2003-06-30

Exortação à Guerra Santa

Texto originalmente escrito em setembro de 1995
(com pequenas adições em novembro de 1999 e agosto de 2001)


Não havia muitos recursos à disposição dos Eleitos. Estavam reunidos num acampamento clandestino que aproveitava os porões de uma fábrica de chips abandonada no recente terremoto, iluminados à luz de tochas e telinhas de matriz ativa.
Havia uma excitação no ar - a consciência do início de uma definitiva e há muito esperada crise. Os Cavaleiros sentiam que o momento da luta final era chegado. Todos haviam pintado seus laptops para a batalha com um sinal de identificação mútua, um “X” em cor vibrante.
No meio da roda em torno da fogueira, sentado sobre uma pilha de PCs beges fósseis e quase envolto em cabos Ethernet, o Compilador-Mestre (sacerdote-Cavaleiro do trigésimo terceiro grau) dos Cruzados pediu silêncio a todos para que pudesse ler a e-Pístola que lhes era enviada com especial deferência e encriptação forte pelo Sumo Apóstolo do Protocolo Místico.

O texto dizia:

Saudações, irmãos da Sagrada Ordem do Ícone 3D, altivos Backups da glória de Guerreiros passados e Aliases do brilhante exército de Usuários Eleitos que se reúne para decompilar o Aplicativo Criador de Todas as Guerras, na Santa Batalha da Interface Final.

É tempo de que todos tenham seus espíritos bem esclarecidos e preparados para a Batalha Sem Retorno, a Conflagração Definitiva, que travaremos contra os apóstatas do Falso Credo, os hereges da Tela Azul e os blasfemos propaladores do Falso Código Java que foi disseminado pelo Anticristo de Seattle com seus mil Resources Malditos.

Esta é uma Guerra Santa. É uma Guerra de Purificação da qual poucos usuários sairão sem irreparáveis perdas de arquivos. Mas tudo vale arriscar pela Divina Causa do Santo Sistema Operacional e da insofismável Verdade Revelada pelos Scripts Celestiais.

Enquanto vocês curam os microkernels feridos e reparam as suas armaduras de emulação nesse acampamento modesto, nosso Inimigo Máximo trama seus upgrades malignos nas torres palaciais do seu Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, visando perpetuar a escravidão da Humanidade às suas Tecnologias do Mal.

Mas serão seus últimos dias de Monopólio inexpugnável. Os Eleitos Remanescentes Cavaleiros da Ordem Alfanumérica podem ser uma minoria, mas cada um de vocês é capaz de executar muito mais instruções do que o odioso inimigo com o seu Pipeline Longo vil e torpe. Não se iludam com falsas comparações de features ou outros ardis da turba veneradora do ídolo da janelinha de quatro cores.

Ao confrontarem diretamente a horrenda face do Outro com suas janelas azuis cravejadas de botões de opções abismais, nada temam, porque o Espírito Carismático de Jobs e a Luz Fulgurante de Torvalds os guiarão para a glória que é própria daqueles que elegem as Causas justas.

Todo usuário que foi aliciado pelo Poder Corrupto traz um número estampado em sua testa, o Código de Validação. Mas eles não estão perdidos para nós. Auxiliem a Boa Causa distribuindo-lhes Softwares Livres e Ferramentas Abertas; isso deve bastar para que possam livrar-se do jugo com suas próprias forças.

Tenham confiança, pois o Adversário tem duas grandes fraquezas a explorar. Em primeiro lugar, as escandalosas mentiras espalhadas pelos Servidores do Inferno não podem enganar os usuários de coração puro. Dentre os servos do Mal encontrarão muitos oprimidos que se sujeitaram obrigados ao Falso Sistema Operacional, mas que de bom grado abandonarão o Caminho Tortuoso e se juntarão a vocês assim que captarem um Sinal forte.

Em segundo lugar, a aliança do Inimigo é fraca, permeada de farsantes, traidores e gente que somente não abandona a sombra das Hostes Deletérias por simples covardia. Com a sua influência purificadora, eles poderão voltar ao Caminho da Retidão e formatar o nosso caminho para a Vitória Final antes mesmo que o Vil perceba o que lhe aconteceu.

