Claro que inúmeros sites se levantam em protesto irado e veemente contra cada novo tipo de tentativa de controle de cópia que aparece, mas não é mais do mesmo que você verá aqui. Em lugar disso, vou fazer uma análise superficial, porém serena, dos principais modelos de negócio e provar por argumentos, e não gritando, porque o sistema proposto não é o melhor. Todas as coisas na vida são mais complexas do que parecem, e este é um caso clássico.
A gravação musical foi inventada há mais de 130 anos, portanto não temos a memória de uma época em que só existia a música tocada ao vivo. Não existia nenhuma restrição à execução pública de obras alheias. Isso continuou valendo para o rádio. Inicialmente não havia necessidade de estruturar um mercado de execuções e cópias das músicas, pois, durante as primeiras décadas, pouquíssimas pessoas tinham acesso à tecnologia necessária. Mas isso mudou aos poucos. Quando a fita cassete se popularizou, a cópia descontrolada foi compensada por meio da cobrança de uma taxa geral da indústria fonográfica, embutida no preço de cada fita virgem. Pouca gente até hoje sabe da existência dessa taxa, porque antes da era digital a indústria podia tomar suas decisões de forma despercebida pelo público. A taxa existe atualmente para gravadores de CD em vários países. Neste momento há gente no Japão tentando instituir (por enquanto, sem sucesso) uma taxa sobre o preço de tocadores digitais como o iPod.
Com o surgimento do CD, novamente a indústria não se preocupou com cópias, porque passaram muitos anos até existirem meios simples e eficientes de fazer cópias digitais da música. Assim que esses meios viraram realidade, as gravadoras perderam a cabeça e até agora, meia década depois, elas não conseguiram encontrá-la de volta. Toda e qualquer medida que tentam tomar para recuperar o controle do mercado dá errado e as torna ainda mais impopulares.
Quanto ao modelo de negócio, o que está em disputa atualmente são duas visões diferentes da música: como produto e como serviço.
A música como produto é um objeto físico - CD, vinil, fita - ou um objeto lógico - arquivo digital no seu HD - que você armazena e pode reutilizar à vontade e indefinidamente enquanto existir o equipamento capaz de converter a informação gravada em som.
A música como serviço é como uma ligação de celular. Quando a conversa acaba, você paga uma quantia em dinheiro proporcional ao tanto que conversou. (Não é a mesma coisa que o rádio, pois você não tem controle direto sobre o conteúdo da programação e não paga pelo serviço, que obtém sua renda via publicidade.)
A pegadinha conceitual da música como serviço é que, se o controle de reprodução não está mais em poder das pessoas, não faz sentido que elas guardem e carreguem a gravação consigo. O sistema requer uma tecnologia - possível e já existente - de distribuição imediata sob demanda e tarifação conforme o uso. Nada de aparelhos pessoais de armazenamento, mas um servidor remoto contendo a música, transmitida em tempo real e disponível o tempo todo e de qualquer lugar. O DRM é o esquema que permite a tarifação.
Mas no comércio de música como produto o propósito do DRM foi desvirtuado. Virou uma tentativa inútil de impedir a cópia e nada mais. Existem tecnologias de CDs que tentam impedir a conversão em MP3, outras que tentam impedir a cópia direta em CD-R e até uma que impõe um prazo de "validade" para o disco tocar.
Mas sempre é possível contornar o DRM; esses esquemas nada fazem para impedir a pirataria. Uma coisa acerca da informação digital é certa e garantida: por mais que a indústria tente evitar, sempre teremos à mão alguma tecnologia capaz de capturar o áudio e colocá-lo sob o nosso poder. Mas a indústria não aprende a lição e segue inventando esquemas ineficazes que destroem o prazer da experiência de uso do produto (como os discos Copy Controlled da EMI, que nem mesmo podem usar o logo "Compact Disc" porque desrespeitam as normas técnicas originais do CD) e até podem funcionar como malwares no seu PC (como a desastrada tentativa de DRM da BMG/Sony).
Em relação à tarifação por execução da música, o que achamos ultrajante e sem sentido é possuirmos a mídia mas não podermos decidir nós mesmos o que fazer com ela. Que a gravação seja sempre um objeto estranho e alheio no meio das nossas coisas pessoais.
Portanto, o modelo proposto é um híbrido desastroso. Ou é para ser uma coisa ou é para ser outra.
Para nós, hoje, o conceito de DRM pode parecer absurdo; mas a fim de implantar um sistema desses aos poucos, a indústria conta com a complacência ignorante da maioria que não pensa e não age. E assim fica explicado o título deste texto. Se devemos temer alguma coisa, é isso.
Update - Enquanto isso, esboça-se uma guerra entre a indústria audiovisual e os podcasts.
Os podcasts são uma inversão do modelo comercial: distribuídos sob demanda e podendo ser armazenados indefinidamente pelo usuário. É exatamente o que a indústria não quer.
Os podcasts são uma inversão do modelo comercial: distribuídos sob demanda e podendo ser armazenados indefinidamente pelo usuário. É exatamente o que a indústria não quer.


Mario, vc tem toda a razão.
ResponderExcluirAs pessoas são capazes de abdicar de seus direitos e liberdades com facilidade se alguém com "autoridade" lhes disser para fazer isso. Especialmente se tais mudanças vierem embaladas como modernidades ou facilidades.
O que me deixa mais cabreiro é que somos poucos os que percebem os perigos que a revolução digital nos tras e é possível que não tenhamos força para impedir a nova onda que vem por ai.
Abraços!
O problema é que esse modelo, com algumas modificações, já existe e todo mundo aceita sem muitos questionamentos. É o caso dos softwares. Ninguém "compra" software, mas o licencia para uso. Se lermos o contrato (que é aceito assim que clicamos Concordo geralmente sem ter lido nada), vamos perceber que não possuímos nada.
ResponderExcluirEm geral, as empresas precisam renovar suas licenças de uso após um ano. Não se pode vender, emprestar, instalar em outro computador. Talvez seja esse o modelo final das gravadoras. Você não compra um objeto final mas licencia para uso uma música. Após 1 ano, se quiser ouvir de novo, precisaria renovar sua licença.
Mas como no caso dos softwares, isso só ajuda os pirateiros. E quem não é pirateiro de música hoje em dia?
Barbão
Mudando (mas nem tanto) de assunto, você soube do software "anti-Skype"? Empresas telefônicas poderão bloquear chamadas oriundas de softwares VoIP.
ResponderExcluirE a companhia telefônica pode decidir quais ligações eu posso receber ou não?
Música como serviço pra mim tem nome: rádio.
ResponderExcluirE, se eu tenho um iPod pra guardar minhas músicas, é porque eu não quero ouvir rádio, ou não estou contente com as webradios. Ou ainda porque elas não estão sempre disponíveis quando eu quero.
Tem um assunto que se junta a este que é a questão da privacidade.
ResponderExcluirO Pedro Dória fala sobre isso neste artigo.
Alguns questionamentos imparciais:
ResponderExcluir- Desde o "boom" do mp3, a indústria fonográfica registrou queda nas vendas?
- Se eu gravo uma música tocada na rádio em uma fita cassete, caracteriza-se a mesma conduta de eu pegar um CD e converter uma faixa em arquivo digital?
- O que o cantor prefere: restringir sua música a quem pode pagar pelo CD original, ou vê-la popular, e conseqüentemente, vender mais CDs?
Questões complicadas, muito complicadas...
Abraços!