2005-10-26

Déspotas esclarecidos

Capa EGM PC 07Ontem o Barbão, Faure, Jô, Pablo e outros luminares da Futuro estiveram no evento de lançamento do jogo Age of Empires III e voltaram dizendo que os caras da Microsoft consideraram a capa da EGM PC 07 "a melhor capa de revista sobre Age III até agora... no mundo inteiro".
Confete à parte, a capa foi produzida a partir de material da própria Microsoft. A imagem do sanguinário soldado de Cortez é uma ilustração feita à mão que vai dos pés à cabeça do personagem e inclui um amplo fundo detalhado e uma fogueira à frente, em layers de Photoshop separados. O tamanho total da imagem é 600 MB, suficiente para render um pôster com área de 16 páginas.
Para alguém isso pode soar como a ironia das ironias. Mas é fato: se todas as empresas cuidassem tão carinhosamente do seu marketing de produto como a Microsoft...
Dependendo do ramo, há maior ou menor cuidado com a imagem do produto. Empresas de games ajudam bastante. Quase todas as capas de revistas de games que você vê da Futuro e das outras editoras são feitas a partir de artes originais fornecidas pelas desenvolvedoras. Outro bom exemplo são as empresas de celulares, que produzem inacreditáveis macrofotos em alta resolução que poderiam ser ampliadas até revelar as moléculas dos telefones, se fosse necessário.
Por outro lado, fábricas de acessórios de informática são um pesadelo do qual não se acorda. Elas acham que uma imagem minúscula e pixelada do website é suficiente para usar numa página de revista. Quando pedimos a imagem maior (afinal, a foto original era maior, né?), ninguém sabe dizer onde está, ou então manda por email a mesma imagem que está no site. Daí que os produtos testados precisam ser fotografados na redação...

2005-10-25

O velho assunto de sempre

O colunista americano John C. Dvorak escreveu uma reclamação na PC Magazine (aqui o original em inglês) onde diz que a grande maioria dos jornalistas de tecnologia usa Mac e por isso, na opinião dele, tem viés automático contra o Windows e o PC.
Interessante é que a realidade brasileira é exatamente inversa à norte-americana. Dvorak deveria visitar o Brasil. Além das praias, da música e da caipirinha, ele iria adorar o nosso mercado de informática. E talvez mais ainda a nossa imprensa de informática.
Ele diz que nos EUA há pessoas que jamais usaram o Windows e desprezam tudo o que se refere ao mundo PC por atacado, prejudicando a Microsoft. Aqui vale o oposto: já teve jornalista que escreveu reclamando que o Mac não vem com o Windows.
O Mac é quase inexistente no Brasil: sobrevive nas vitrines da Fnac, na casa de alguns endinheirados, em certas editoras, estúdios...
Durante a reserva de mercado de informática, era ilegal no Brasil possuir qualquer computador que não fosse da plataforma PC. Com o fim da reserva, na ausência de outras plataformas, o PC com Windows firmou-se como monopólio absoluto - ao contrário de outros países, onde sempre houve alternativa.
O Mac, mesmo no período de baixo preço e popularidade no Brasil em 1996-98, nunca concorreu verdadeiramente com o PC no mercado não-especializado. Sempre teve esse bem conhecido caráter de nicho elitista, e os usuários que o tentaram trazer para fora do nicho sempre sofreram preconceito e ignorância.
O descaso da Apple com o mercado brasileiro é tão antigo e conhecido que os usuários já montaram um abaixo-assinado e um blog de protesto.
Apesar de tudo isso, a imprensa no Brasil não é mais tão radicalmente pecezista como já foi. A maioria dos jornalistas que conheço sabem que o Mac existe, e vários o preferem. O viés denunciado por Dvorak não se confirma aqui: fora um ou outro maluco, quem usa Mac não evita usar o PC nem boicota a Microsoft como ato de fé.
Casos de puro e franco preconceito anti-Apple na mídia, como os que ocorreram repetidamente na Folha de S.Paulo e na revista Info Exame, têm dado um tempo desde o sucesso do iPod. Hoje são mais comuns erros de informação simples, como alguém esquecer que um produto para PC também funciona em Mac. E as mais recentes invenções para distorcer mentes de Steve Jobs, no embalo do iPod, têm encontrado aplauso desinibido.
Já o Windows, embora seus fãs declarados sejam raros, nunca sofreu muito, mesmo na época de maior hype do Linux. O que nunca mudou é o hábito de considerar o hardware PC como um padrão único, herança cultural da reserva de mercado. Mas o Brasil também é atípico na popularidade dos PCs sem marca, montados peça por peça ao menor custo possível. Em outros países essa prática é domínio dos nerds avançados.

Faz falta uma CPI do Jornalismo?!

Na sequência direta da controvérsia da Veja, temos dois novos casos da imprensa que me assustam.

O primeiro envolve a própria Veja. No Estadão de domingo, como quem não quer nada, surgiu uma notinha afirmando que o prédio da Editora Abril em São Paulo é alugado e o seu dono é o mesmo dono da CBC, principal fábrica de armas e munições do Brasil e do continente. Aguardo as provas em contrário.

O segundo caso é mais imediato, estourou hoje. Na IstoÉ Dinheiro desta semana saiu uma matéria chamada "A derrapada da Nintendo". A matéria inteira é pautada pelo estilo Veja: apresenta uma tese editorial - "a Nintendo está fracassando" - e então junta opiniões para provar essa tese. Note a sutileza: eu disse opiniões e não fatos.
Como eu mesmo trabalho no mercado de games, sei onde, como e porque a tese é furada. O fato numérico apresentado pode ser lido de várias maneiras e não necessariamente negativas. A comparação com as outras empresas é desbalanceada. Só como exemplo, a Microsoft se dá ao luxo de perder dinehiro em cada exemplar de Xbox vendido, e a Sony não fatura nada com games no Brasil devido à pirataria. O principal produto da Nintendo em vendas não é o GameCube, qualificado pela matéria de perdedor, mas o portátil Nintendo DS, que é o console mais vendido no momento. O DS só é citado no texto como sendo um fracasso na competição com o PlayStation - o que é um erro, pois o concorrente mais próximo do DS é o PSP, o videogame portátil da Sony. Mais erro: dizer que o GameCube vai sair de linha dentro em dois anos devido ao seu suposto fracasso, quando na verdade ele será substituído pelo Revolution.
A revista condena antecipadamente o Revolution, ainda não lançado, partindo de uma premissa falsa:

A próxima tentativa será o console Revolution, visto como a chance de conquistar os grandalhões, mas que nasce sem grandes inovações, com uma simples mudança de design.

Isso é rigorosamente equivocado. O Revolution não é adaptação de um aparelho existente: é completamente novo, Comparativamente aos produtos da Microsoft e Sony, é o console que tem o controle mais inovador de todos. E tanto a imprensa leiga tem noção disso que a revista Time da semana passada elegeu o controle do Revolution como uma das "5 Things That Will Blow Your Mind". Em segundo lugar, logo após o novo avião da Boeing. Segue o texto, claro e sem achismos:

When it comes to video-game controllers, Nintendo has always been an innovator. Back when Atari and its one-button joystick ruled, Nintendo devised a two-button controller with a directional thumb pad. Then came action-sensitive vibration, wireless connectivity and an analog stick for 360° steering. Now the company hopes to shake things up with a wireless controller for next year's Revolution console that will allow players to apply real-world physical experience to games. The one-handed grip has motion and position sensors, so if you're playing a Ping-Pong game, you just flick the controller like a paddle. Or, to shoot, take aim and tap a button. For more elaborate games, a second piece with analog stick and two triggers (for that extra itchy finger) can be connected.