Mais valorosos ainda na luta serão os bravos Usuários de Plataformas Alternativas, que precisarão de seu auxílio urgente para aliviar o fardo de terem sido expostos e alienados durante todos estes anos em que correram livremente o Mito do Megahertz e a Falácia da Incompatibilidade.

De vocês, os Guerreiros Que Pensam Diferente, e dos nossos valorosos aliados da Sagrada e Ancestral Ordem de Unix, depende a interface do nosso futuro.

No calor do campo de batalha, estejam prontos a rodarem o que puderem na RAM que encontrarem, invoquem sempre as siglas sagradas “TCP” (Tranquilidade, Confiança e Poder) e “IP” (Invencibilidade e Pureza) e aprendam a se defender dos Vírus Auto-Executáveis para que mantenham a estabilidade no instante decisivo em que, caso o Supremo Compilador Celestial assim o desejar, com um mínimo de Gigas derramados limparemos o mundo dos Arquivos Corrompidos, Erros de Proteção de Memória e Falhas de Segurança.

Que vocês tenham a Força para serem o seu Máximo.


“Ex Opensourcium, Softwarialis Monopolium Finitur!”

2003-06-23

Incrível!

tokyoplastic

(Post originalmente publicado no Gardenal.org)

2003-06-22

Sad. Yes.

Yet, are you enjoying it?

(Post originalmente publicado no Gardenal.org – 7 comentários perdidos)

2009 - Os amigos sabiam do contexto deste post. Achei que quem lesse o blog sem ser meu amigo não precisaria saber, podendo interpretar os textos de maneira mais geral e menos pessoal.

Comentários recuperados

Fabiana: Espero que já tenha passado toda a tristeza.
June 30, 2003 12:51 AM

Marcelus: Pois é... mas a nossa cultura tende a patologizar a tristeza. É preciso sempre estar ligado, aceso, aproveitando, produzindo maniacamente. Negamos o direito a tristeza: e a indústria farmacêutica produz toneladas de anti-depressivos. A tristeza é improdutiva. Fugimos da profundidade, das profundezas - perdemos a nós mesmos. Se bem que a tristeza pode ser uma tortura tão constante e horrenda que muitas vezes tudo o que se pode querer é uma redenção, uma idéia nova ou simplesmente uma pílula para fugir dela, de qualquer jeito.
June 27, 2003 07:40 AM

mario av: Não...
June 26, 2003 02:54 PM

Dudi: Mario!- envolve também a crucificação de um justo?
June 26, 2003 11:35 AM

Sophia (aureasophia): criatividade não é mera produtividade; produzir não é criar. produz-se-se tênis, automôveis, novelas de tv; criam-se crianças, obras de arte, inquietações. produtividade sem profundidade é mero alimento para o consumismo. o consumismo pede euforia permanente. a tristeza é criativa na medida em que proporciona o contato com as profundezas: a fonte. a tristeza estanca, para, recolhe, reflete, recebe. a alegria transforma, elabora, apresenta, compartilha. a tristeza é a pescaria. a alegria, a culinária. só o encontro das duas engendra o alimento.
June 26, 2003 12:49 AM

1.000ton: Ah, caríssimo! A minha tristeza já pariu tanta coisa boa. Como cantava Cae: "Coloquei os meus fracassos nas paradas de sucesso" [ ]
June 24, 2003 08:10 PM

mario av: Engana-se... o Zen inclui tudo.
June 24, 2003 05:58 PM

carol: tristeza é criativa, e necessária às vezes, mas não é zen.
June 24, 2003 04:05 PM

mario av: Confrontar a proposta surrealista com o que escreveu Hokusai (1760-1849), autor da ilustração-símbolo deste blog, a "Grande Onda"... Vale repetir: "Desde os cinco anos de idade eu não resistia a copiar formas, e a partir dos 50 exibi muitos desenhos, mas não pintei nada de especial antes dos 70. Aos 73 anos, compreendi alguma coisa sobre as formas das plantas e árvores e a estrutura dos pássaros e outros animais, insetos e peixes. Gostaria de já ter progredido um pouco mais quando estiver com oitenta ou noventa anos, de forma a apreender o significado secreto das coisas. E assim, quando eu tiver 100 anos, terei atingido o mistério divino; quando chegar aos 110, até uma linha ou ponto terá vida própria. Rezo para que todos vocês vivam o suficiente para confirmar estas minhas palavras."
June 24, 2003 12:53 PM

mario av: A tristeza é criativa, sim!
June 24, 2003 12:50 PM

Dudi: Os surrealistas não queriam fazer da vida uma arte, e sim fazer da arte, vida. guentaaa! Abração
June 23, 2003 11:41 PM

