2006-01-26

Interface humana, parte 3: reinventando a roda

Jef Raskin, inventor falecido há um ano, foi o criador original do Macintosh. Destituído da função por Steve Jobs antes do Mac ficar pronto para o lançamento, ele passou o resto da vida convencido de que o resultado tinha ficado aquém do que deveria. Usando seus conhecimentos de neuropsicologia, pesquisou princípios para fundamentar uma nova interface que resolvesse as deficiências dos sistemas atuais. O resultado da pesquisa foi o livro The Humane Interface, lançado em 2000.
Lamentavelmente, pouca gente sequer ouviu falar do livro. Porém, um grupo de seguidores liderado pelo seu filho Aza Raskin transformou a pesquisa em um software open source capaz de demonstrar os seus princípios. Esse software, chamado Archy, roda em PC e Mac.
Algumas das inovações do Archy chegaram a ter implementação comercial num computador raro que Raskin projetou ainda nos anos 80, o Canon Cat, conhecido com o primeiro "Information Appliance" (eletrodoméstico informático) - termo, aliás, inventado por Raskin.

O site do projeto Archy contém, além dos downloads, algumas explicações e demos. O download, que eu testei em meu PC, é a parte que lida com edição de texto. Mas uma das demos em particular é mais atraente, pois simula a parte do sistema que ainda não foi implementada: a navegação pelos arquivos.
Tudo o que você faz no computador existe na forma de objetos - não simples ícones, mas as coisas em si mesmas - e para acessá-los, a única coisa que você precisa fazer é dar zoom sobre eles. Como os objetos residem dentro de um espaço virtual, tem-se a ilusão da ausência de limites da tela.
Não existem aplicativos individuais para serem abertos e fechados: é só acessar cada objeto e sair editando. Também não é preciso salvar nada, e todas suas ações ficam acumuladas num histórico permanente, que permite voltar atrás em Undos ilimitados até o instante da instalação do Archy. Além disso, seria possível ligar e desligar o computador num instante, sem dar boot (ou no caso da demo, abrir e fechar o programa imediatamente).
A tela não é dividida em janelas, paletas ou nada do tipo. Os diversos documentos de texto são separados uns dos outros por simples linhas horizontais.
Também não existem menus nem barras de ferramentas: o sistema inteiro é operado via comandos digitados. A tecla Caps Lock funciona para invocar o modo de comandos, que se sobrepõe momentaneamente à tela. Basta digitar dois ou três caracteres para a máquina reconhecer o comando. Isso significa, logicamente, que é preciso estudar e decorar os comandos antes de poder usá-los, tarefa que a "geração mouse" deve considerar sem sentido. Eu mesmo, que já usei bastante CP/M, DOS e bash, senti uma resistência à idéia de voltar a digitar comandos. Mas o resultado, paradoxalmente, é uma simplificação do modo de usar em relação às GUIs modernas.
Também vale comentário o método das Leap Keys, que utiliza as duas teclas Alt para saltar de um lugar para outro dentro do documento. Uma tecla Alt retrocede e a outra avança; basta apertá-la e digitar o começo da palavra para onde se deseja saltar. Esse método engenhoso permite andar dentro de um texto com uma velocidade incrível. Mas é difícil abandonar a sensação de necessidade de uma scrollbar, especialmente quando não se sabe exatamente qual palavra buscar. O scroll com as teclas de setas existe, mas serve para ler outras partes do texto e não para navegar com o cursor
.
O resultado é um ambiente perfeito para digitar e editar textos, com as mãos pousadas sobre o teclado e nada de distrações por caixas de diálogo, mensagens de alerta etc.
Evidentemente, no estado atual o Archy só pode ser considerado completo para atividades baseadas em texto, como email. Jef Raskin achava que a aplicação do mouse deveria ser limitada estritamente aos usos gráficos. Pois não faço idéia de como seria o uso gráfico do mouse dentro do Archy. Num programa gráfico, paletas e menus são tão indispensáveis como a simulação de pincel que o cursor proporciona. Talvez o conceito do Archy precise ser flexibilizado em algum ponto para acomodar usos gráficos, senão o sistema permanecerá somente como a melhor máquina de escrever já inventada, sem chance de conquistar o público acostumado a clicar.

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