2005-10-07

Fotos estéreo

 
Este ensaio é baseado num artigo que publiquei em outubro de 2000, um mês antes de o site se transformar em blog.

A fotografia estéreo teve um período de popularidade na virada do século 19 para o 20. Um equipamento chamado estereógrafo, dotado de prismas e lentes como um binóculo, mostrava uma imagem diferente para cada olho, transmitindo a sensação de profundidade e volume. A fotografia era feita com duas câmeras montadas lado a lado, focalizadas da mesma forma e disparadas ao mesmo tempo.
Décadas mais tarde, ficou popular a técnica anaglífica, que sobrepõe as duas imagens em azul e vermelho e necessita óculos especiais com filtros coloridos correspondentes às cores da impressão.
De tempos em tempos se fala em criar telas de computador e TV em 3D, e já existiram vários videogames em 3D. Uma técnica que pode usada com monitores de vídeo comuns é exibir as imagens esquerda e direita alternadamente. Óculos especiais de cristal líquido bloqueiam a luz para cada olho em sincronia com a exibição na tela. A dificuldade de difusão da técnica está na necessidade de hardware especial e de software específico.
O cinema iMax usa a técnica de projeção polarizada, na qual as duas imagens são projetadas com luz polarizada em ângulos perpendiculares um ao outro, sobre uma tela metalizada. Óculos polarizadores especiais filtram as imagens vistas por cada olho. Os resultados são impressionantes, já que o ângulo de visão é muito amplo, a imagem pode ser colorida e a separação é perfeita, desde que o espectador mantenha a cabeça bem nivelada. (Inclinar a cabeça bagunça os ângulos de polarização e anula o efeito estéreo.)
É uma pena que não temos cinemas iMax no Brasil e relativamente poucos privilegiados tenham experimentado a sensação de ver um filme estéreo numa tela gigante. Eu vi um no iMax Port Vell, em Barcelona. O filme era sobre a exploração dos restos do Titanic. Dirigido por James Cameron. Dublado em catalão.
Nos filmes estéreo iMax, o plano físico da tela desaparece completamente e temos a ilusão perfeita de que estamos dentro do espaço filmado.
Em todos os casos, a idéia é sempre gerar duas imagens separadas e simultâneas da mesma cena e combiná-las individualmente nos nossos olhos, de forma a reconstruir a sensação de volume. Há uma barreira de custo e outra relacionada à da falta de padrões técnicos universais para produtos desse tipo.
Holografia não é imagem estéreo, e sim um método completamente diferente - e muito mais sofisticado - de registrar imagens tridimensionais. Na holografia, a fase da luz é registrada juntamente com a sua intensidade, que é a única informação presente nas fotos normais. A informação de fase permite reconstruir a imagem de tal forma que cada ponto de vista do observador revela uma visão diferente do objeto reproduzido, exatamente como aconteceria com o objeto original. Novas técnicas permitem criar monitores digitais para holografia. Esse é um campo em rápido desenvolvimento, relativamente ignorado pelos fãs de tecnologia, que promete resultados muito além do simples entretenimento.

Estereografia sem óculos

O sistema anaglífico, aquele que usa os óculos azul/vermelho, é bastante conhecido e usado, mas apresenta três inconvenientes sérios: requer inevitavelmente os tais óculos; os filtros nunca conseguem separar totalmente as imagens (geralmente o filtro azul é pior nisso que o vermelho); e a imagem fonte só pode ser em meios-tons, sem cor própria; o resultado é irreal pela própria coloração.
É possível apreciar fotos estéreo sem nenhum equipamento adicional. A técnica mais usual é a visão paralela. Coloca-se as duas imagens comuns, coloridas ou preto e branco, lado a lado. A esquerda é para o olho esquerdo e a direita para o olho direito. Então, olha-se para elas focalizando a uma distância normal, mas mantendo os olhos paralelos, como se estivesse olhando para um objeto distante. Como os olhos podem ficar paralelos mas não divergentes, há um limite máximo para o tamanho das fotos vistas através desse método. Além disso, é preciso um pouco de treino para fazer as imagens coincidirem. Se você não conseguir fazer isso com as minhas imagens numa distância normal de visão, afaste-se do monitor e tente de novo; quando conseguir, aproxime-se lentamente, mantendo as imagens "encaixadas".
Outra técnica existente que também usa um par de fotos lado a lado é a visão cruzada. É exatamente o contrário da paralela: a imagem direita fica à esquerda da outra e vice-versa. Para visualizar é preciso cruzar os olhos, como se estivesse olhando a foto muito de perto. Eu não a apresento aqui porque pessoalmente não consigo usá-la, por mais que tente.