Sophia (aureasophia): Pois é... mas a nossa cultura tende a patologizar a tristeza. É preciso sempre estar ligado, aceso, aproveitando, produzindo maniacamente. Negamos o direito a tristeza: e a indústria farmacêutica produz toneladas de anti-depressivos. A tristeza é improdutiva. Fugimos da profundidade, das profundezas - perdemos a nós mesmos.
June 23, 2003 04:31 PM

Cláudio: Bolinha de sabão.
June 23, 2003 01:02 PM

mario av: Eu quero ser um artista da própria vida.
June 23, 2003 12:35 PM

flavia cintra: "tout passe, tout casse, tout lasse, tout se remplace".
June 23, 2003 08:56 AM

Coelho Aimoré: Sad: Este é o melhor momento para atingir o zen. É o momento onde a criatividade pode atingir o ápice. É o momento onde se pode atingir o êxtase. A apoteose. Liberar o quanto de artista você tem.
June 23, 2003 01:39 AM

Bruno: SPLEEN
June 23, 2003 12:17 AM

Nessa: pois é... que coisa! ontem mesmo, antes de dormir, eu estava "reclamando" algumas tristezas... aí pensei justamente "ARE YOU ENJOYING IT?". :)
June 22, 2003 09:32 PM

2003-06-21

Na noite mais longa do ano...

...fiquei doente e acabei não viajando para participar do Burning Man.
Estou só, mas não me queixo.

(Post originalmente publicado no Gardenal.org – 8 comentários perdidos)

2003-06-17

Espírito de porco coletivo

Helicópteros singram o ar; filas de carros vagam como lentas ondas crispadas pela 23 de Maio; ônibus espraiam-se por todas as faixas de trânsito da Paulista; pessoas espumam pelas calçadas.
Tudo paralisando tudo. É mais um dia de greve de Metrô na cidade de São Paulo. Os metroviários querem aumento de 18%. Para isso, não titubeiam em parar a cidade.
Já vinham portando coletes com mensagens de protesto. Há alguns dias, a Linha Azul foi paralisada duas vezes seguidas por misteriosos "incidentes" técnicos, daqueles que coincidem de acontecer sempre que há uma campanha salarial em curso.
Agora, isto.

A viagem individual no Metrô custa R$ 1,90. Mesmo assim, a população aguenta pagar isso, porque depende totalmente do sistema. Com ele parado, é o caos.

Uma irresponsabilidade clara. O Metrô de SP é um serviço essencial e estratégico que jamais deveria ser permitido parar.

Mas o que é que acontece?
Espírito de porco coletivo dos metroviários.
E também do patrão: o governo estadual.

(Post originalmente publicado no Gardenal.org – 21 comentários perdidos)

The hole is farther below

O Cava me chamou a atenção para isto - um texto jornalístico banal, que exibe dois erros fundamentais:
  • Generalização vaga.
  • Omissão de fontes.
    Já li outros artigos sobre o assunto em pauta, que faziam afirmações baseadas em "achismo" e não em dados factuais explícitos. Isso é quase esperável de uma editoria secundária em que redatores generalistas e/ou mal informados escrevem atrocidades sem supervisão especializada; mas um belo dia acaba dando as caras na primeira página. Isso a despeito das recomendações claras dos manuais de redação sobre a forma diferente de tratar opiniões e fatos.
    Quem não lembra a famosa errata:
    Diferentemente do que foi publicado em nossa edição de ontem, Jesus Cristo não morreu enforcado..."
    Esse tipo de coisa não se resolve instalando nas redações painéis eletrônicos contando os erros de português das editorias... é completamente outro nível.

