2006-01-26

Interface humana, parte 4: beleza é fundamental

Desde sempre, os aplicativos que reproduzem operações do mundo real numa interface gráfica tentaram usar metáforas funcionalmente realísticas. Um dos primeiros foi o PageMaker, que funcionava com uma lógica similar à mesa de diagramação, com os textos importados na forma de "tiras" e páginas que buscavam simular a aparência do resultado impresso. A simulação não era muito fiel, mas suficiente para ser compreendida à primeira vista. O software revolucionou a paginação de publicações; todos os programas atuais do gênero, embora sejam às vezes mais abstratos em algumas das ferramentas, ainda honram sua influência.

Durante os anos 90, descobriu-se que pegava bem as interfaces de softwares incorporarem elementos foto-realísticos sugerindo textura e profundidade. O mundo gráfico foi tomado pelo KPT, conjunto de filtros de Photoshop criados pelo inventor alemão Kai Krause. A filosofia visual do KPT e outros programas de Kai é que cada ferramenta deve funcionar no mundo virtual do mesmo jeito que funcionaria no mundo real. Lupas têm a aparência de lupas, pincéis se comportam como pincéis... até os botões de controle devem ser visualmente identificáveis como botões e não como símbolos pixelados. Alguns elementos, como os menus em diagonal no Convolver e as janelas com forma irregular no KPT3, foram criticadas em sua época como "brinquedos antifuncionais"; mas em verdade essas críticas vinham de usuários ávidos pela uniformidade sem surpresas das interfaces simples do passado. A filosofia do KPT é contrária à uniformidade. Cada ferramenta deve ter identidade própria e funcionamento independente, exatamente como acontece no mundo real: um alicate e uma chave de fenda não são usados da mesma maneira.
O conceito visual, cheio de volumes, brilhos e sombras realísticas, camadas e contornos arredondados, foi aperfeiçoado em programas posteriores do mesmo autor - Bryce, Photo Soap, Show, Goo - e por fim influenciou decisivamente a aparência do Mac OS X e (de maneira menos bem-sucedida) do Windows XP. E também influenciou toda uma geração de designers gráficos que incorporaram avidamente os elementos foto-realísticos simulados em quase tudo que tem aparecido pela frente, desde diagramações até logotipos, às vezes com resultados excelentes, outras vezes desastrosos.

O KPT foi moda entre 1994 e 97, mas caiu em desuso rapidamente, em parte porque muitos dos efeitos gerados por ele são facilmente reconhecíveis. A Corel adquiriu os filtros e os vende na forma de um pacote multiplataforma.

Programas modernos de edição de áudio, imagens e vídeo mantiveram a idéia de replicar controles do mundo físico. Equalizadores gráficos em softwares não precisam necessariamente ter botões deslizantes com volume e sombra, mas por que não? No iTunes, quando você zera os controles do equalizador, cada botão desliza graciosamente para a posição central, em vez de pular diretamente como seria normal num programa mais antigo. Editores de vídeo e áudio usam botões rotativos e controles de jog que respondem como os de verdade.

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