Como dá para qualquer pessoa desinformada deduzir do contexto, a Nintendo está na transição entre duas gerações de plataformas. Por isso mesmo, agora é um dos piores momentos possíveis para fazer o tipo de julgamento categórico feito na matéria.
Exatamente esse mesmo tipo de pauta injustificadamente pessimista eu li centenas de vezes sobre a Apple ao longo de 15 anos, e como está a Apple hoje? Falida? Obsoleta? Muito pelo contrário.

Mas o mais sério é que, a certa altura, a matéria da IstoÉ Dinheiro diz:

“O GameCube só fez sucesso na Europa e Brasil”, diz Orlando Ortiz, representante da Nintendo no País. “Nos grandes mercados, como os EUA e Japão, ele perdeu de goleada.”

A verdade:
1. Orlando Ortiz é redator das revistas de games da Futuro, incluindo a Nintendo World mas também a EGM Brasil e a SuperDicas PlayStation. Ele não é e nunca foi representante da Nintendo.
2. Orlando não disse que a Nintendo "perde de goleada". Essa afirmação foi inventada pela redação da IstoÉ Dinheiro. Ponto.

Não é proibido achar que a Nintendo está decadente, mesmo quando essa opinião é no mínimo seriamente disputável e baseada em evidente incompreensão do mercado. O problema mais sério é prejudicar a Nintendo, o Orlando e a revista publicando um erro de informação grotesco, que exigiria reparação imediata mediante substituição do texto no site e um box com as correções na edição impressa.

Agora, uma explicação importante sobre o título deste post.
Eu acredito na pluralidade e na liberdade de expressão e no confronto de opiniões. Sou radicalmente contra a censura, contra órgãos regulamentadores de imprensa e quaisquer tentativas de controle que não sejam o bom senso dos editores e a preferência dos leitores. Se houver um sistema jurídico e regulamentos capazes de resolver ocorrências de calúnia e difamação através da mídia, então, tanto melhor. Mas a se acumularem casos flagrantes como estes e a continuar o procedimento de aberta empulhação do público pela mídia, pode acabar surgindo algum tipo de movimento organizado pedindo o tal controle. Há pessoas dentro do governo que só esperam pela oportunidade de arrancar a mídia dos donos privados. Já ouviram sair de bocas de esquerda a expressão "democratização das comunicações"? Cuidado.

Update - Dizem-me que saiu um box de errata na edição seguinte, mas ainda não vi uma revista para confirmar. A matéria online continua vergonhosamente errada e acumulando xingações de gamers irados. Não preciso fazer julgamentos.

2005-10-23

The future isn't too hard to guess, so long as you don't ignore the things that made the past and the present so crap. Utopians are notoriously bad at this, but I guess that's the starting point for defining a utopian.

~Andrew Orlowski (The Register)

Não Veja

Durante o ano de 2002, eu escrevia um artigo semanal no blog criticando as revistas semanais de assuntos gerais: Veja, IstoÉ, Época e CartaCapital. Os textos não poupavam pedradas, só que todas eram sobre erros de informação e rigorosamente embasadas em provas específicas. Eu me abstinha de analisar as posições editoriais e ideológicas ou os métodos dialéticos das revistas. Mas, com os acontecimentos políticos recentes, analisar as revistas virou um assunto do momento e mudei de idéia: não vou falar dos pormenores do conteúdo, mas em geral das táticas.
Ao contrário dos grandes diários, essas revistas não têm uma coluna do ouvidor. Mas vi que as críticas, mesmo sem nenhuma influência nos veículos, tinham ressonância com pessoas ligadas na imprensa e também em blogs. Porém, um dia tive um vislumbre claro do tamanho do sórdido jogo de poder envolvido, razão de muitos dos erros e distorções que parecem simples equívocos factuais e na verdade podem ser atribuídos a malícia editorial. Enojado e derrotado na minha busca quixotesca, cansei da brincadeira.
A Veja era a revista mais criticada de todas, pois além de ser a maior em circulação, volume e alcance, atua com uma visão editorial e uma forma de linguagem das quais discordo de frente - e não estou sozinho nisso. Além do barulho nos blogs, a questão tem preocupado pessoas do mundo real. Na sexta-feira dei um workshop sobre artes gráficas na PUC-SP, onde na mesma semana houve um ciclo de debates sobre jornalismo. E - adivinhe? - Um dos temas centrais daqueles debates era o jornalismo estilo Veja. Com um enfoque fortemente negativo. Nos blogs o assunto também esquentou. Afinal, muitos jornalistas escrevem blogs também.

Objetividade? Conta outra

Sou da tendência que afirma a impossibilidade da existência de jornalismo totalmente objetivo. Até as máquinas têm uma visão de mundo específica, e ela é sempre relativa e individual. Além disso, as comunicações humanas ocorrem dentro de universos de discurso necessariamente restritos. Quando alguém fala de girassóis, não está falando de um planeta. No jornalismo, isenção total é uma utopia perigosa. Às vezes o que se proclama livre de preconceitos é o mais preconceituoso de todos. E o debate de idéias é essencial para que o sistema todo dê algum resultado.
No jornalismo, se não há opinião, uma tese implícita, um viés apriorístico, o texto fica sem sal. Por que tantos blogs jornalísticos são populares? Porque elaboram a opinião de uma maneira mais detalhada do que nos veículos tradicionais. Não têm medo de especular, porque sabem que o leitor espera por isso. Não se preocupam em criar consenso, porque não vão perder vendas de anúncios se não agradarem.
Lembro a experiência passada na Folha, onde o esforço de arrancar fora o viés pessoal das notícias gerou uma torrente de matérias enxaguadas com água sanitária. Totalmente insossas a partir do próprio título, ficção verbal de momento como "República do Nordeste daria vitória ao sim" (República do Nordeste para designar um conjunto de estados? Em que mundo vive o redator?), ou inacreditáveis fotos com legendas óbvias, como "Jogador da seleção chuta bola durante treino". Tudo encorajado pela utopia do "didático", "neutro" e "impessoal", tentando louvavelmente evitar partidarismos indevidos nos textos, mas na prática obrigando o redator a botar seu cérebro para dormir durante a escrita.
A doutrina subjacente aí é de que o veículo deve apenas relatar os fatos e o leitor deve formar sua opinião por conta própria. Pois é exatamente isso que as pessoas não gostam de fazer. Até acham necessário, mas não querem ter todo esse trabalho. Preferem uma opinião pronta para consumo imediato, acompanhada de fatos-base e uma lógica condutora. O leitor não quer um médico legista dos fatos: quer um advogado de acusação.