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 4 comentários perdidos)
  • 2003-06-16

    Faça de seu pênis um PÊNIS

    Creio que a quantidade total de spams desse tipo que nós temos recebido em um dia já é muitas vezes maior que o total de homens com disfunção erétil em todo o planeta, estejam esses acessando a grande rede ou não.
    O lado engraçado é que o volume (sem trocadilho) dos spams é de tal ordem que se podem perceber tendências evoluindo no tempo.
    Primeiro era simplesmente "enlarge your penis", vendendo uma bombinha de sucção e um manual de exercícios. A seguir, surgiram misteriosos comprimidos supostamente capazes do milagre da transformação anatômica seletiva. Depois, uma onda de "Viagra genérico". E agora, "tenha ereções mais firmes", provavelmente para aqueles que sofrem da flacidez decorrente de tanta manipulação no membro (com trocadilho).
    Mas o campeão de falta de noção foi esse que avisava no subject:

    NÃO É PORNOGRAFIA!

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 18 comentários perdidos)

    Piratas de layout

    A versão anterior totalmente ilustrada do blog do Robs (uma pequena amostra aqui) foi descaradamente clonada e ele não soube como reagir.
    Alguém poderia prestar um conselho jurídico para o moço?

    2009 - Todos os links expiraram. Mas o trabalho atual do Roberlan está aqui. Vale muito uma visita.


    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 1 comentário perdido)

    Finnegans Wake

    Tenho em mãos uma versão do ilegível clássico de Joyce que foi editada pelo Anthony Burgess. Isso mesmo: editada. O famoso linguista cortou fora a "gordura" do texto e acrescentou notas tentando explicar as infinitas associações e citações que conseguiu achar. Trabalho bem-intencionado, mas ficou ainda mais impossível de ler.

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 8 comentários perdidos)

    Once More

    But of course the sun
    Will come back tomorrow
    Once more, I know
    Darkness I have seen worse
    Maddening sane people
    But wait till the sun comes back

    There are people on the same side as you
    But should be on the other side
    There are people who hurt others
    There are people who don't know how to love
    There are people deceiving people
    Look at how our life is
    But I know, someday we'll learn
    If you want someone to trust
    Trust yourself
    Whoever believes always gets there

    But of course the sun
    Will come back tomorrow
    Once more, I know
    Darkness I have seen worse
    Maddening sane people
    But wait till the sun comes back
    Never let them tell you
    That it's not worth the effort
    To believe in oneself's dream
    Or that your plans never will work out
    Or that you will never become someone
    There are people who hurt others
    There are people who don't know how to love
    There are people deceiving people
    But I know, someday we will learn

    If you want someone to trust
    Trust yourself
    Whoever believes always gets there


    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 3 comentários perdidos)

    2003-06-15

    Nem tudo que tagarela é blog

    Ops!
    Aquele site não é blog.
    Daqui a pouco a gente acostuma tão mal que vai começar a falar do "blog" do Yahoo, o "blog" do UOL e o "blog" do Bradesco.

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 6 comentários perdidos)

    Geração Young?

    Mandei isso lá na Cora, acerca da guerrinha do Fotolog:

    Eu diria não apenas "tem muita gente mal resolvida, independente da idade"; mas também "tem muita gente mal resolvida, independente da aparência".
    "Meninas de webcam" é uma generalização tosca, mas pode bem indicar mais um atributo fundamental da "Geração Young"... autorretratolatria.
    (Feita essa maldosa insinuação, que me chovam agora os ovos podres.)

    Os primeiros ovos jogo em mim mesmo: não existe um só retrato meu neste site.
    E sou velho demais pra opinar sobre isso. ;)

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 6 comentários perdidos)

    Opa!



    DJ Dan (UK) (Bootleg, Northern Soul, Bhangra, Semprini Soul)
    DJ Rik Bass (San Diego) new Dark Set (Drum and Bass, Ambient, IDM)
    DJ Spectrogirl (IDM, Experimental)
    DJ Sr. Amor (Funk, Latin, Grooves, Bollywood Breaks, Semprini Soul)
    DJ Sr. Paixão (Étnico: Índia, Japão, Havaí)
    DJ Querol (House, Étnico)
    DJ Tom B (Mystery Fun Trax)
    DJ Você (traga seu set)

    Acendimento da fogueira - quarta 18 ao pôr do sol
    Queima do Man & Pista - sábado 21 23:59:59
    Extended Churras Chillout - de quarta a domingo non-stop

