade venceram meus pudores iniciais. E com muita dificuldade fui conseguindo enxergar um pouco além dos seus conteúdos mais imediatos e investigar os mais ocultos. Mas a profundidade da minha visão dependia muito do quanto a pessoa era fechada. Anotar sugestão de upgrade para o aparelho: direcionamento mais específico.
A primeira pessoa que investiguei era um homem bem mais jovem que eu, de aspecto bem saudável e aquele olhar desprovido de expressão, típico dos passageiros de um transporte chato, viajando com sua mente muito longe daquele vagão lotado. Para minha total surpresa, por dentro ele era como se fosse uma sala de estar arejada e muito espaçosa, mas desprovida de móveis. Logo fiquei entediado com a lentidão e rarefação de seus conceitos. Uma letra de um rap que eu particularmente detesto me fez abandoná-lo de vez. Posteriormente descobri que essa característica de rarefação e lentidão é própria do que cinicamente poderíamos chamar de um QI subnormal.
A segunda pessoa foi uma mulher ruiva de aspecto inteligente, que mentalmente não contradisse sua aparência: por exemplo, fuçando um pouco descobri que ela sabia ler partituras musicais, coisa que sempre desejei mas nunca aprendi. Mas seu pensamento não saía de processos banais como alimentar os gatos e orçar a reforma da casa. Uma repelente cena de um banheiro velho ia e voltava, sempre igual, de forma inexplicável. E uma vasta parte de sua cacofonia mental eu simplesmente não consegui decifrar e fiquei pensando se isso não seria exatamente por ela ser do sexo oposto. Mas depois descobri a mesma dificuldade com outros homens, bem como uma facilidade maior com outras mulheres. Do início ao fim do experimento me chamou a atenção em tantas pessoas a quantidade expressiva desses conteúdos impenetráveis, que eu simplesmente não tinha por onde começar a compreender. Como se fossem textos escritos num alfabeto que eu nunca lera, só que numa forma multisensorial.
Uma parcela considerável das pessoas observadas reproduzia mentalmente a pronúncia e entonação de discursos imaginários que pretendiam dizer a alguém mais tarde, rememoravam diálogos de novelas (curiosamente fora de ordem) ou conversas recentes com alguém, ou então liam tudo que enxergavam - páginas de jornais, livros, propagandas no trem - de forma compulsiva e com uma irritante vozinha interior que, além de não se parecer nada com sua voz real, praticamente monopolizava sua consciência focada e tornava a pessoa francamente desinteressante. Acompanhar alguém lendo um jornal era uma tortura: constantes saltos erráticos, frases pela metade, interesses fúteis, nomes lidos errados, análises políticas desesperadoramente superficiais, idéias hiper-radicais inconfessáveis, sentimentos penetrantes de arrogância e desprezo generalizado - e eu impotente, observador passivo proibido de interferir, quase ficava exasperado.
Fiquei espantado com outra coisa que ninguém comenta, mas para mim ficou muito evidente. Além de pensarem de formas variadas, muitas e muitas pessoas enxergavam as cores de outra forma. Às vezes seu raciocínio de cor era até difícil de acompanhar, pelo simples fato de diferenciarem com precisão dois tons de roxo ou laranja que para mim são idênticos. Mulheres, particularmente, davam nomes diferentes a cores exasperantemente iguais para mim. Mais de uma vez deparei com homens que só viam o mundo em tons de azul e laranja e nem desconfiavam disso. Em termos de visões estéticas, aparentemente a maior parte da população não tem um pingo sequer de imaginação plástica e está totalmente sob o jugo dos designers.
Já a sensibilidade musical era bastante mais desenvolvida e também mais uniforme, se bem que a grande maioria só "pesca" uma fração reduzida da linguagem musical que é usada mesmo nas canções pop mais comuns. Me irritou a constante preponderência das letras sobre as melodias e das melodias sobre as harmonias. E quanto mais medíocre a letra, mais fácil de ser conhecida por inteiro. Quase todos eram incapazes de distinguir sequer entre duas tonalidades: seu mundo musical funcionava numa única escala de notas, sendo apenas os intervalos básicos conhecidos, e mesmo isso de forma vaga. Apenas por duas vezes captei visões musicais realmente sofisticadas, duas de música clássica e uma de jazz. O jazz continha extensos trechos em branco que substituíam os detalhes do solo na gravação original. O seu imaginador pulava habilidosamente para frente e para trás na música, como uma espécie de DJ mágico. O fã de música clássica focava constantemente num instrumento ou grupo de instrumentos e esquecia o conjunto. Se eu não conhecesse Ravel de antemão, jamais desconfiaria o que seria aquela massa de imagens sonoras abstratas e desconexas. Era algo análogo a ler um texto pulando três palavras a cada cinco, misturando as vogais A e O e ainda com os parágrafos fora de ordem.
As visões eróticas masculinas eram de uma frequência que de certa forma não me surpreendeu, nem no "tipo" de pessoa em que era mais frequente nem em sua natureza. As mais elaboradas eram de alguns rapazes adolescentes, capazes de bolar instantaneamente uma "história" completa a partir do simples vislumbre de uma garota que os inspirasse por seu formato físico. Em um deles, uma espécie de raio-X mental as desnudava com precisão enquanto eram observadas por ele. Externamente ele não tinha a menor aparência de alguém tarado ou obcecado com o assunto. Mas ele conseguia ter dezenas de microvisões desse tipo numa única viagem de trem. A maioria dos demais era inimaginativa e totalmente obcecada com um único aspecto do assunto.
Já as mulheres em geral têm pensamentos mais ocultos, espaçados ou discretos, como se elas os escondessem de si mesmas. Generalizando porcamente, a maioria delas é mais sinestésica, complexa e extremamente vaga em suas fantasias, levando em conta dados sensoriais adjacentes como umidades, temperaturas, cheiros e texturas, enquanto o homem em geral é predominantemente visual e brutalmente factual. Mas não é preciso usar um aparelho para saber disso. É de conhecimento público e um fator básico de nossa cultura e nossos desentendimentos. Apenas não gostei exatamente do que vi das visões e conceitos femininos sobre homens... já fiquei apreensivo e temendo pelo que descobriria das minhas amigas, na etapa seguinte do experimento. Mas pelo contrário, até que as descobertas nesse campo não foram ruins.

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