Está todo mundo vendo

A demanda por uma informação mais mastigada abre a brecha para abusos como os que têm sido comentados da Veja, mas que em algum grau todos cometem. A Veja apenas é maior, hegemônica comercialmente e também em volume e penetração intelectual, por mais que seus crtíticos o neguem, e alavanqueia essa vantagem com uma retórica fortemente opinativa com razoável consistência (ou talvez não; houve, por exemplo, um abrandamento em relação à pregação prepotente pelo 'não' numa famosa edição de outubro).
Mas as outras semanais não são santinhas. A IstoÉ tem uma plataforma política, a Época tem outra e assim por diante, e para conhecê-las nem é preciso abrir as revistas: está na cara, quero dizer, na capa.
Em certo momento no tempo da minha crítica semanal, fui agraciado do nada com uma assinatura cortesia da CartaCapital - o que os cínicos poderiam chamar de jabá, mas o fato é que eu considerava muitos artigos da CartaCapital acima do padrão das demais. Me parecia algo como uma Economist brasileira e mais bonita. Mas nunca gostei da insistência editorial no velho esquerdismo utópico e uma certa prestação de serviço a Lula e ao PT. Por exemplo, o que aconteceu após os escândalos de corrupção? A revista tem feito uma forçação de barra para enquadrar os tucanos...
O fogo concentrado de parte do público na Veja é insuflado pela percebida hegemonia desequilibrada da revista, mas também pela saturação da paciência desse público com a "pseudo-retórica do mal" - aquele característico tom cínico e malvado que busca desmoralizar o vilão do momento com sacanagens personalizadas. É uma das vilanias dialéticas mais simples e mais fáceis de desmontar, caso o leitorado resolvesse pensar sobre elas.
As matérias seguem uma estrutura rígida, recorrente, negativista: apresentação da tese, nome do vilão, desmoralização do vilão, confirmação da tese. Os excessos dessa fórmula têm sido desmascarados e expostos com maior facilidade devido ao maior radicalismo e menor refinamento que elas estão exibindo. A tese tem vindo mais malpassada, e até pingou sangue em algumas ocasiões, como na desastrosa matéria atacando o jabá do iPod.
Os dados usados para embasar as tiradas cínicas são forçados, especialmente nas reportagens de política, onde consistem em simples camadas de opiniões referenciando achismos que por sua vez partem de preconceitos e generalizações, dispensando totalmente a apresentação do fato concreto. E daí nascem os constantes ataques "ad hominem" venenosos contra personagens públicas em textos que deveriam ser noticiosos e não de opinião. A inversão inclui as colunas: por exemplo, textos de opinião de Diogo Mainardi se mimetizam em reportagens.
A capa "7 razões para votar Não", com a ilustração de um pacifista de aspecto desprezível cercado de canos de armas apontando para ele, faz um apelo direto às emoções básicas do indivíduo, deixando de lado a argumentação racional que é uma característica pressuposta do jornalismo. O apelo do desenho é tão raso de reflexão quanto singularmente efetivo, algo equivalente a mostrar imagens de pessoas chorando em reportagens de TV. Assim, aquela capa é pura propaganda e nada de jornalismo.

A culpa é de quem lê

Até Caetano Veloso se encheu e resolveu atacar a revista, em carta aberta reproduzida no blog do Noblat, depois de ver erros de informação combinados ao cinismo malvado do texto.
Eu mesmo fui fonte da revista em uma matéria sobre tecnologia que a Veja deu há apenas alguns meses e posso dizer algo sobre a experiência em primeira mão. As perguntas feitas deixavam claro que o redator tinha conhecimento próximo de zero sobre tecnologia. De tudo o que eu disse, rigorosamente nada foi aproveitado. O que saiu publicado foi a tese pronta que o redator (ou editor) já tinha antes de escrever, propagando sérios equívocos de contexto e conclusões erradas que os leitores leigos não saberiam contestar.
Pois dizem-me que esse é um procedimento padrão na revista. Nem me surpreendi.
A tendenciosidade tradicionalmente se considera alheia ao bom jornalismo, mas é amparada na aceitação do público e dos anunciantes. Não sei bem o que pensam os anunciantes; talvez eles pensem unicamente que precisam estar lá porque é a revista de maior circulação.
O ponto alto da preparação sartorial da revista para os leitores acontece na seção de cartas, que se repete teatralmente e idêntica em forma e em tópicos, semana após semana. Após a publicação de uma matéria que deveria causar grande variedade de opiniões, as cartas publicadas são só de dois tipos: contra e a favor. As a favor podem derivar livremente do tema para elogiar generosamente a publicação, a visão dos editores, o importante papel social em um país inculto e todas as platitudes repisadas do gênero. As cartas que são contra falam unicamente do tema em pauta e fim. Mas de coincidência demais até revisor desconfia.
Em que pese suas afiliações políticas, uma vez Noam Chomsky disse uma enorme verdade sobre o debate público: é possível a quem comanda o debate restringir seus temas e argumentos e ao mesmo tempo criar a sensação falsa de que eles são livres, concentrando a discussão num espectro de temas pré-definido e assim direcionando a conclusão para um final previsível. Se for analisar com cuidado, esse é o método das reportagens da grande mídia. Um método de controle político.
Mas nem todos precisam ser controlados. Muitos apenas precisam que alguém lhes diga que têm razão. O público de Veja é muito amplo e acaba incluindo um largo espectro de pessoas com visão - perdão pela palavra forte - reacionária, atitude típica e confessa da nossa classe média urbana, que em busca ávida de material que possa ser regurgitado na roda de bar como opinião pessoal e genuína, praticamente demanda o tipo de texto mais malicioso que a revista cria, num círculo de mútuo comprazimento interessado onde a verdade factual não é mais um elemento essencial.
A redação joga para essa platéia, escrevendo tudo o que se prevê que terá ressonância na mente desses leitores, assim garantindo vendas e lucros. Isso eu já nem não chamaria de jornalismo, mas de entretenimento. Com a diferença fundamental de que ao assistir a um filme nós sabemos com toda a certeza que ele é uma obra de ficção e não formaremos opiniões absurdas ou perigosas por causa da informação contida nele.

CAPTCHA!

A melhor maneira de impedir que programas "bots" coloquem spam em comentários de blogs ou votem indevidamente em pesquisas online é fazer um teste de autenticação CAPTCHA, dos quais o mais conhecido é aquele em que você tem de redigitar uma palavra distorcida.
O site assinalado é na universidade Carnegie Mellon e conta a história do método, com exemplos. Mas logo no topo da mesma página há notícias perturbadoras: novos softwares experimentais conseguem decifrar as palavras embaralhadas. Logo, os spammers podem ter acesso a programas assim e burlar os próprios testes.
Outros testes usam uma lógica mais complexa, como associar grupos de imagens, mas o procedimento começa a ficar difícil demais, inibindo a participação dos seres humanos além das máquinas.
Neste blog a quantidade de comentários em proporção ao número de visitas é muito inferior ao de 2003, e suspeito que uma razão é a exigência da autenticação. Ninguém gosta de precisar passar num microteste de QI toda vez que vai dar um simples alô para um blogueiro.

Update - O CAPTCHA do Blogger produz muitas palavras impronunciáveis, mas de vez em quando sai uma legal. Estou juntando algumas para compor um texto...

2005-10-19

Origem do iTunes

A revista Time mais uma vez deu Steve Jobs na capa, comentando a contínua onda de boas notícias da Apple. O texto da matéria pode ser lido na edição canadense, já que é preciso ser assinante para ler a edição original online.
Naturalmente, agora quando se fala em Apple fala-se muito mais em iPod e iTunes do que no Mac. E, acima de tudo, de como a personalidade controversa de Steve é responsável direta por tudo o que acontece e como acontece. Mas me chamou a atenção deste pedaço da reportagem:

When he generously introduces you to the guy who runs Apple’s iTunes development team, Jobs makes it clear that you’re welcome to meet him but you can’t print his name. Jobs doesn’t want competitors poaching his talent. “You can mention his first name but not his last name,” Jobs says. “How’s that?” It’ll have to do. The guy’s name, by the way, is Jeff.

Mas olhe o que temos aqui:

Created by Bill Kincaid and well-known Mac dev Jeff Robbin, SoundJam was released mere weeks before Audion...

Portanto temos, sim, o nome do cara, simplesmente porque ele tem uma carreira anterior à Apple e não dá para sumir com as evidências. O modesto shareware de MP3 chamado SoundJam era concorrente de um outro shareware chamado Audion, cujo autor escreveu o texto acima. O texto também conta como a Apple contratou os autores do SoundJam para transformá-lo no que hoje é o iTunes. Eles não sabiam inicialmente da enorme extensão da visão de Jobs - transformar o programa de MP3 numa loja online e numa interface para um eletrônico de consumo. A combinação dos três é irresistível, mas não podemos experimentá-la por inteiro devido ao descaso com o Brasil, onde não existe a loja de música online. Tendo apenas dois terços da "experiência iPod", é natural não se empolgar tanto quanto os americanos e europeus.
O argumento de a Apple não querer ter seus gênios roubados por outras empresas é verdadeiro. Há vários anos os produtos Apple são creditados à equipe que os desenvolveu, mas sem citar nomes. O que não impediu o êxodo de talentos.