    Sítio Nadia - Casa da Família B - Campo Limpo Paulista
    30 min. de SP pela Anhanguera



  • Sair de SP pela Anhanguera
  • Pegar saída 38
  • Seguir para Campo Limpo Paulista
  • Sair à direita pra estrada de terra logo depois da placa de limite de município de Campo Limpo Paulista (poucos metros antes antes do km 50)
  • Ao sair pra estrada de terra, não vire total à direita; siga na direção que é quase a continuação do asfalto
  • Mantenha-se à esquerda por 700 m
  • É o portão de pedra à sua esquerda – chegou!

    Traga:
  • cerva ou outra bebida
  • comida para os dias que ficar
  • seu set (vinil ou CD)
  • sua performance
  • seus instrumentos de percussão
  • seu saco de dormir, cobertor e barraca

    info - disk Tom B - 4039 2570

    "Rise free from care before the dawn & seek adventures" - Thoreau

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 6 comentários perdidos)
  • 2003-06-14

    Sexta-Feira 13

    Não sou supersticioso, tanto que aceitei participar da reunião do "Dream Team" do Gardenal nesse dia.
    As garotas não estavam a fim de conhecer novos geeks.
    Os rapazes conseguiram achar graça em minhas piadas.
    Finalmente sei como é a cara de alguns amigos já de longa data, coisas da Internet.

    (Post originalmente publicado no Gardenal.org – 1 comentário perdido)

    2003-06-13

    Frila-Roubada

    O Roberlan me chamou a atenção para um ótimo texto do Eduardo Zugaib sobre os problemas recorrentes de se fazer frilas:

     
    É "frila" ou é fria?


