2003-02-18

A Galinha de 500 Anos

...
Neste ponto Maria das Dores segurou o galinhão no colo e começou a chorar, antes de olhar na direção da estátua do Cristo Redentor, que era agora o Cristo Maneta, escarnecido, cuspido, como se o Corcovado tivesse virado de repente o Monte Calvário de novo.
Ninguém sabia ao certo o que é que tinha acontecido, só se sabia que aquilo era obra e graça do tal Exu americano. Alguns diziam que, durante aquela tempestade horrenda que tinha havido no Rio, um avião, talvez um helicóptero do Exu tinha dado o tranco e arrancado o braço esquerdo do Cristo Redentor. A verdade é que, quando o Corcovado saiu de trás da cortina de nuvens estendida, o Cristo estava aleijado, estava sem o braço esquerdo, estendendo ao Rio o braço direito só!
No Rio inteiro tinha havido, logo de cara, um grito de horror, de medo. Aquilo era apenas uma primeira parte da luta do Exu estrangeiro contra o Cristo Carioca. O próprio Cristo! A prefeitura jurou que sem perda de tempo um braço novo iria substituir o outro e tudo quanto era TV fotografou os operários feito cirurgiões, montados no cangote do Senhor e tentando implantar n'Ele o braço igualzinho ao outro, feito numa marmoraria da rua do cemitério São João Batista. Mas não colava. Não ficava. Três braços, colocados por operários e escultores, foram cravados no santo sovaco mas não resistiram à primeira ventania.
Num gesto de extrema solidariedade e humildade, Oscar Niemeyer, apesar da idade avançada, e apesar de confirmar, antes da escalada, sua fé comunista, subiu intemerato até a axila do Redentor para estudar o melhor meio de transporte e encaixe, com graça e beleza. Mas balançou, entre as nuvens, a cabeça, ao lado da cabeça do Redentor. "Só se o Cristo for ao meu ateliê é que posso dar um jeito nele", disse Oscar, descendo do monumento numa asa-delta, "caso contrário passaremos a viver este horror de uma espécie de saudação nazi-cristã-fascista sobre o Rio, eternamente", sentenciou sombrio.
Nesse dia o Rio inteiro sentiu que o Mal começava a completar, do alto do Corcovado, o horror iniciado com a condenação à morte do Real, com a entronização da coroa, a moeda da decadência, da volta à correção monetária. Era o fim da paz, o reinado da fome e da angústia. Era o epílogo, definitivo, do frango na panela.
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Antonio Callado
Excerto de conto publicado originalmente na Folha de S. Paulo de 16 de junho de 1996

2003-02-12

Graça

Estou saindo de uma fase de efeito.

2003-02-10

Chat

[ MN entra no chat ]


[ SM entra no chat ]

Olá, posso ter uma palavrinha com você?

Já está tendo... :) Tudo bem?


Então... eu vi a sua mensagem de disponibilidade no iChat: Estou no estúdio. E não pude deixar de notar...

Que foi, tem algum erro de grafia nela?


Oh, não, não! Eu não chamaria de um erro... mas você já notou a redundância?

?


É. A mensagem diz: ESTou no ESTúdio. É uma repetição de uma sequência definida de caracteres, que toma espaço e gera um cacófato...

Sem brincadeira...


Então... eu sou programador, e como sempre me presto a ajudar a melhorar a vida das pessoas sem esperar nenhuma recompensa por isso, ao ver sua mensagem de disponibilidade no iChat não resisti a dar meu palpite. Espero não estar sendo inconveniente.

Não, tá, vai nessa...


Então: em programação, a gente tem um negócio chamado string, que representa uma sequência de caracteres. Então, no caso da sua mensagem de espera no iChat, teríamos isto: $ (porque o símbolo de string é um cifrão, muito sugestivo, já que todos os dados têm valor) 1 (para indicar que seu $ pode ser o primeiro de uma série indefinida, útil para implementações progressivas e escalares).

...


Daí que – você ainda está me acompanhando? –

Hm... sim...


OK, então, daí que voc pode pegar o EST de ESTou e de ESTúdio e representar por uma string, assim: $1="EST". Mas veja que prático agora...

Olha, obrigado, mas eu tenho que


Rapidinho, já acabo. Então, se $1="EST", você pode pegar o resto da frase e substituir a string 1, assim: <$1>ou no <$1>údio. Claro que antes você precisaria declarar a string 1, assim: "$1="EST". Certo?

Sério, cara, eu precis


Daí, você pode pegar o resto da frase e empacotar numa segunda string, e o código vai ficar dessa forma: "$1="EST"; "$2="<$1>ou no <$1>údio". E então, declaradas essas strings, sua mensagem passa a ser, singelamente, $2. Uma economia real de espaço e sinais! Uma sensacional condensação semântica. Desde que a pessoa que for ler isso já conheça as strings previamente definidas, naturalmente.

Escute, e


Você pode providenciar o código como uma mensagem padrão de boas-vindas que exibirá a todos os que entabularem conversação com você. Já existem scripts que tornam sua mensagem de disponibilidade no iChat dinâmica, móvel: o código pode ir lá.

Cara, pelo a


A sua mensagem de disponibilidade no iChat ainda contém três caracteres o, que poderiam ser condensados a apenas um com um simples algoritmo de compressão baseado nessa tecnologia que explanei aqui.

Ah seu mala, vai t


Imagine ISSO

om


reduzido a

ar n


uma só let

o


ra, as outras ded

c


utíveis por

u


inferência

!


?

[ MN sai do chat ]


[ SM sai do chat ]

2003-02-06

Poema

chuva com sol
ar riscado de brilhantes
perfume de chão
diáfana coluna cinzenta no céu

2003-02-05

Pergunta

Um edifício abandonado seria um... deprédio?

2003-02-01

Para pensar

Before you speak, ask yourself:
is it kind,
is it necessary,
is it true,
does it improve on the silence?

- Sai Baba