Update - Timing perfeito para reinaugurar o tópico Apple no blog. Hoje saíram mais novidades, várias de hardware, algumas impressionantes, mas a que me interessa intensamente é esta.
Young enough not to care too much
About the way things used to be
I'm young enough to remember the future
The past has no claim on me

I'm old enough not to care too much
About what you think of me
But I'm young enough to remember the future
And the way things ought to be

Cut to the chase

~Peart

2005-10-17

Post longo, confuso e estranho (mais ou menos como uma música do Mars Volta)

Passei algumas horas do meu fim de semana organizando as fotos tiradas em setembro e outubro. Mas passei muito mais tempo organizando a coleção de músicas em MP3. Depois de acrescentar artes de capa e letras e remover as faixas repetidas, fiquei com 11500 músicas, suficientes para tocar ininterruptamente durante 39 dias e 8 horas.
Não me iludo sobre a capacidade de impressionar desses números, pois atualmente eles são comuns entre meus conhecidos. Impressionante seria afirmar que eu já tinha um acervo digital desse tamanho no ano 2000. E é verdade. Ele não estava reunido num só HD, e sim espalhado entre três Macs e vários CDs de arquivo. Somente no ano passado ele passou a formar uma única lista no iTunes.
Eu e a Adri nos conhecemos num encontro organizado especificamente para intercambiar MP3. Ela levou de mim um monte de eletrônico e industrial e eu peguei dela a coleção completa de The Cure em CD. Descobrimos que cada um de nós tinha uma coleção séria de CDs, muitos dos quais repetidos. Eventualmente, descobrimos outras afinidades além das musicais, e o resto é história.

Minha coleção de música começou com os vinis malucos e obscuros que meu pai comprava, por pura aventura, nas liquidações do Carrefour, há mais de 20 anos. Eram tempos agradáveis em que eu pegava para ler os artigos geeks de áudio das revistas Somtrês que ele abandonava no banheiro.
Semana passada, não lembro mais como, descobri em MP3 um disco que meu pai tinha em vinil e eu nunca ouvira por preconceito, só porque achei a capa feia.
O ecletismo aleatório de meu pai foi o que evitou que eu virasse mais um adolescente chato emburrecido por fanatismos sonoros. Na periferia de Guarulhos, cresci assistindo à inimizade montante entre dois grupos, os punks e os headbangers (tragicamente apelidados pela mídia de metaleiros), que se reuniam em gangues para trocar socos no meio da rua. A Galeria do Rock é hoje um vibrante shopping multicultural, mas nos anos 80 era um local sujo, visitado por mal-encarados que tinham quase a mesma aparência mas pertenciam a facções inimigas cuja dinâmica só era conhecida por quem estava dentro de uma delas.
Contra isso tudo, eu me determinei a conciliar minha apreciação do punk com a do metal, e ainda colocar junto a música clássica, o rock progressivo, o jazz e o nascente estilo eletrônico, e quem sabe até um pouco daquele MPB um pouco brega do meu pai.
Eu lia avidamente as revistas de música que chegavam à banca, especialmente a Bizz, que em 1985 me apresentou coisas de importância ainda insuspeita por mim, como Smiths e U2. Como eu ainda não tinha condição de comprar LPs novos, ficava tentando imaginar o som a partir das descrições dos críticos e lia os reviews com gana.

Minha teimosia em não ser teimoso com estilos de música encontrou eco na do Altemar, meu mais antigo amigo. Nos reuníamos nas tardes de sábado para copiar em cassetes o novo bolachão do New Order. Comprávamos raridades nas lojas Museu do Disco, fazíamos peregrinações à Galeria... Eu fazia hacks nos nossos tape decks para melhorar a resposta de frequência das gravações. O Walkman (depois Discman) era tão obrigatório como a carteira no bolso.
De New Model Army a Asian Dub Foundation, de Tomita a Moby, de Judas Priest a Radiohead, fomos acumulando estilos sem virar as costas ao passado. E criamos senso crítico independente.
A transição para o CD foi em três etapas. Antes de eu ter um tocador, acompanhava um amigo que possuía o aparelho até a locadora Magno-Laser, na Av. Angélica, onde alugávamos dois CDs por semana, um dele e outro meu, e então o cara duplicava em cassete o disco para os dois. Esse esquema era chato e insatisfatório e não durou muito. Em 1989 comprei um tocador Gradiente LDP-636 de segunda mão em Santa Ifigênia. O som parecia realmente revolucionário, mas o aparelho errava o tracking em determinados discos, fazendo o maldito ruído: fft-fft-fft-fft-fft-fft. Com cara de pau e uma chave Phillips, abri o player e regulei os potenciômetros de ajuste na mão.
A terceira etapa da transição foi depois que alguém entrou em casa quando não tinha ninguém e furtou meu CD player. Passei um pouco de fome e semanas depois comprei um modelo nacional da Sony, que era bonito, mas depois de um tempo revelou um problema ridículo no mecanismo da gaveta. O tocador do Altemar deu mais ou menos o mesmo defeito, era algo constangedor para a marca. Um Discman virou o toca-discos principal e de uma só vez matou o tocador de mesa, o tape deck e o Walkman. Em seguida, abandonei o vinil.

No final de 1991, venci um concurso de design de logo para a Rock Brigade, a mais longeva revista brasileira de música, hoje com 25 anos de publicação contínua. O logo atual é exatamente o mesmo que desenhei num PC 386 com Corel 2.0.
Nessa mesma época, a Galeria do Rock foi invadida por CDs nacionais baratos, e adquiri dezenas deles em poucos meses, quase todos de clássicos do rock. A segunda grande expansão da minha coleção foi com música alternativa e eletrônica e aconteceu em 1995-96, na loja da Cri du Chat na Alameda Jaú. A terceira expansão aconteceu já em MP3, em 1999-2001, com músicas pirateadas via Napster e Audiogalaxy. Depois do fim do Napster, e com mais dinheiro no bolso, voltei ao hábito de comprar CDs (sempre boicotando a EMI brasileira com seus estúpidos "Copy Controlled"). Faço encomendas específicas na Compact Blue e não compro nada por impulso.
Quando vim morar com a Adri, misturamos as coleções de CDs e enviamos ao sebo todos os discos repetidos. Quase sempre o exemplar que ficou na coleção foi o dela, porque o meu estava em pior estado de conservação, depois de várias mudanças de endereço traumáticas e de um passado de umidade e mofo em Guarulhos.