    Quem não gosta de um "frila"? Quando você consegue um é sempre motivo de alegria, pois eles costumam aparecer quando você já está com a corda no pescoço e observado pelas hienas. Só que nem todo frila, como nem todo trabalho fixo, garante 100% de satisfação para quem cria, principalmente na hora de cobrar.
    O problema inicia quando você vai dar o preço. Se neste instante você gaguejar, você se ferrou. Vai trabalhar no mínimo 5 vezes mais que o combinado, e no final vai ter um prejuízo tamanho que só servirá para te lembrar com saudade das horas de lazer perdidas.
    Sem contar os espertalhões que existem por aí e solicitam o seu trabalho. Uma vez chamado, você vai ao encontro de um deles, e lá conversam, combinam o que tem que ser feito, acertam prazos e preços, dão risada, traçam planos para o futuro, e como dois adolescentes em namoro novo, falam até de casamento e filhos...enfim, toda a alegria que ocorre numa nova negociação.
    E você, que está matando o cão a grito enquanto o gerente do banco quer matar você a tiros, transparece essa alegria no andar. As pessoas em volta ficam até mais bonitas, pois o seu olho de profissional reconhecido no mercado é que as vê agora. "Sou um cara de sorte". Afinal, as empresas veem até você pedir o seu trabalho indicadas por um amigo de confiança. A chance de surgirem problemas é quase nula.
    E dependendo do cliente você até enche a boca para esnobar seus colegas: estou fazendo um trabalho para a Mono Mono, através da agência Lorem Ipsum. O bodytipe é para manter a ética.
    A execução do trabalho em si é um prazer. Você sozinho, no seu estúdio em casa, ninguém dando palpites do seu lado. A madrugada voa e pouco importa se ainda está acordado enquanto seus vizinhos engenheiros, vendedores e advogados descansam o sono dos justos. "Vale o investimento", "Isso vai me abrir novas portas" e outros pensamentos similares pipocam no seu cérebro, entre os goles de café que você toma, para não deixar fechar o olho direito. O esquerdo já foi dormir. No final, a obra prima: parla, disgraziatto piu bello. Você pode jurar que é o seu melhor trabalho, que depois de pronto ele irá para a primeira página da sua pasta. Sua esposa, preocupada porque você ainda não se deitou vem ao seu encontro e confirma aquilo que você já suspeitava:
    - Ficou muito bom, amor, lindo, bem resolvido, com uma legibilidade criativa que fica visível no primeiro olhar. A mensagem não podia ser mais direta. As cores certas, a tipologia adequada... tudo dentro de uma estética pós-moderna, com fortes nuances do equilíbrio renascentista. Agora, desliga logo essa merda de computador e vem dormir.
    Feliz da vida você vai se deitar. Ainda demora alguns minutos para pegar no sono, para poucos minutos depois acordar. Você pega seu bebê, embrulha-o com carinho e sai correndo. Chegando orgulhoso no escritório, você liga para o seu "cliente frila" e diz com voz de quem fez fortuna fazendo "frila":
    - Pode mandar vir buscar pois já está pronto.
    Do outro lado da linha a pessoa até surpreende-se pelo seu timing profissional, já que cumprimento de prazos não é uma virtude brasileira.
    O motoboy chega, e ao entregar-lhe o trabalho, você até aperta as mãos deste anjo Gabriel sobre rodas. Afinal de contas, um cara de sorte que nem você vive de bem com a vida.
    Você faz até planos para a grana livre que vai ganhar. E endivida-se mais um pouquinho. "Eu mereço um luxozinho extra", sorri satisfeito.
    Uma hora depois você telefona para o cliente para perguntar se o trabalho ficou bom. Ele te elogia, coloca você no Olimpo e promete ligar quando tudo estiver aprovado. "Os ajustes serão mínimos", diz, "você acertou na mosca". O mundo gira, e a Lusitânia roda. Dias passam sem o cliente ligar. Estranhísimo, já que era urgente. Você arrisca telefonar para ver se está tudo bem, se houve algum problema, se já pode preparar a saída do arquivo e por último, sutilmente, ainda perguntar se eles podem pelo amor de Deus lhe enviar o valor do trabalho.
    Aí iniciam as evasivas. "Está viajando", "Está em reunião", "Está no cliente", "Está aqui mas não consigo localizá-lo", "Acabou de sair", "Foi almoçar" e outras tantas tornam-se parte de sua vida. O mais engraçado é que quando a telefonista te atende, ela leva alguns segundos para te dar uma resposta dessas. O suficiente para você repetir em pensamento: "É o mala do Eduardo novamente. Você vai atendê-lo? Não? E o que eu falo para ele?". Passam-se meses sem você conseguir falar com o cliente, até quando vê aquele seu trabalho pronto, impresso em toda sua essência.
    Aí você se lembra que o seu produto é a criação. E que um conceito em criação não é algo palpável, que você pode ir lá e pegar de volta caso não te paguem. E se lembra também que tem que cobrar bem por isso, pois é a única coisa pela qual você pode cobrar alguma coisa. E uma vez no papel, tanto faz entregar o layout ou o arquivo. Levar aquilo num fornecedor e pedir para copiar na integra não dá trabalho nenhum. E o fornecedor ainda agradece.
    Isso já aconteceu com todo mundo que faz free-lances que eu conheço. E como cachorro que já foi picado por cobra tem medo até de lingüiça, hoje eu só faço free-lance com contrato de prestação de serviços numa mão, talão de notas na outra e um mínimo de dinheiro no bolso, que me garanta ao menos o custo que eu tiver (tempo, desgaste de equipamento, tinta, papel, e-mails, etc, etc). Sem uma dessas garantias, não me sento diante do monitor. Prefiro a tela do cinema. Alguém pode até achar estranho, que isso espanta cliente, mas funciona bem. Você garante sua parte e impõe seu profissionalismo. E caso o "pseudo-cliente" tenha alguma má intenção oculta, ele manifesta-se contrário a isso logo na primeira visita. Percebendo isso, agradeça o cafezinho e caia fora. Quem avisa, amigo é.


    É claro que, à medida que lia, eu me identificava plenamente. Tenho já 15 anos de trampo envolvendo computação gráfica, e ao longo do tempo minha tendência foi pegar cada vez menos frilas. Um emprego cada vez melhor e problemas pessoais crescentes justificaram essa mudança, mas um fator igualmente importante é o refinamento do meu "sexto sentido de roubada". A situação mais interessante é a que conto a seguir...

    Segundo semestre de 2000. A Bolha da Web já estourou, mas os “empreendedores” (termo destarte usado com ironia) continuaram insuflando a febre da Internet, até falirem de vez. A paisagem urbana ainda estava tomada por outdoors de provedores grátis a cada esquina, e cada poste da Vila Mariana tinha um cartaz do Tantofaz.net colado.