Minha experiência editorial

Fiz um trabalho pioneiro em imagem estéreo com manipulação digital no Photoshop, em fevereiro de 1994, sob direção do artista plástico (e atualmente VJ) Angelo Palumbo. Ele recebeu da revista Trip a tarefa de criar uma série de fotos em estéreo, mais uma propaganda e uma capa, pelo método anaglífico.
O desafio é que nenhuma das fotografias era originalmente em estéreo. Eram fotos convencionais, selecionadas do portfólio do fotógrafo de esportes Aaron Chang.
O estéreo nessas imagens é visto corretamente com óculos que tenham o filtro azul sobre o olho esquerdo e o vermelho sobre o olho direito. Coloquei, a fim de permitir a visualização imediata aqui mesmo, uma versão em estereografia paralela em preto e branco.




A fim de criar as imagens em estéreo, precisei duplicar cada uma das fotos originais e modificá-las da seguinte forma: selecionar a área da imagem correspondente, deslocá-la lateralmente e preencher as partes que ficaram sem pixels, pintando ou carimbando. Na imagem final, os diversos planos são percebidos pela visão como estando a distâncias diferentes.
A imagem do windsurf, a mais complexa da série, tem em torno de 20 planos e contém dois truques adicionais. O primeiro é a prancha, distorcida na vertical pelo método Skew, de forma a criar um plano inclinado contínuo em direção à câmera. O segundo truque é que o fundo foi distorcido em planos circulares concêntricos, a fim de gerar uma ilusão de distância crescente conforme ele se afasta do centro, o que corresponde à lente olho-de-peixe usada nessa foto. As gotas d'água no ar foram deslocadas em planos variados.




A propaganda de Axe foi criada colocando-se as fotos dos vários desodorantes em planos distintos. A localização relativa dos planos causa a sensação de que os desodorantes estão saindo da página, enquanto o fundo fica atrás dela.




As duas fotos da capa (uma delas não utilizada pela revista) são de autoria de Marcos Lopes.







Detalhes técnicos

Meu primeiro teste da técnica estéreo não foi feito com fotos, mas com uma imagem sintetizada em 3D pelo Ray Dream Designer durante o final de 1993. Simplesmente recoloquei a câmera virtual numa posição diferente e fiz um novo render para combiná-lo com o já existente.




A dificuldade de criar a segunda imagem para cada foto da Trip foi aumentada pelo fato de não existir no Photoshop da época (versão 2.5) o recurso de layers (camadas). Todas as edições foram feitas diretamente num canal de cor. A imagem original era passada de Grayscale para RGB. Os canais G (verde) e B (azul) continham repetições idênticas dessa imagem original sem alteração, que era designada para o olho esquerdo. O canal R (vermelho) continha a imagem direita alterada.
A separação de cores para a revista foi feita em magenta e ciano, em vez de vermelho e azul, deixando o amarelo e o preto em branco. Essa separação estranha foi uma tentativa de diminuir erros de registro na impressão e remediar um pouco a mistura das imagens nos óculos 3D. A maneira eficaz de reduzir esse problema seria utilizar óculos com filtros melhores e mais caros e imprimir as imagens com tintas especiais, também mais caras. Como o filtro azul "vaza" mais que o vermelho, seria preferível uma versão com o canal magenta repetido no amarelo e o ciano ligeiramente reforçado para compensar. A fim de deixar o resultado menos azulado, seria o caso de repetir um dos canais no canal Y. Se a repetição fosse do ciano, à imagem seria melhor visualizada pelo filtro vermelho (olho direito). Se a repetição fosse do magenta, a imagem seria melhor visualizada pelo filtro azul (olho esquerdo). Mesmo assim, a imagem ainda exibiria uma coloração lamacenta, nada atraente para quem não está usando os óculos 3D.
O equipamento usado foi um Macintosh Quadra 700 com System 7.1.

Resultado e outros projetos

A revista não compreendeu a considerável significação tecnológica do trabalho na época. O ensaio fotográfico provavelmente não tinha sido planejado de início para ser em estéreo, pois as legendas que saíram nas fotos não mencionam isso em momento algum. Ficou a impressão equivocada de que Aaron Chang tinha feito ele mesmo todas as fotos em estéreo. A falta de crédito para nosso trabalho (limitado a uma menção displicente a Palumbo no editorial) foi uma decepção profissional para mim.
Poucas semanas depois, outro projeto de imagem estéreo anaglífica não vingou na Folha de S. Paulo. Esse projeto envolvia transformar todos os elementos não-textuais do caderno Folhateen em estéreo, para visualização com óculos coloridos promocionais que seriam fornecidos junto com o jornal. Mesmo as imagens coloridas não-convertidas sofrem curiosos efeitos ópticos quando são vistas com os óculos, tornando todo o conjunto interessante. Mas o projeto não foi adiante. Oportunidade perdida: algum tempo depois, o "Estadão" e algumas publicações da Abril obtiveram enorme sucesso com produtos similares, feitos por outras empresas.
A manipulação do logo Folhateen foi bastante simples. Ele sofreu duas distorções "Spherize" com centros ligeiramente diferentes para cada olho. As formigas foram aplicadas em planos distintos.