Antes que o MP3 surgisse como um padrão para intercâmbio de músicas, eu fazia experimentos comprimindo CDs em RealAudio a 80 kbps. Antes disso, tentei gerar AIFFs com compressão IMA. Não havia programa decente para catalogar e tocar as músicas. Mas o futuro totalmente digital, com as músicas armazenadas num HD, não só era uma certeza como era algo muito desejado.
Hoje, minha janela do iTunes comporta milhares de faixas que podem ser selecionadas, rotuladas, comparadas, reordenadas e classificadas sem o mínimo esforço. Via rede local, escuto as músicas dos acervos dos colegas de trabalho sem que eles sequer notem minha intrusão.
Não existe mais o ritual de lavar o disco de vinil para tirar a poeira e ver a agulha descer suavemente no começo da primeira faixa, com um estalido inevitável. Não existe a preocupação de equalizar o som antes de copiá-lo em fita, ou de acomodar o máximo de faixas num lado de um cassete. Nada de ponderações complexas sobre usar a fita de dióxido de cromo ou a de metal puro. Não há mais o momento de reflexão contemplando a arte da capa, nem o ato de abrir a caixinha do CD com cuidado respeitoso, com um gesto de mão que era difícil para os não-iniciados.
Porém, mais importante do que essas coisas não existirem mais é que a nova geração nem tem idéia do que eram essas coisas. Não são muito antigas, mas já pertencem a um passado ancestral, sem graça e careta. É como falar em raspar fotolito em plena era do PDF-X1a. A geração nova cresce já acostumada a essa facilidade incrível para manipular a música digitalizada. Não há equivalente ao velho ato sagrado de sentar na poltrona, desembrulhar cerimoniosamente o disco novo e simplesmente escutá-lo com toda a atenção.
Em lugar disso, a música flui incessante e indistintamente de pequenos aparelhos portáteis enquanto fazemos outras coisas.
Eu peguei a transição de um estilo de ouvinte para o outro e me vejo anternando entre eles até hoje. Embora sempre tenha tido memória ótima para músicas, conseguindo memorizar sem esforço melodias, arranjos e harmonias (mas não letras), agora me parece que preciso de um concentração especial para apreciá-las. Levo no ônibus o iPod e um livro. E não leio o livro: fico petrificado, absorvendo a música. Desde que comprei o primeiro Walkman, sempre tinha lido livros no ônibus ouvindo música. Em algum momento indeterminado, isso mudou. Ou ouço ou leio.
A música está cada vez mais fácil e banal e abundante e, em vez de tratá-la da forma correspondente, eu a trato de forma cada vez mais cuidadosa e reverente, como algo raro e precioso.
Finalmente entendi que o que é de fato raro e precioso é o meu relacionamento com a música.
Músicos modernos entendem que não estão mais apenas dando expressão direta a mensagens estéticas, existenciais ou políticas, como em décadas passadas, mas criando uma obra sem forma tão definida, um tipo de trilha sonora, um pano de fundo, um papel de parede sonoro para milhares de ouvintes que não exigem o som em primeiro plano. Mas creio que os músicos não ficariam satisfeitos em fazer apenas isso. Algum significado mais profundo acaba sendo embutido na criação, e ela só está disponível para quem dispõe de ouvidos atentos e uma sensibilidade sem medo.

Update - Melhor disco eletrônico do ano:


2005-10-10

Além dos limites da visão de cores

Há alguns anos estou fazendo uma pesquisa autônoma sobre visão humana, a fim de descobrir princípios novos que possam ser úteis na minha fotografia e na edição de imagens. Um dos meus interesses recentes são os extremos da sensibilidade da visão humana.

Já tinha lido por aí que na Segunda Guerra sabia-se de soldados que conseguiam distinguir inimigos camuflados, porque sua visão tinha resposta útil no infravermelho. Mais recentemente, soube que as pessoas que removeram catarata possuem visão na faixa ultravioleta. Mas nas escolas nós aprendemos que a luz visível vai do vermelho ao violeta e só. O que é que há?

Nossa percepção de cor

O que se ensina nas escolas é que a retina do olho possui dois tipos de sensores de luz, cones e bastonetes; e os cones existem em três tipos, cada um especificamente sensível a uma faixa do espectro da luz. A informação visual obtida por esses sensores é codificada e enviada ao cérebro, onde ela é interpretada.

Os cientistas sabem experimentalmente, a partir de Newton, que a cor é uma sensação perceptual que nós experimentamos no cérebro, e não uma característica do objeto em si. Como prova disso, um mesmo objeto pode ser percebido por pessoas diferentes como tendo cores diferentes. Isso é um conceito importante que não é passado com clareza nas escolas. O que dizemos no dia-a-dia é que um objeto é de uma certa cor, quando diríamos com rigor científico que um objeto emite ou reflete luz que interpretamos como sendo uma certa cor. Há uma diferença enorme entre os dois conceitos.

Na prática, pessoas que enxergam as cores diferentemente daquilo que se considera normal são mais comuns do que suspeitamos. Ninguém pode estabelecer parâmetros absolutos para a cor. Os padrões criados pela CIE e utilizados por toda a indústria são baseados numa expressão matemática de uma média estatística, e não em medições reais da visão de alguma pessoa real.

Os bastonetes são os sensores que existem em maior quantidade no olho humano, mas só entram em ação em condições de baixa iluminação, dando uma imagem monocromática e bastante granulada. É preciso acostumar os olhos à escuridão durante vários minutos para perceber as propriedades dessa visão. Quanto mais escuro o ambiente, mais "preto e branco" ele parece, conforme os cones vão ficando inativos. Objetos que sob luz mais forte vemos como verdes e azuis parecem estranhamente mais claros em condições de baixa luz do que os vermelhos e laranjas, porque a sensibilidade espectral dos bastonetes atinge seu máximo na região verde do espectro.

Os cones são responsáveis pela visão diurna e existem em três tipos, conforme a sua sensibilidade espectral máxima: L, M e S. L são comprimentos de onde longos, ou seja, a faixa vermelha do espectro. M são os comprimentos de onda médios: verdes. S são os comprimentos de onda curtos: azuis.
Por que não falar logo em cones vermelhos, verdes e azuis? Porque a faixa de atuação de cada um não é restrita a essas faixas do espectro. Um mesmo comprimento de onda da luz estimula os três tipos de cones em intensidades diferentes. O sistema nervoso está calibrado para determinar as cores através da comparação entre as intensidades dos três estímulos, e não simplesmente medindo-os.

Aí surgem interessantes paradoxos relativos à percepção da cor. Em primeiro lugar, o metamerismo: luzes com composições espectrais diferentes podem causar exatamente a mesma sensação de cor. Ou, inversamente, objetos que parecem ter a mesma cor sob uma certa fonte de luz ficam completamente diferentes sob outra.
É por isso que fontes de luz artificial podem ser ajustadas para simular a luz do dia, mesmo tendo um conteúdo espectral muito diferente da luz do dia verdadeira. Lâmpadas fluorescentes comuns, por exemplo, emitem luz em apenas quatro ou cinco faixas de comprimentos de onda visíveis, mas para nossos olhos a luz deles parece branca.

Nossa tecnologia de cores é antropocêntrica e não absoluta

O outro fenômeno interessante é que uma luz composta de apenas três estímulos espectrais consegue simular, até certo limite, os demais comprimentos de onda visíveis do espectro. Um monitor de computador ou tela de TV consegue produzir uma gama de cores muito extensa com apenas três componentes emissores de luz: vermelho, verde e azul. O fato de eles serem três e calibrados para aproximadamente os mesmos comprimentos de onda que correspondem aos picos de sensibilidade espectral dos cones é a maneira de a tecnologia espelhar o funcionamento da nossa visão, a fim de obter os resultados mais eficientes para seres humanos.
É importante ter essa consciência de que o design de toda a nossa tecnologia visual é antropocêntrico e não absoluto. Outros animais são bem diferentes de nós em sua visão de mundo - sem trocadilhos nem metáforas. A maioria das aves possui um quarto sensor cromático, na faixa ultravioleta; elas enxergam um espectro bem mais extenso que o nosso. Abelhas possuem também um sensor ultravioleta, mas não um para a região vermelha. Cães têm sensores de cor para duas faixas apenas, azulada e avermelhada. Gatos têm menos sensibilidade às cores em geral e muito mais sensibilidade para ambientes de pouca luz.
Uma hipotética tecnologia de representação de imagem para esses bichos precisaria ser reprojetada de acordo com essas diferenças.