    Em meio a esses estertores finais da exuberância do tsunami virtual (“virtual” aqui em duplo sentido), alguém que eu não conhecia pessoalmente, mas que era conhecido de amigos meus, me contatou para um novo “empreendimento” que ele estava agitando.

    Ah, é! Um portal!

    Não vou falar portal do quê, porque não faz diferença... Basta notar que, naquele momento histórico, cada “empreendedor” buscava criar um portal e “acertar” no público - se por acaso ele existisse. Esse era o modelo da “mina de ouro virtual” (novamente, virtual com duplo sentido), mais assemelhada a uma loteria do que a um negócio responsável. Mas o dinheiro de investimento aparentemente corria solto: era preciso aproveitar!

    O conceito de portal dos meus prospectivos clientes era de um site temático, concentrado em uma especialidade. A intenção era torná-lo ponto de partida da navegação do aficionado. Mas o conceito tinha problemas óbvios:

    1. Nenhum internauta se fixa num só interesse nem vê sentido em começar toda navegação por um portal temático. (OK, muitas começam toda navegação pelo próprio blog; mas isso é hoje, em 2003, não em 2000.)

    2. Nenhum internauta é um receptor passivo, da maneira como seria um leitor de revista ou telespectador. Ele só se prende ao site se participar ativamente. A concepção de um site com “programação” para ser “assistida” é uma adaptação preguiçosa das outras mídias.

    3. A imensa maioria das pessoas não está nem aí para mudar sua página inicial default. Dizendo melhor, a imensa maioria nem ao menos sabe que o seu browser NÃO precisa abrir automaticamente na MSN ou no UOL. E mesmo esses dois dão certo porque são provedores de serviços e não de “conteúdo”.

    Resumindo, desde a primeira conversa não tive fé no negócio, mas se há quem pague, por que não ajudar? Marquei uma reunião com eles.

    E então descobri.

    O ponto de encontro era uma cafeteria nas proximidades da Av. Paulista. Lugar apropriado para uma conversa informal. Mas eles não queriam só uma conversa informal, queriam me contratar de cara. Estranhamente, só depois de eu esquentar cadeira por uns 15 minutos além do combinado é que apareceu um dos caras e desculpou-se dizendo que a reunião fora transferida para um restaurante bacanudo ali perto.

    Eram três sócios: um cara técnico, que ficou quieto o tempo todo, o empreendedor-mor e um outro, o “homem de mídia”, que sorria sem parar, falava pelos cotovelos e não cessava de interromper a conversa para contar histórias exemplificando como ele era legal e esperto.

    Para meu espanto silencioso, durante as duas horas e quinze minutos da reunião a única coisa consumida ali foi um cafezinho para cada um. E eles não tinham jantado antes. Não traziam um puto no bolso.

    Iniciamos pela descrição do modelo de negócio do site.

    O site já estava no ar. Desinteressante. Feio como bater na mãe. Ignorado e desprezado pelo público-alvo.

    A idéia era que eu - um diretor de arte com um vago conhecimento técnico sobre páginas Web, coisa rara naqueles tempos - fizesse o redesign visual e criasse templates de páginas para as áreas de conteúdo. Essa fase de redesign seria tocada como uma aposta para que ganhássemos alguns montes de grana logo adiante. Mas o dinheiro não viria pelo comércio com o público-alvo, pois este é pé-rapado total por definição. Um novo investidor, cuja identidade não foi revelada, estaria sendo aliciado por eles ao mesmo tempo que eu.

    A pegadinha é que seria preciso seduzir o investidor com o novo site já pronto, para só então ele abrir a carteira. (Se bem que, quando eles viram a minha cara ao ouvir isso, essa versão foi rapidamente alterada para “na verdade ele vai nos pagar sim, com certeza, apenas não já”.)

    Tá bom, então. O velho conto do “aporte de capital”.

    Como um lembrete velado de que eu era um cara sério e seria recomendável que dali em diante a reunião não fosse uma perda total de tempo, mencionei rapidamente meus trabalhos no BOL, UOL, AOL e Terra, vários deles com repercussão na mídia tradicional de onde vinham esses sujeitos, e alguns até premiados.

