2002-04-01

Sayonara

Ah, sim.
Já ia esquecendo de avisar: este blog acabou!
Motivo?
Meus amigos vivem num frenesi de ir e voltar dos Estados Unidos, especialmente depois de o 9/11 ter represado as viagens de muitos deles e o preço das importações legais de Mac ter ficado proibitivo. Tony está, neste momento, em Paris. Parentes meus foram para a Espanha. E assim por diante. Enfim, todo mundo que conheço viaja na boa e só eu sigo carregando o fardo!
Pois eu também quero viajar!
Só que quero fazer a mais aventurosa e estranha viagem que um ser humano pode fazer: uma viagem através do espírito.
Não quero mais viver atolado no sofrimento e na falta de sentido desta vida medíocre e repetitiva. E a libertação absoluta não é nada fácil, mas está ao meu alcance. Enfim, chegou a hora de dar as costas à minha carreira de ilustrador frustrado e escritor bissexto e encarar a meta suprema. Dessa forma, estou de mala feita - nos dois sentidos!

Este sábado, estarei voando para o templo Kodaiji (tem este link também, só que em japonês e chinês), da tradição Soto Zen, que fica na linda cidade de Kyoto, Japão. Ali entrarei como funcionário. Mais para frente, tornarei-me um monge noviço.
Não tendo mais que rodar Photoshop e Quark por obrigação todo dia, ainda terei a oportunidade de usar a Internet como webmaster do templo, ajudando a espalhar o Dharma pela comunidade cibernética.
E ainda poderei dar umas fugidinhas pra assistir aos jogos da Copa em horários decentes...

Como assim, não sei japonês? Sei sim, estou estudando o idioma furtivamente, desde 1988. A leitura profusa de mangás me auxiliou muito nesse caminho de auto-aperfeiçoamento cultural.
Já sei o suficiente do idioma para não tomar as varadas de admoestação do Roshi sem nunca saber sequer o motivo. (Se bem que os monges nativos levam algumas varadas sem entender nada, também.)
Mas agora tenho que dar um tapa urgente no sânscrito e no pali. Talvez eu consiga um bico de tradução; nesse ramo há trabalho de sobra, já que apenas aproximadamente 2 por cento da literatura budista existente foi traduzida para alguma língua ocidental.

O endereço do templo para correspondência é

2-5-7 Teppo-cho
Yamagata-shi
Kyoto


Devo estar instalado lá e trabalhando dentro de uns 20 dias. Não escreva antes...
Aos colegas que ficam, cumprimentos pelo bom trabalho e pela boa missão; votos de perseverança e de que a prosperidade tão merecida quanto postergada finalmente chegue.
Sayonara!

OK. Era uma pegadinha de Primeiro de Abril...

Você acreditou?
A história que contei é plausível...
...apenas não neste momento.
Estou preso demais aos compromissos, à missão e ao estilo de vida que escolhi ter. Mas mudar não é impossível. Esse "estou preso" no fundo é só uma desculpa comodista e covarde.
Também quis acreditar na mentira... e muito! Como em toda boa mentira, muitas coisas nela são verdade. O templo e os links são reais. Eu realmente aprendi japonês (bem pouquinho, é vero) lendo mangá. Dar um chute em tudo e virar monge para dedicar o resto da vida unicamente a me ajudar e ajudar aos outros - não necessariamente nessa ordem! - também é uma aspiração verdadeira.
Aproveitei a infame data e a expressei como se fosse verdadeira porque é uma visão surpreendentemente nítida que tenho. Talvez já seja "monge" por dentro sem saber.
Fico triste de a visão não ser real, principalmente porque, à medida que ganho idade, muitas coisas que eu tinha como essenciais estão deixando de ser, e outras estão adquirindo nova relevância, o que exige uma mudança geral de atitude. Dá para se ter uma pista comparando os posts mais antigos deste blog com os atuais, mas na verdade o processo vem desde bem mais longe no tempo.
Todo mundo que me escreveu comentando se identificou com essa fantasia. Porque todos nós, nerds urbanos, compartilhamos porções variadas de escapismo, insatisfação, angústia, cansaço, consciência amarga das oportunidades de progresso espiritual que deixamos pra trás com desculpas idiotas como falta de tempo e falta de dinheiro, e a perspectiva heróica de superar tudo isso com uma ruptura radical.
Fazer uma grande viagem ajuda, mas não é nela que está a grande sacação, e sim na viagem interior, como na famosa frase de Wordsworth descrevendo Newton: "...a mind forever voyaging through strange seas of thought, alone."
Nessa viagem a gente não pode levar acompanhantes e não sabe como (ou se) irá voltar.
Os que ficaram simplesmente putos comigo não compreenderam algumas dessas coisas. Mas não vou tentar convencê-los de nada: só posso lhes pedir desculpas por eu não ser tudo o tinham em conta de mim, e agradecer a preocupação.
De resto, mentir um dia por ano me parece bem melhor do que mentir todo dia. Isso é indiscutível.