Visão ultravioleta

A faixa de comprimentos de onda ultravioleta é bem extensa. Para evitar entrar muito em números e detalhes, basta dizer que a faixa mais próxima da chamada luz visível para humanos é a UVA; comprimentos de onda mais curtos são chamados de UVB; e os mais curtos ainda, UVC. Para além disso estão os raios gama.
A camada de ozônio do planeta filtra bastante UVB e UVC, que é luz invisível de alta energia que pode causar sérios danos à saúde. O UVA é bastante abundante na luz do dia e também pode nos queimar se não for controlada. Óculos de sol são preparados de forma a serem opacos a UVA. Janelas envidraçadas também bloqueiam UVA.
O detalhe estarrecedor é que a visão humana tem a capacidade embutida de enxergar UVA, mas normalmente não o faz. A razão é que o cristalino (lente) e a córnea bloqueiam quase toda a luz nessa faixa de comprimento de onda. Os sensores na retina têm sensibilidade intrínseca a essa luz, que somente é liberada quando a pessoa opera a catarata, removendo o cristalino.
Segundo as descrições dessas pessoas, a luz UV tem uma tonalidade entre lilás e azul claro. Essa coloração desbotada se explica pelo fato de o UV estimular os cones dos três tipos, com vantagem para o azul.
Mais recentemente, um estudioso autônomo apresentou uma teoria completa da visão humana que é revolucionária, pois afirma que a retina humana possui um quarto sensor específico para UV, que seria herança evolutiva de seres pré-humanos que enxergavam UV claramente. Apoiado pelas medições empíricas e experimentos de outros cientistas, ele fez um cálculo teórico preciso das características do olho "desbloqueado". A teoria também é original por utilizar na biologia da visão vários termos e conceitos tirados da Física, como "amplificadores operacionais" e "servomecanismos".

Visão infravermelha

A radiação IR compreende uma faixa de comprimentos de onda muito extensa que vai até as microondas e ondas de rádio. A fotografia infravermelha é bastante conhecida e se caracteriza pelas psicodélicas imagens com céus pretos e vegetações quase brancas de tão claras. A luz IR tem outras propriedades interessantes: dá à pele humana uma aparência translúcida ou de cera, pois penetra mais profundamente, elimina a névoa em paisagens e faz roupas escuras parecerem brancas.
Existem dois tipos básicos de filmes fotográficos para IR, um monocromático e um colorido que produz um espectro deslocado (cores "falsas"). Para obter a exposição correta, o fotógrafo deve usar filtros especiais que parecem pretos a olho nu.
O interessante aqui é que a visão humana ainda tem um pouco de sensibilidade ao infravermelho próximo. O único problema é que essa sensibilidade é muito baixa, e a luz IR acaba ficando invisível em comparação com a luz normal. Como uma prova de que as coisas não são bem assim, vá para um quarto completamente escuro com um controle remoto de TV. Depois de alguns minutos para acomodar os olhos, aperte algum botão no controle. A luz do LED transmissor será visível piscando fracamente. Pois esse LED é infravermelho, e supostamente não deveríamos enxergar luz nenhuma saindo dele.
Mais interessante ainda é que os CCDs de câmeras digitais são sensíveis ao IR. Se você tentar fotografar um controle remoto funcionando no escuro, a luz do LED será claramente visível no visor da câmera e também na foto, como um clarão arroxeado. As câmeras digitais atuais têm filtros IR sobre seus CCDs, mas as mais antigas não. Faça a experiência, se puder, com uma máquina digital mais antiga, de vários anos de idade. Aqui há uma receita para "mutilar" uma webcam comum de PC, de modo a transformá-la em câmera IR, similar àquelas usadas em sistemas de segurança de prédios.
Um hobista maluco fez algo mais radical: utilizando filtros coloridos usados em iluminação profissional, ele construiu um par de óculos que só deixam passar a luz IR, e saiu em plena luz do dia com eles. De fato, após acostumar os olhos, conseguiu enxergar ao vivo mais ou menos o que se vê nas fotografias IR... mas para evitar queimar os olhos, utilizou camadas reforçadas de filtros para eliminar ao máximo o UV e a radiação visível.

2005-10-08

Schon gewusst, dass… ?

A Wikipedia (em português, Deutsch, català) é um dos mais admiráveis projetos de Internet já criados. Uma enciclopédia online escrita continuamente por milhares de voluntários em todo o mundo e em muitos idiomas, com direitos de reprodução livres. Se você tem conhecimento especializado em qualquer área e gostaria de criar um artigo, é só se inscrever e mandar ver. Estranhamente, muita gente que conheço nem mesmo ouviu falar da Wikipedia.
Há muito tempo faço consultas diárias, especialmente sobre assuntos científicos. Mas nas últimas semanas tenho visto um crescimento acelerado nas áreas culturais.
Vários projetos derivados estão se desenvolvendo, como um dicionário, textos-fonte de livros, banco de imagens e outros. Parte da pesquisa das citações que aparecem no topo desta página foi feita na Wikiquote.
A utilidade crescente da Wikipedia se manifesta num simples exemplo. Em 2001, eu quis descobrir os principais fatos que aconteceram no meu aniversário. Depois de algumas pesquisas na Web sem muito resultado, pedi no blog que alguém me desse alguma informação, com sucesso modesto. Mas hoje em dia temos isto. É impressionante. Com dois cliques fico sabendo que nasci no dia da morte de Frank Zappa e do nascimento de Jeff Bridges. E é o Dia Internacional do Abraço.
Nada melhor para um dia em que não tem nada de novo e interessante para ler na Internet.

2005-10-07

Para pensar

Um amigo me convidou para fazer um blog. Perguntei o que era um blog. Ele explicou e não entendi direito. Me deu alguns endereços. Fui a eles e fui a outros, franceses e americanos. Fiquei horrorizado. Meio sem graça, disse ao colega que blog não era a minha. Não saberia fazer um porque o que menos quero na vida é ficar ligado em permanência num fluxo alucinado de verborragia. Mas meu horror não vem só disso. O que há nesses blogs de exibicionismo, de violência verbal, de opinionismo sem fundamento, de gratuidade, numa palavra, de asneira, é algo assustador. Chega a ser pior que ter cinqüenta canais na televisão. Uma amiga matou a charada: na internet, blogs são quase tão ruins quanto pornografia pedófila.

~Mario Sergio Conti

Fotos estéreo

 
Este ensaio é baseado num artigo que publiquei em outubro de 2000, um mês antes de o site se transformar em blog.

A fotografia estéreo teve um período de popularidade na virada do século 19 para o 20. Um equipamento chamado estereógrafo, dotado de prismas e lentes como um binóculo, mostrava uma imagem diferente para cada olho, transmitindo a sensação de profundidade e volume. A fotografia era feita com duas câmeras montadas lado a lado, focalizadas da mesma forma e disparadas ao mesmo tempo.
Décadas mais tarde, ficou popular a técnica anaglífica, que sobrepõe as duas imagens em azul e vermelho e necessita óculos especiais com filtros coloridos correspondentes às cores da impressão.
De tempos em tempos se fala em criar telas de computador e TV em 3D, e já existiram vários videogames em 3D. Uma técnica que pode usada com monitores de vídeo comuns é exibir as imagens esquerda e direita alternadamente. Óculos especiais de cristal líquido bloqueiam a luz para cada olho em sincronia com a exibição na tela. A dificuldade de difusão da técnica está na necessidade de hardware especial e de software específico.
O cinema iMax usa a técnica de projeção polarizada, na qual as duas imagens são projetadas com luz polarizada em ângulos perpendiculares um ao outro, sobre uma tela metalizada. Óculos polarizadores especiais filtram as imagens vistas por cada olho. Os resultados são impressionantes, já que o ângulo de visão é muito amplo, a imagem pode ser colorida e a separação é perfeita, desde que o espectador mantenha a cabeça bem nivelada. (Inclinar a cabeça bagunça os ângulos de polarização e anula o efeito estéreo.)
É uma pena que não temos cinemas iMax no Brasil e relativamente poucos privilegiados tenham experimentado a sensação de ver um filme estéreo numa tela gigante. Eu vi um no iMax Port Vell, em Barcelona. O filme era sobre a exploração dos restos do Titanic. Dirigido por James Cameron. Dublado em catalão.
Nos filmes estéreo iMax, o plano físico da tela desaparece completamente e temos a ilusão perfeita de que estamos dentro do espaço filmado.
Em todos os casos, a idéia é sempre gerar duas imagens separadas e simultâneas da mesma cena e combiná-las individualmente nos nossos olhos, de forma a reconstruir a sensação de volume. Há uma barreira de custo e outra relacionada à da falta de padrões técnicos universais para produtos desse tipo.
Holografia não é imagem estéreo, e sim um método completamente diferente - e muito mais sofisticado - de registrar imagens tridimensionais. Na holografia, a fase da luz é registrada juntamente com a sua intensidade, que é a única informação presente nas fotos normais. A informação de fase permite reconstruir a imagem de tal forma que cada ponto de vista do observador revela uma visão diferente do objeto reproduzido, exatamente como aconteceria com o objeto original. Novas técnicas permitem criar monitores digitais para holografia. Esse é um campo em rápido desenvolvimento, relativamente ignorado pelos fãs de tecnologia, que promete resultados muito além do simples entretenimento.