Como fazer sua própria foto estéreo sem gastar nada

A parte óbvia é que você precisa de uma câmera. O ideal seria um par de câmeras, mas então seria preciso construir algum mecanismo para regular e disparar as duas ao mesmo tempo. Sem falar no custo dobrado! Para a finalidade deste artigo, estou pensando em apenas uma digital de bolso, sem maiores pretensões.
Tudo o que você terá de fazer é tirar duas fotos seguidas do mesmo objeto, mantendo a mesma distância, foco e exposição. Se esses três fatores não forem iguais de uma foto para a outra, não vai dar certo.
Use um tripé, se for mais conveniente; mas esse tripé precisará ser deslocado na horizontal entre as fotos sucessivas.
Se a sua máquina dispõe do modo burst (capacidade de tirar várias fotos em curtos intervalos de tempo), utilize-o da seguinte forma: desloque a máquina lateralmente enquanto tira as fotos. Havendo iluminação suficiente para garantir uma exposição curta e sem borrar, esse é o melhor método para fazer um retrato estéreo de uma pessoa, já que as imagens esquerda e direita devem ser capturadas com o mínimo intervalo de tempo possível. Qualquer mudança de expressão entre as fotos aparece na imagem estéreo como uma distorção. No teste que fiz abaixo (modelo: Maria Beatriz Sant'Ana, editora da revista Smack), só aproveitei duas de 8 fotos feitas num burst. Ela piscou os olhos em duas das imagens, o que limitou a escolha. Isso é normal e esperável.



Nas fotos de paisagens, a passagem do tempo causa um outro problema. Você pode perceber vários carros e pessoas em posições diferentes de uma imagem para a outra. Em relação a eles, só há duas opções: conformar-se ou apagá-los meticulosamente no Photoshop. Um alerta: qualquer diferença na textura de uma mesma área entre as duas imagens cria efeitos ópticos bizarros.




Na imagem do boneco, não dá para intuir a escala apenas de se olhar para ele, porque a separação entre as duas posições da câmera é exageradamente grande em relação ao tamanho do objeto. (Nesse exemplo, a área visível do Neo compreende uma altura de 14 cm.) Quanto mais separadas forem as duas posições da câmera, mais exagerado será o efeito de profundidade e menor parecerá o objeto. Para resultados mais naturais, utilizo uma distância similar à distância entre meus olhos para fotos de objetos situados a alguns metros de distância; distância menor para macros e closes; e distância maior para objetos distantes e paisagens. As fotos dos prédios acima foram feitas a 40 cm de separação. Isso explica porque mesmo numa imagem pequena ainda é possível distinguir as posições relativas dos prédios, como se a cidade estivesse miniaturizada. Uma boa sugestão é fazer uma série de imagens e comparar os resultados entre diferentes separações.



Montagem no Photoshop

Tendo as duas imagens à mão, é preciso alinhá-las. O objeto nas duas deve ter exatamente a mesma escala, e o eixo vertical (ou horizontal) deverá ser perfeitamente paralelo entre as duas imagens.
Carregue as duas fotos no Photoshop como layers soltos, uma diretamente sobre a outra, e rotacione ou distorça a de cima até coincidir com a de baixo na altura e na orientação. A seguir, dê o comando Image > Canvas Size e modifique a largura do documento para 200%. Coloque as duas imagens lado a lado; a imagem esquerda fica à esquerda e a imagem direita à direita, exatamente como nos exemplos. Pronto! Já dá para enxergar a foto estéreo!
Como o campo total que pode ser visualizado pelo método paralelo é relativamente estreito, você deve utilizar um enquadramento vertical e cortar fora o que não puder ser visto nas duas imagens. Para obter uma foto maior, pode experimentar usar um enquadramento mais comprido. Dependendo do assunto da foto, isso nem sempre é possível.

Referência na Internet

Este site contém galerias de fotos estéreo do mundo todo, feitas com diversas técnicas.

Um comentário:

  1. And now in stereo..

    Lembrando do seu post sobre fotos estéreo..
    http://worshiptheglitch.com/2005/12/3d-without-glasses.html

    Acabei fazendo nas suas fotos de exemplo..
    Ficaram interessantes.. Oq acha?!

    Não achei um email de verdade, por isso enviei por aqui..

    Mobi

    http://img212.imageshack.us/img212/2336/axe27et.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/3120/capa23qe.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/4872/dsc03648s5ni.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/9731/dsc03650s4go.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/1784/dsc03679s6am.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/2295/snowbard28fz.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/2217/teste24jr.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/6627/windsurf26es.gif
    http://img212.imageshack.us/img212/45/dsc03705s7rw.gif

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