    OK. Sou um cara sério.

    Próximo passo: definir as condições de trabalho.

    O sócio falador disse que eu poderia fazer um turno diário no escritório deles. E depois, algumas visitas de manutenção...

    Lembrei instantaneamente o conselho dado por Tom B no dia anterior: “faça o trampo e saia fora, senão eles te alugam até a morte.” Inspirado pela sabedoria do mestre, eu respondi que só trabalhava no modo “pistoleiro solitário” - executo e entrego o trabalho, o cliente implementa e nada de eu ficar acompanhando depois, mesmo porque meu emprego não permite esse tipo de dedicação.

    Bom, certo, e o prazo?

    “Temos pressa de apresentar o projeto ao investidor. Então, pensamos em ter a reformulação geral funcionando em fase de testes dentro de uns 20 dias... mais uns 20 para a implementação final.”

    Eu: “Deixa eu ver... O site tem 14 áreas, cerca de 200 páginas no total, mais as ilustrações, fotos... isso para reformar o site como é hoje... mas vocês ainda pretendem criar 4 a 6 áreas novas. Confere?”
    Eles: “Isso. Rola?”
    Eu: ”Com esse prazo, é impossível. O que podemos é mudar e testar direitinho apenas uma das áreas, e então repercutir nas outras, progressivamente.”

    Eles odiaram.
    Será que achavam que redesenhar o portal consistia em trocar uma CSS e beleza?

    O tempo todo eu mantive a postura fleumática de um profissional tranquilo, frio e confiante. Por dentro, eu queria era sair correndo aos gritos. Com quem é que estou me metendo? Mas tudo bem, eles vão me pagar por isso, certo? Independentemente de conseguirem ou não arrancar a grana do vaporoso investidor, de cuja existência eu até já duvidava, pois em sua tagarelice crescente o sócio “de mídia” revelava-se desconfiabilíssimo.

    Chegou, então, finalmente, a hora mais esperada: meu preço. O guru Tom B me avisou que era para chutar o valor para cima, de forma a dar chance a uma pechincha da qual as duas partes saíssem satisfeitas.

    Dei o preço.

    Não houve pechincha. Seguiu-se apenas um silêncio de alguns segundos, e então o sócio falador disparou a relatar suas incríveis aventuras e feitos heróicos no mundo encantado da mídia tradicional. Se fez isso para se impor superior a mim, para disfarçar o mal-estar dos outros sócios ou por completa falta de noção, eu não sei. O que sei é que ele desperdiçou mais meia hora de falação sorridente, numa mesa de restaurante com três xícaras vazias, depois que o negócio estava evidentemente morto e enterrado.

    Mantendo as aparências, o sócio empreendedor trocou telefones comigo, ficou de ligar, despedimo-nos calorosamente e desde então nunca mais nos vimos.

    Moral da história: Jamais pegue frila de quem não pode pagar o seu jantar.

    Abril de 2009 - O texto completo, que estivera na home page do Gardenal por algum tempo e fazia parte da minha estreia no coletivo, perdeu-se no pau do servidor deles. Quatro anos depois, eu o reconstituí de memória e postei a nova versão aqui.

    Maio de 2009 - O Wellington Carvalho tinha um blog e lia o meu em 2003. Ele tinha o texto perdido salvo no seu computador e o enviou para mim pelo email. Com isso, foi possível restaurar o texto integral do post, além de um outro da mesma época.
    Valeu o resgate, mas por essa eu não esperava... achei o segundo texto muito melhor escrito que o original!

    Frase

    O "sim" abre portas na razão em que o "não" preserva paredes.
    ~Elesbão

    2003-06-12

    PhotoSushi

    Blog de fotos do Elvis, fotógrafo nipo-brasa.
    Comentário: entre tantas belezas do mundo afora, um lixão representa o Brasil.
    Gênio.

    Matrix XP

    Aqui!
    Não é a melhor paródia possível, mas tem sacadas ótimas.

    2003-06-11

    Bardo (2)

    Doicheman! [18:13] :
    sabe o que é mais estranho? todos os caras com quem eu trabalhei, perderam as namoradas recentemente, parece o apocalipse do dia dos namorados