Estereografia sem óculos

O sistema anaglífico, aquele que usa os óculos azul/vermelho, é bastante conhecido e usado, mas apresenta três inconvenientes sérios: requer inevitavelmente os tais óculos; os filtros nunca conseguem separar totalmente as imagens (geralmente o filtro azul é pior nisso que o vermelho); e a imagem fonte só pode ser em meios-tons, sem cor própria; o resultado é irreal pela própria coloração.
É possível apreciar fotos estéreo sem nenhum equipamento adicional. A técnica mais usual é a visão paralela. Coloca-se as duas imagens comuns, coloridas ou preto e branco, lado a lado. A esquerda é para o olho esquerdo e a direita para o olho direito. Então, olha-se para elas focalizando a uma distância normal, mas mantendo os olhos paralelos, como se estivesse olhando para um objeto distante. Como os olhos podem ficar paralelos mas não divergentes, há um limite máximo para o tamanho das fotos vistas através desse método. Além disso, é preciso um pouco de treino para fazer as imagens coincidirem. Se você não conseguir fazer isso com as minhas imagens numa distância normal de visão, afaste-se do monitor e tente de novo; quando conseguir, aproxime-se lentamente, mantendo as imagens "encaixadas".
Outra técnica existente que também usa um par de fotos lado a lado é a visão cruzada. É exatamente o contrário da paralela: a imagem direita fica à esquerda da outra e vice-versa. Para visualizar é preciso cruzar os olhos, como se estivesse olhando a foto muito de perto. Eu não a apresento aqui porque pessoalmente não consigo usá-la, por mais que tente.

Minha experiência editorial

Fiz um trabalho pioneiro em imagem estéreo com manipulação digital no Photoshop, em fevereiro de 1994, sob direção do artista plástico (e atualmente VJ) Angelo Palumbo. Ele recebeu da revista Trip a tarefa de criar uma série de fotos em estéreo, mais uma propaganda e uma capa, pelo método anaglífico.
O desafio é que nenhuma das fotografias era originalmente em estéreo. Eram fotos convencionais, selecionadas do portfólio do fotógrafo de esportes Aaron Chang.
O estéreo nessas imagens é visto corretamente com óculos que tenham o filtro azul sobre o olho esquerdo e o vermelho sobre o olho direito. Coloquei, a fim de permitir a visualização imediata aqui mesmo, uma versão em estereografia paralela em preto e branco.




A fim de criar as imagens em estéreo, precisei duplicar cada uma das fotos originais e modificá-las da seguinte forma: selecionar a área da imagem correspondente, deslocá-la lateralmente e preencher as partes que ficaram sem pixels, pintando ou carimbando. Na imagem final, os diversos planos são percebidos pela visão como estando a distâncias diferentes.
A imagem do windsurf, a mais complexa da série, tem em torno de 20 planos e contém dois truques adicionais. O primeiro é a prancha, distorcida na vertical pelo método Skew, de forma a criar um plano inclinado contínuo em direção à câmera. O segundo truque é que o fundo foi distorcido em planos circulares concêntricos, a fim de gerar uma ilusão de distância crescente conforme ele se afasta do centro, o que corresponde à lente olho-de-peixe usada nessa foto. As gotas d'água no ar foram deslocadas em planos variados.




A propaganda de Axe foi criada colocando-se as fotos dos vários desodorantes em planos distintos. A localização relativa dos planos causa a sensação de que os desodorantes estão saindo da página, enquanto o fundo fica atrás dela.




As duas fotos da capa (uma delas não utilizada pela revista) são de autoria de Marcos Lopes.







Detalhes técnicos

Meu primeiro teste da técnica estéreo não foi feito com fotos, mas com uma imagem sintetizada em 3D pelo Ray Dream Designer durante o final de 1993. Simplesmente recoloquei a câmera virtual numa posição diferente e fiz um novo render para combiná-lo com o já existente.




A dificuldade de criar a segunda imagem para cada foto da Trip foi aumentada pelo fato de não existir no Photoshop da época (versão 2.5) o recurso de layers (camadas). Todas as edições foram feitas diretamente num canal de cor. A imagem original era passada de Grayscale para RGB. Os canais G (verde) e B (azul) continham repetições idênticas dessa imagem original sem alteração, que era designada para o olho esquerdo. O canal R (vermelho) continha a imagem direita alterada.
A separação de cores para a revista foi feita em magenta e ciano, em vez de vermelho e azul, deixando o amarelo e o preto em branco. Essa separação estranha foi uma tentativa de diminuir erros de registro na impressão e remediar um pouco a mistura das imagens nos óculos 3D. A maneira eficaz de reduzir esse problema seria utilizar óculos com filtros melhores e mais caros e imprimir as imagens com tintas especiais, também mais caras. Como o filtro azul "vaza" mais que o vermelho, seria preferível uma versão com o canal magenta repetido no amarelo e o ciano ligeiramente reforçado para compensar. A fim de deixar o resultado menos azulado, seria o caso de repetir um dos canais no canal Y. Se a repetição fosse do ciano, à imagem seria melhor visualizada pelo filtro vermelho (olho direito). Se a repetição fosse do magenta, a imagem seria melhor visualizada pelo filtro azul (olho esquerdo). Mesmo assim, a imagem ainda exibiria uma coloração lamacenta, nada atraente para quem não está usando os óculos 3D.
O equipamento usado foi um Macintosh Quadra 700 com System 7.1.

Resultado e outros projetos

A revista não compreendeu a considerável significação tecnológica do trabalho na época. O ensaio fotográfico provavelmente não tinha sido planejado de início para ser em estéreo, pois as legendas que saíram nas fotos não mencionam isso em momento algum. Ficou a impressão equivocada de que Aaron Chang tinha feito ele mesmo todas as fotos em estéreo. A falta de crédito para nosso trabalho (limitado a uma menção displicente a Palumbo no editorial) foi uma decepção profissional para mim.
Poucas semanas depois, outro projeto de imagem estéreo anaglífica não vingou na Folha de S. Paulo. Esse projeto envolvia transformar todos os elementos não-textuais do caderno Folhateen em estéreo, para visualização com óculos coloridos promocionais que seriam fornecidos junto com o jornal. Mesmo as imagens coloridas não-convertidas sofrem curiosos efeitos ópticos quando são vistas com os óculos, tornando todo o conjunto interessante. Mas o projeto não foi adiante. Oportunidade perdida: algum tempo depois, o "Estadão" e algumas publicações da Abril obtiveram enorme sucesso com produtos similares, feitos por outras empresas.
A manipulação do logo Folhateen foi bastante simples. Ele sofreu duas distorções "Spherize" com centros ligeiramente diferentes para cada olho. As formigas foram aplicadas em planos distintos.





