O Felipe Bravo postou uma angustiante história sobre mal-entendido na faculdade. Neste sábado, eu estava justamente comentando de passagem com a Petra sobre aquelas situações mal-resolvidas do passado, situações de falha pessoal às vezes sem nenhuma importância concreta, mas que nos causaram um mal-estar marcante, e retornam à memória anos, décadas depois, espontaneamente, e nos atormentam periodicamente como fantasmas, sem esperança de apaziguamento... (será que análise resolve?)
O que vem a seguir é bem desagradável; se não tiver saco, não leia.
Fenasoft de 1985...
Eu estava no curso técnico de Eletrônica do Liceu de Artes e Ofícios, e era precoce de um ano, ou seja, estava fazendo o segundo ano do 2º grau com 15 anos, faltando quatro meses para 16. Toda a turma recebeu convites especiais para a feira; muitos se reuniram na escola, no bairro da Luz, e foram para o Anhembi em grupo.
Eu morava na Vila Galvão, em Guarulhos, quase um pulo até o Anhembi. Fui direto de casa. Lá chegando, um pouco atrasado, apresentei o convite e ia entrando quando o segurança me pediu algum documento. O papel autorizava somente a entrada "a partir de 16 anos".
"Fodeu", pensei. Ou talvez não, porque na época eu era um garoto meio anestesiado em relação ao mundo ao redor, sem o menor jogo de cintura, sem reflexo para o inesperado. Claro que o brutamontes me barrou. Expliquei que minha turma do Liceu já deveria estar toda lá dentro e que a visita não era por diversão, e sim por razões didáticas e profissionais; em breve, todos pegaríamos estágios como técnicos nas mesmas empresas que estavam apresentando produtos na feira. Pensando bem, acho que balbuciei incongruentemente tais explicações - posso bem imaginar a patética cara de criança atordoada que devo ter feito, justo quando precisava provar maturidade.
O cara nem mesmo ouviu, creio. Barrou e não houve como. Pensei em ligar para a escola, mas todo mundo, dos colegas ao coordenador, estava lá dentro. Ainda não existia celular. Eu não tinha uma ficha para o orelhão e, se tivesse, não sabia o número de cor. Quis falar com mais alguém ali mesmo. De jeito nenhum! Finalmente, eu disse com firmeza (ou, pelo menos, a que me teria restado) que era um absurdo ser prejudicado por algo que não tinha nada a ver com minha intenção concreta e absolutamente séria e responsável para estar ali. Nada.
Voltei a pé metade do caminho, só, o cérebro explodindo de um poderoso ódio que não suspeitava que poderia existir, um ódio com massa, consistência e textura, ímpeto de botar fogo naquela merda, explodir o idiota do promotor do evento, torturar e matar o primeiro filho da puta da portaria que voltasse a invocar "regras" intransigentes criadas para resolver uma situação que não era a minha. A absoluta impotência da situação, o imerecimento, a experiência tonitruante da injustiça golpeando meu crânio, tudo fazia o meu ódio refluir em vagas rebentando contra mim próprio, e eu me maldisse decididamente.
E talvez tenha sobrado também para minha mãe, que se orgulhava futilmente pela sua idéia nada genial de inscrever na escola seu filho "geniozinho" um ano antes do usual, causando-lhe todo tipo de dificuldade de relacionamento social na escola, pois um ano de idade faz uma diferença imensa em classe quando você tem entre 7 e 17. E agora, um absurdo destes na porta de um evento profissional.
Voltando ao meu usual caráter anestesiado, no dia seguinte não fui capaz de ir reclamar na diretoria, nem mendigar a solidariedade dos colegas; a explosão interna do ódio, auto-contido pela eloquência da minha insignificância no mundo, tinha aniquilado uma fração da minha vontade, de minhas convicções positivamente ingênuas, e alterou alguma coisa dentro de minha essência, para sempre.
A alteração não foi a esperável. Eventualmente, a auto-anestesia reverteu e me tornei o mais cru anticonformista, postura pela qual pago um preço ainda hoje, muitos anos depois. Mas isso já é outra história, que demanda um outro post.