Como fazer sua própria foto estéreo sem gastar nada

A parte óbvia é que você precisa de uma câmera. O ideal seria um par de câmeras, mas então seria preciso construir algum mecanismo para regular e disparar as duas ao mesmo tempo. Sem falar no custo dobrado! Para a finalidade deste artigo, estou pensando em apenas uma digital de bolso, sem maiores pretensões.
Tudo o que você terá de fazer é tirar duas fotos seguidas do mesmo objeto, mantendo a mesma distância, foco e exposição. Se esses três fatores não forem iguais de uma foto para a outra, não vai dar certo.
Use um tripé, se for mais conveniente; mas esse tripé precisará ser deslocado na horizontal entre as fotos sucessivas.
Se a sua máquina dispõe do modo burst (capacidade de tirar várias fotos em curtos intervalos de tempo), utilize-o da seguinte forma: desloque a máquina lateralmente enquanto tira as fotos. Havendo iluminação suficiente para garantir uma exposição curta e sem borrar, esse é o melhor método para fazer um retrato estéreo de uma pessoa, já que as imagens esquerda e direita devem ser capturadas com o mínimo intervalo de tempo possível. Qualquer mudança de expressão entre as fotos aparece na imagem estéreo como uma distorção. No teste que fiz abaixo (modelo: Maria Beatriz Sant'Ana, editora da revista Smack), só aproveitei duas de 8 fotos feitas num burst. Ela piscou os olhos em duas das imagens, o que limitou a escolha. Isso é normal e esperável.



Nas fotos de paisagens, a passagem do tempo causa um outro problema. Você pode perceber vários carros e pessoas em posições diferentes de uma imagem para a outra. Em relação a eles, só há duas opções: conformar-se ou apagá-los meticulosamente no Photoshop. Um alerta: qualquer diferença na textura de uma mesma área entre as duas imagens cria efeitos ópticos bizarros.




Na imagem do boneco, não dá para intuir a escala apenas de se olhar para ele, porque a separação entre as duas posições da câmera é exageradamente grande em relação ao tamanho do objeto. (Nesse exemplo, a área visível do Neo compreende uma altura de 14 cm.) Quanto mais separadas forem as duas posições da câmera, mais exagerado será o efeito de profundidade e menor parecerá o objeto. Para resultados mais naturais, utilizo uma distância similar à distância entre meus olhos para fotos de objetos situados a alguns metros de distância; distância menor para macros e closes; e distância maior para objetos distantes e paisagens. As fotos dos prédios acima foram feitas a 40 cm de separação. Isso explica porque mesmo numa imagem pequena ainda é possível distinguir as posições relativas dos prédios, como se a cidade estivesse miniaturizada. Uma boa sugestão é fazer uma série de imagens e comparar os resultados entre diferentes separações.



Montagem no Photoshop

Tendo as duas imagens à mão, é preciso alinhá-las. O objeto nas duas deve ter exatamente a mesma escala, e o eixo vertical (ou horizontal) deverá ser perfeitamente paralelo entre as duas imagens.
Carregue as duas fotos no Photoshop como layers soltos, uma diretamente sobre a outra, e rotacione ou distorça a de cima até coincidir com a de baixo na altura e na orientação. A seguir, dê o comando Image > Canvas Size e modifique a largura do documento para 200%. Coloque as duas imagens lado a lado; a imagem esquerda fica à esquerda e a imagem direita à direita, exatamente como nos exemplos. Pronto! Já dá para enxergar a foto estéreo!
Como o campo total que pode ser visualizado pelo método paralelo é relativamente estreito, você deve utilizar um enquadramento vertical e cortar fora o que não puder ser visto nas duas imagens. Para obter uma foto maior, pode experimentar usar um enquadramento mais comprido. Dependendo do assunto da foto, isso nem sempre é possível.

Referência na Internet

Este site contém galerias de fotos estéreo do mundo todo, feitas com diversas técnicas.

2005-10-06

Geekspeak - Parte 1

– Cara, você viu o negócio lá? Foi feio. Deram um rm -dr no departamento inteiro. Sem chance de Undo. E dizem que vem mais.
– Como é que é? Outro cp * /dev/null? Quem é o próximo? Quem é o culpado?
– Eu andei dando grep, mas tá difícil achar pistas. Ontem a minha fonte lá dentro me passou um | more, mas eu suspeito que a informação veio truncada. Jogo de bastidores. Agora até brincam com esse tipo de coisa.
– Cara, não acredito que o João agora tá na rua, é mais um processo zombie no mundo decadente das pontocom.
– Você está bêbado? O João não estava no /var, ele ainda está sossegado no /usr/standalone.
– Bom saber isso. Preciso visitar o escritório pra dar um top -u no pessoal e ver o que é que há.
– É, seria bom passar um ls -RT /etc.
– O negócio é colocar no cron, pra não sermos pegos de surpresa.
– Bom, vou nessa que ainda mal começou a tarde e meu chefe me encheu de pageout pra resolver hoje.
q!

2005-10-02

Neil Peart (mas não é um post sobre música)

Lá na minha lista dos heróis faltou esse cara. E não apenas porque gosto do Rush ou porque meu pai era um motoqueiro como ele. Li o livro autobiográfico Ghost Rider. Uma leitura difícil, mas recompensadora. Quando penso em Peart agora, é como se fosse um velho amigo, que também sofre e erra e progride e confessa tudo sem barreiras. Fiquei contente ao ver que seu site pessoal é uma coleção de miniblogs contendo comentários e críticas sobre tudo o que está ouvindo e lendo. Copio aqui dois trechos de suas resenhas de livros:

The finest reward a great novel can give, after the pleasure of living inside its world, is its “afterimage,” the resonance that arises in the days after reading it. Sometimes the psychic echoes return as full-blown images from the author’s descriptions; sometimes you find yourself pondering the ideas or moral issues woven into the plot. In the ideal case, of course, it is both pictures and that kind of mental “nourishment.”

Art has the power to change you, or at least the way you see the world, while entertainment has, at best, a transitory effect.

2005-10-01

Blogs, para que lê-los?

Minha atividade blogueira se concentrou entre 2001 e 2003. Os blogs dessa época sofreram uma extinção em massa. O Arredores, diretório de sites criado em 2000, virou um cemitério de links.
Até aí, só estou falando o óbvio. O problema real é que alguns dos sites mais legais me fazem falta. Perdi contato com vários dos blogueiros brilhantes dessa geração. Um deles recentemente fez uma lista de blogs bons e só incluiu os desse período pioneiro, desprezando os novos. O que há de original entre os recentes? - ele deve ter se perguntado sem saber responder.
Não vou dar nomes para não recolocar gasolina na fogueira de vaidades.

Mentalidade

Já existe uma infinidade de blogs devotados a criticar o comportamento e a moral dos outros, e não pretendo me incluir entre eles, mas esta ocasião não deixo passar.
O assunto é um adesivo que se vê colado em muitos microônibus e lotações em SP:

Devido à fiscalização, é proibido parar fora do ponto.

A frase revela demasiado sobre uma das facetas mais lamentáveis da nossa cultura comum.
Todo mundo já foi informado alguma vez: o veículo não pode parar fora do ponto para recolher nem desembarcar pessoas. Com isso, eventualmente perde um ou outro passageiro. Mas não é que seja proibido de parar fora do ponto porque há normas de trânsito que devem ser obedecidas para o bem de todos, ou normas operacionais básicas do transporte coletivo. Não é por motivos de bom senso ou de eficiência. É unicamente porque existem fiscais... aqueles chatos que ficam atrapalhando a nossa vida quando tentamos apenas fazer nossa vontade. No caso, a vontade seria infernizar um pouco mais o já insuportável trânsito em troca de dois reais no nosso bolso.

A tendência oposta de reação também existe. Numa banca próxima à rodoviária Tietê, há alguns anos, o proprietário se encheu dos intermináveis abusos e pichou na parede ao lado uma frase mais ou menos assim:

Não faça xixi aqui, SEU PORCO SEM EDUCAÇÃO!